16/11/2018

Para a A.

Joseph Lorusso



Um dia, há muito tempo, a vida pegou em dois atalhos, encruzilhou-os e fez uma só estrada. Foi este o início da nossa viagem. Não sabíamos por onde seguia. Houve coisas que ela preferiu que não soubéssemos logo. Viajantes incautas, arrebatadas pelo apelo dos sonhos que flutuavam por cima das nossas cabeças, deslizávamos com rapidez por esquinas e curvas, acreditando que a vida era morna e branda, como a mão do sol que nos afagava a face. Passada uma galáxia de anos e algumas fronteiras de distância, os nossos caminhos voltaram a juntar-se com a mesma leveza com que se tinham separado, porque a nossa amizade não estava ainda completa. Talvez nos tenhamos reencontrado para viver juntas os anos mais difíceis das nossas vidas. Para descobrir, em conjunto, que há dores que não se assemelham a nada, que são iguais a si próprias, que há certezas que se desfazem em grãos de areia. As duas somamos uma longa história, com muitas vidas lá dentro. Histórias de desilusões, nós na garganta, medos, manchas escuras que escondem o sol. E histórias de amor, consonância, colos quentes e alegria, porque é disso que somos feitas, também. Porém, agora que já somos raparigas mais velhas, sabemos que a vida é uma estrada que se vai desenrolando, acontecendo, insinuando-se na linha ondulante do horizonte. É um improviso, para o qual não existe seguro contra todos os riscos. Ainda assim, tenho a certeza de que de tudo saberemos fazer um bom caminho. Agarra-te com força, fecha os olhos, sente a brisa, respira as cores mais quentes. No porta-luvas, tens um lenço para a cabeça. Porque nesta viagem sem mapas, há coisas que não podem deixar de ser afincadamente protegidas, como um penteado do vento. Não é assim, miúda?

[Estarei de mão dada contigo até acordares.] :)