sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Uma questão de sobrevivência?



Ela faz um sorriso fulgurante, olhando para mim. As palavras saem-lhe enroladas em açúcar. Conta-me que está novamente apaixonada. Depois, suspira e agita a mão direita, como se quisesse afastar de si a memória de um presente que ainda se lhe cola à pele. É que já não aguentava mais aquele enfado. Sempre a tropeçar nos mesmos trejeitos, na soporífera pasmaceira dos dias sempre iguais, na insuportável previsibilidade de tudo. Era como se assistisse ao mesmo filme de autor toda as noites. Já quase esquecera as borboletas no estômago, as tremuras, as arritmias… e a falta de apetite, que, por sinal, tanto jeito lhe dava. Porque não poderiam estas sensações durar para sempre?
De forma prosaica, replico que tal hipótese seria fisiologicamente insustentável para a humanidade. O Serviço Nacional de Saúde, a braços com tantos doentes dos nervos, entraria rapidamente em colapso. Quem é que resistiria, com bravura, a tão constantes ímpetos? Irremediavelmente votada a um contínuo estado de síncope, a humanidade ficaria mais vulnerável a riscos demográficos. Poucos conseguiriam sobreviver até às Bodas de Prata, já para não referir as de Ouro. Os sobreviventes, macérrimos e consumidos, de nervos em frangalhos, com sacos de soro pendurados por não se alimentarem convenientemente há anos, não passariam de uma débil palha balouçada ao sabor dos caprichosos ventos da paixão. Talvez a cessação deste estado ardente sirva precisamente para garantir a preservação da espécie, concluo.
Mas não deixa de ser curioso, prossigo, que esta seja a mais apetecível e louvada fase do amor. Mais, que aquela que é considerada a mais bela e intensa história de amor da humanidade*, o arquétipo do amor perfeito, tenha durado apenas de domingo a quinta-feira, não perfazendo sequer uma semana.
Ela olha-me, contrariada. Eu disfarço o riso e ela continua, de cabeça nas nuvens, a desfiar teias de algodão doce.

* Romeu e Julieta

[Não acreditem em tudo o que escrevo. Na verdade, sou uma romântica incorrigível.]


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A lição



Um dia, esbarrei num muro. Surgira de repente como que vindo do nada. Era muito alto e imponente e estava atravessado no meu caminho. Tentei transpô-lo, saltando, esticando-me. Não consegui. Mais tarde, regressei com cordas e mosquetões e empreendi nova tentativa. Em vão. O muro permanecia intransponível. Esgotada, sentei-me em silêncio olhando a sua parede branca que quase tocava o céu. Nada mudou. Só então é que percebi que não era por ali que tinha de passar.



[Por vezes, o verdadeiro obstáculo somos nós.]