quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A sétima camada



(…)
Bedenkt: den eignen Tod, den stirbt man nur,
doch mit dem Tod der andern muß man leben.

[Pensa: com a nossa própria morte morremos apenas
Mas com a morte dos outros temos de viver.]

Mascha Kaléko


Foi por acaso que descobri que morreste. Descobri-o sozinha no obituário de um jornal. No momento, fiquei ali a flutuar entre aquelas duas datas, perdida, sentada, calada, a pensar em ti, a perguntar-me quantos anos passaram, e a lembrar-me que o teu lema de vida era Vive e deixa viver. Na minha cabeça começaram a girar imagens de nós os dois, rodopiantes como a roda de um vestido plissado. Dizias que eu era o teu mundo e pousavas as mãos na minha cintura, que apelidavas de linha do Equador. Rias junto ao meu ouvido e eu sentia as tuas pestanas a bater-me na pele como pequenos toques de borboleta. Apoiavas o teu corpo alto e magro na vetusta nogueira e contemplavas as gralhas nos fios elétricos ou procuravas as pegadas das lebres que, na primavera, devoravam os amores-perfeitos. Enchias o jardim e os peitoris das janelas de flores, e o tempo crescia nas tuas plantas. Lembro-me do cheiro da terra fresca revirada por ti nas manhãs de domingo, do céu insolitamente azul, do teu rosto marcado por uma intensidade tranquila. Era a tua maneira de ser, e não outra. E eu admirava a tua integridade e o teu modo de viver, que tinha algo de monástico. Fazias de uma certa solidão o refúgio onde te regeneravas da vulgaridade da sociedade. Lembras-te dos nossos intermináveis passeios pelo bosque? Dos nossos passos a inventar caminho à medida que caminhávamos? Há tantas histórias escondidas por contar. A vida é mais do que mera arqueologia, a tua grande paixão. Os dias e as pessoas chegam e sobrepõem-se, vagarosos, como sucessivas camadas estratigráficas. Mas, no fundo de nós mesmos, nada morre. Continuamos a dar vida ao que foi soterrado pelo tempo. Na multiplicidade das camadas antigas de que somos feitos, há sempre uma que aspira a voltar à flor da pele, que é aquela que nos pertence mais do que qualquer outra, e que é uma espécie de sétima camada. E eu posso dizer-te que tu és a minha sétima camada, a minha Troia de Homero.
Vou buscar as cartas que me escrevias todos os dias, quando estávamos longe, estando perto, mas não as leio. Ainda não consigo. Apenas preciso de dar às mãos qualquer coisa para fazerem. Ou talvez queira apenas tocar em alguma coisa que sei que tocaste antes. Quando a dor finalmente me atinge, como uma bomba que estala de repente, rebobino a minha vida e a tua. Torno-me espectadora de um filme que eu própria monto de trás para a frente. Nasceste num domingo de outono. A tua mãe dizia que o dia estava encoberto e que foste tu que deste luz ao céu. Mas morreste num dia de verão em que o sol tinha a nostalgia da sombra. O princípio e o fim nunca coincidem. As duas extremidades da vida de alguém nunca se encontram. O tempo parou para ti. A partir de agora, terás sempre a mesma idade, enquanto eu, a cada ano, me tornarei mais velha. Resta-me dar continuidade ao que tu em mim deixaste de mais bonito. E isso tu talvez não saibas, mas nós, mulheres, nunca nos separamos, em espírito, do corpo do amado. O amor é o único poema que se inscreve da mesma forma em corpos diferentes, que não se desprende da pele, ainda que um dia desapareça no mar, como as gaivotas que seguem o vento.
E tu, que história de mim guardavas na tua memória? Eu de ti guardo tudo, que é aquilo que me fizeste ser. Por isso, deixo esta página aberta a todas as nossas histórias que continuarão a nascer entre as flores e as raízes das plantas.

[Para Stephan]


Criação



Por detrás de cada dia, espera por ti uma obra de arte.  
Tu própria.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Eu e a outra



Quem escreve não sou eu. É outra que aparece e eu nunca sei o que é que ela vai escrever. Se soubesse, talvez não a deixasse escrever. As suas palavras inquietam-me, levantam os véus que ocultam a ordem oculta da minha alma e arrastam-me para regiões perigosas aonde eu, por vezes, tenho medo de ir. Ela diz-me que escrever tem qualquer coisa de noite, de montanha escarpada, de mar insondável, de sobressalto. É como rasgar as nuvens com um grito profundo, como olhar a fina capa do céu estrelado através da janela e, de tanto desejar mais vida, ter vontade de dar um murro no vidro. Diz-me que não conta histórias para passar o tempo, que talvez as conte para me transformar, mas não tem a certeza. Não sei precisar quando é que começou esta suposta intimidade entre nós, e não me lembro de alguma vez ter manifestado o desejo de querer ser outra pessoa. Mas ela parece incapaz de compreender as minhas reservas. Na verdade, não sei se a conheço assim tão bem, apesar de ela me jurar que sempre partilhámos o mesmo espaço, que somos tecidas pelos fios de lã de uma mesma história. E relembra-me várias vezes quão essencial é estarmos constantemente conscientes uma da outra, condição impreterível para se ser fiel àquilo que pede para ser arrancado do silêncio. Quanto a mim, insisto na importância da distância adequada entre as pessoas. Quando está demasiado perto, sufoca-me, soterra-me, intimida-me. Há demais de mim em tudo o que ela escreve. Porém, quando está demasiado longe, faz-me sentir abandonada. Por vezes, torno-me complacente e sento-me ao seu lado, ficando a observá-la a escrever. Vejo-a a ziguezaguear sílabas, a convocar palavras, a costurar sentidos clandestinos, porque, segundo ela, o importante é o sentido que se põe dentro das coisas, não o que se retira delas. E o sentido certo para cada momento, assegura-me, é tão importante como uma cantata de Bach, um copo de água ou a bondade. O que ela procura não são respostas, pois a vida não precisa de explicações para o que ela mesma criou.
A maneira como escuta e escreve o que deixo em silêncio faz-me duvidar da autenticidade da minha própria existência. Já me perguntei várias vezes se não será ela que me inventa, e se não serei eu que me deito nas páginas brancas do seu caderno. Qual de nós estará do lado certo do espelho? Será que não passo de uma máscara mal posta? Ou, por outro lado, será que é ela a minha liberdade? Aquela que confere verdade às fibras do meu corpo? Às vezes, encho-me de coragem e, na casa muda e silenciosa, confronto-a com as minhas questões. Para que serve tudo o que escreves? Com um sorriso leve, subtil, que não passa quase de uma intenção, ela responde-me. Isto não serve para absolutamente nada. Eu insisto. Então, porque escreves? E ela, Escrevo porque tu não te podes ver a ti própria face a face.