segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Lord Don't Move The Mountain


But give me the strength to climb...




  
[para entoar no silêncio do coração]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O amor sem idade



Esta manhã, quando entrava no café, esbarrei em dois olhinhos muito azuis que me fitavam, expectantes. Mas rapidamente se desinteressaram de mim, voltando a colar-se à porta. A dona do bonito par de olhos era uma senhora de respeitável idade, muito aprumada e elegante. Sempre a sorrir, segurava na mão direita uma chávena que levava à boca com parcimónia. O cabelo prateado, uma verdadeira obra arquitetónica, estava impecavelmente penteado, enfunado e vaporizado de laca. O rosto era pálido e delicado, animado por uma boca amável, pintada de vermelho. O café estava apinhado de pessoas e do rumor das suas conversas. Ocupei a única mesa que se encontrava vaga e que ficava de frente para a sua. Não tirava os olhos da porta, apenas interrompendo a vigília para, com a outra mão, compor o lenço floreado que trazia à volta do pescoço ou lançar uma breve olhadela ao relógio de pulso. Os gestos algo inquietos indiciavam que esperava alguém. Certamente alguém muito especial, pensei, sorrindo para dentro. Quando um senhor alto e grisalho se dirigiu a passos largos para a sua mesa, a boca abriu-se-lhe num sorriso ainda maior, como um sol vermelho-vivo a nascer. Ele tinha o bom ar de quem tem gosto pela vida e uma voz de rádio. Como vai, minha querida? Ela olhou-o, enlevada, enquanto uma nuvem de seda escarlate lhe subia pelo rosto. O empregado veio receber o meu pedido e, quando voltei a olhar, já o senhor estava debruçado sobre a mesa, com o rosto quase encostado ao dela. Não sei o que lhe dizia, mas nos olhos dela, agora mais claros que dois relâmpagos, eu lia o desejo de querer ser feliz. Pouco depois, levantaram-se, ele colocando o braço por cima dos ombros dela com uma certa falta de jeito, como se ainda não estivesse habituado a tanta sorte. Cúmplices, leves e esperançados, saíram para a rua, deixando sobre a mesa uma marca de batom vermelho a sorrir numa chávena.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O grito



Entrou na clínica agarrada ao braço da filha. Corcovada pelos anos, o queixo colado ao peito, dava passos pequeninos e bruscos, semelhantes a pequenos solavancos. Por pouco não tropeçava nos próprios pés, já esquecida de acertar o passo com o mundo. Os olhos baixos pareciam fixar a ponta do cachecol, que lhe escorregava do pescoço, e quase tocava o chão. Trazia vestido um casaco demasiado comprido, que lhe dançava no corpo e que, provavelmente, não a resguardava do frio agudo que sentia por dentro. O curto trajeto que fez até ao gabinete, onde seria feita a recolha de sangue, sugou-lhe as forças. Deteve-se junto à porta por breves instantes e entrou na divisão, sempre conduzida pela filha.
Mais tarde, ouviu-se um grito lancinante, quase animalesco. Depois novo grito. Outra vez. Cada vez mais alto. Gritava como se algo maior do que a fina dor provocada pela picada da agulha irrompesse à superfície, vívido e dolorosamente ardente. Na sala de espera, os olhares despegaram-se das páginas das revistas e dos ecrãs dos telemóveis e ergueram-se, tensos, sem linha de horizonte. Por fim, fez-se silêncio. Um silêncio mais profundo do que tudo, intensificado pelos gritos que continuaram a balouçar no ar, latejando-nos nos ouvidos. Às vezes, ouvir é um segredo. E um grito é sempre mais do que um grito.
Quando saiu do gabinete, vinha a tremer, como um pássaro aterrorizado com a tempestade. Perdida em si mesma, assustada com o mundo que há muito deixara de compreender, deixou-se guiar para a saída, nos seus passinhos sacudidos e sem coordenadas. Disfarçando o embaraço com um sorriso, a filha pediu delicadamente desculpas pelo incómodo e agradeceu a compreensão de todos os presentes. De braço dado, tão perto e tão longe uma a outra, à distância intransponível da doença que evapora a vida por dentro, saíram para a rua, desaparecendo no nevoeiro que cobria a manhã com o seu manto espesso e surdo.

[Quando chegou a minha vez e a agulha da seringa me perfurou a pele, apeteceu-me também gritar. Não o fiz. Mas quando cheguei a casa, tive de escrever este texto.]


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

As cores de dentro



O que é essencial escapa aos olhos. Se não for sentido por dentro, não há cor, por mais bela ou delicada que seja, que nos sirva de redenção. As cores com que vemos o mundo têm de ser primeiro preparadas e misturadas por dentro. Ninguém consegue olhar com prazer um arco-íris se não tiver antes pintado um dentro de si. Somos feitos de sangue e de células nervosas. Somos falíveis e inacabados. Apesar de todos os dissabores e desilusões que sofri, e fiz sofrer, gostava de continuar a contar com o melhor dos outros e de mim. Este é um ideal que gostaria de acalentar até ao fim dos meus dias. Talvez esta seja a única forma de preservar a alegria. Porque, sem inocência, não há alegria.
Um dia, almoçávamos com os meus pais, quando o meu filho perguntou subitamente, Avô, que cor veem os cegos? Eu, que sempre o quisera saber, mas que, por pudor, nunca me atrevi a perguntar, sustive a respiração e aguardei a reação do meu pai. Na verdade, sempre me perguntei se o que o meu pai via era um nevoeiro espesso, como uma cortina de gaze, palpitantes e trémulos pontos de luz, como quando fechamos os olhos, ou uma escuridão completa de luzes apagadas. O meu filho, que era ainda muito pequeno, achou que aquela era a pergunta mais natural do mundo. E o avô também assim o entendeu. Sorrindo, o meu pai respondeu que nem todos os cegos viam a mesma coisa, que alguns viam luzes coloridas, enquanto outros viam tudo negro. Esse era o seu caso. Para ele, era como se fosse sempre de noite. O meu filho, que tinha medo do escuro e que, na altura, dormia com uma luz de presença sempre acesa, replicou que isso era muito assustador. O avô apressou-se a explicar que não era assustador, porque continuava a ver com as mãos, com os ouvidos e com o coração. E que ver com o coração era, na verdade, muito importante, porque era este que dava cor ao mundo.
Naquele dia, percebi que o meu pai vê uma escuridão que brilha. No fundo, já o sabia. O meu pai é um ponto de luz para todos nós. É ele que nos ensina que há sempre uma alegria por descobrir e que, para ver uma borboleta a sair da sua crisálida, é preciso confiar nas cores das suas asas. Há pessoas que tiram a cor ao mundo. Mas os olhos do meu pai, que já não veem, mas ainda choram, sabem colorir o mundo com as cores de dentro.


[Vejam este vídeo. Tenho a certeza de que vão gostar.]