sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Do meu lado de dentro



Hoje demorei-me a abrir as janelas. Se não estivesse constipada e o meu olfato funcionasse, diria que a manhã cheira a aves marinhas. Do outro lado da rua, vejo um grupo de rapazes em idade escolar, pavoneando-se ao longo dos vidros das portas dos prédios. Depois, o senhor que varre a rua aparece na esquina, arrastando os pés atrás do seu carrinho, a vassoura posicionada como uma bandeira erguida ao vento. Uma porta bate com estrondo e a rapariga do prédio cor-de-rosa sai de casa, bonita como sempre. Traz um casaco escuro que se lhe molda ao corpo e de onde saem umas pernas longas que me fazem lembrar eucaliptos. Entra no seu carro cinzento claro e arranca, veloz, como a cor das barbatanas de um tubarão. O meu vizinho do primeiro andar sai também para a rua, levando um rosto franzido, umas calças impecavelmente vincadas e histórias indignadas para contar no café. Ouvem-se motores de automóveis, passos apressados na calçada, uma criança chora ao colo do pai. O dia começa a ganhar movimento e eu ainda estou do lado de dentro, de pijama. Ao longe, o mar é uma mancha plúmbea e eu imagino as ondas a desfazerem-se em nuvens brancas, como certos sonhos não verbalizados. Despeço-me dos meus filhos e aperto-os contra o peito, num contacto de pele, sangue e osso. Por instantes, deixamo-nos ondular juntos, como se estivéssemos no mar. Estão cada vez maiores, mas eu sei que eles se fazem mais pequeninos para continuar a encaixar na soleira do meu ombro. Hoje não os consigo cheirar, mas digo-lhes o que todas as mães dizem. A vida é isto. Um caminho que preparamos para nos perdermos de amor. E eu hoje sinto-me leve, como se tivesse um pássaro pousado no braço. Sorrio para o dia e peço-lhe que me traga o que ele quiser.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

No limiar sagrado do ser




Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.


Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


Anna Akhmatova, in Só o Sangue Cheira a Sangue