20/01/2019

Chá com livros (III)

André Derain, The Cup of Tea, 1935


Tenho quarenta e nove anos, envelheço, vou morrer. Tive treze filhos, perdi sete. Escrevo esta carta para ninguém, ouço a pena a raspar a folha, a casa está vazia, às vezes penso que ouço passos, uma sombra nas escadas, Johann Sebastian a agarrar o corrimão e a contar os degraus, na escuridão, doze, treze, catorze degraus, as mãos estendidas a tocarem o cravo, os candelabros, a cadeira. Levanto os olhos da folha e penso que vejo as mãos de Johann Sebastian, as veias, as manchas castanhas na pele, as mãos que dantes tocaram os órgãos de Leipzig, mãos cegas e inúteis. Levanto os olhos, deixo de o ver, era apenas a sombra de uma nuvem a passar na janela, o resto dum cheiro de tabaco, suave engano que se esvai, uma despedida, estou sozinha outra vez.
Vossa Magnificência, mui nobres Senhores, vou rasgar esta carta, escrever outra, voltar ao início, deixar apenas o meu pedido oficial, mais seis meses a morar nestes apartamentos, como se meu marido ainda vivesse aqui, e eu pudesse esperá-lo, quando regressava a casa, vindo da Escola. Como ouço e sinto as crianças que morreram, Magnificência, Senhores, e nunca mais abandonaram esta casa, estes aposentos que não me pertencem, tão vazios.
Já as minhas filhas acabaram de copiar a partitura. Johanna Carolina vai à cozinha preparar a ceia, o sol desce sobre os telhados de Leipzig, sinto-me tão cansada. Já poucos amigos nos visitam, e mal saímos dos apartamentos. Quem, nesta cidade, ainda se lembra do irascível velho Bach, como dizem, quem recupera as partituras de um Oratório ou uma Paixão num estilo tão fora de moda? E ainda que eu conserve as minhas cópias, ainda que alguns amigos preservem a memória do Kantor, o esquecimento virá.
Mas ainda que as partituras sejam esquecidas, ainda que mais ninguém cante estas obras, ainda que vendam e dispersem as cópias, e daqui a seis meses me façam sair destes apartamentos, ainda assim, a alegria de eu ter conhecido esta música, Vossa Magnificência, mui nobre Senhores, essa nunca me podereis pagar, nem tirar. Pois a necessidade é cruel, são terríveis o frio e a fome, frágil o ânimo dos homens, e os exércitos atravessam as terras destruindo tudo quanto encontram, mas que eu tenha ouvido um moteto como Singet dem Herrn, que eu tenha ouvido e cantado esta música, já nem esquecimento nem violência nenhuma, nem o frio e a fome, me podem nunca roubar.
Mas a noite cai, termino esta longa carta que amanhã rasgarei, para apagar tudo quanto vos possa dizer. E em segunda missiva hei de jurar, então, que serei, toda a minha vida, com todo o respeito,
de Vossa Magnificência, mui nobres, mui honrados, e mui sábios Senhores,
a criada mui obediente

                                                                                                            Anna Magdalena
                                                                                                                     Viúva

                                                                                                                                              

Pedro Eiras, in Bach