quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ao Fim


Hossein Zare


Ao fim são muito poucas as palavras
Que nos doem a sério e muito poucas
As que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
Que tocam nosso coração e menos
Ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
Que em nossa vida a sério nos importam:
Poder amar alguém, sermos amados
E não morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista / Ao Fim


sábado, 26 de novembro de 2016

Os meus sábados



Os meus sábados têm muita gente. São agitados, rápidos, como a saia rodopiante de uma bailarina. O sábado é o dia de acordar cedo (como todos os outros, de resto), tomar o pequeno-almoço fora, comprar fruta e legumes na frutaria do senhor António e, em seguida, ir a correr visitar os meus velhinhos. O sábado é o dia em que preciso do meu sorriso mais lustroso. Há tanta gente, tantas vidas, tantas vozes a pedir mais do que as palavras dizem, talvez um pouco de felicidade, embora eu não saiba onde ela se encontra.
À chegada, cumprimento o senhor V. que vem sempre ver a mãe e lhe acaricia, em silêncio, as mãos deformadas pela artrite, os dedos hirtos sem nada para agarrarem. Ofereço o meu melhor sorriso à Dona E. que, de ombros caídos, encolhidos, espreita sem nada ver pela janela, a pensar no marido que morreu há um mês. Sento-me ao lado da Dona M. que, no mesmo dia em que a filha lhe contou que iria ter mais um neto, o médico lhe estendeu o resultado da biopsia e lhe disse “quimioterapia”. Por baixo de todas as peles, aveludadas e rugosas, de todos os silêncios, está carne vulnerável, gelo quente de uma vida intensa. Às vezes, canto em surdina e faço de conta que sou forte. Disfarço a minha impotência, a tristeza que se cola ao céu-da-boca e me embacia o olhar. O sábado é o dia em que tomo verdadeiramente consciência da minha pequenez, da minha insignificância, do pouco que posso fazer. A verdade é que são estas pessoas que me ajudam e eu abençoo-as por isso. Desejo, com todas as minhas forças, que consigam ainda ouvir o amor na voz de uma mãe ou de um pai que recordam com saudade, e que isso as reconforte um pouco.
De volta a casa, a presença dos meus filhos ao almoço, como o clarão inesperado de um arco-íris, ajuda-me a suportar a dor do que não posso alterar. Mais tarde, são os seus amigos que chegam e que ficam. São as suas risadas, umas por cima das outras, como castanholas alegres, que enchem a casa e me trazem novos tons à alma. Os meus sábados são cheios de palavras. E de pessoas. Apenas preciso de ouvidos diferentes para as saber escutar.

[Este blogue faz hoje dois anos e eu estou dois anos mais nova (sim, que isto dos blogues rejuvenesce). Nestes dois anos, muita coisa aconteceu. O registo foi mudando, perdi alguma da minha alegria infantil e, isso, talvez não seja bom, não sei, mas tenho tentado manter-me fiel ao lema Miss, smile. Não esqueci o contorno das pessoas que fizeram este caminho comigo. Há afetos que nascem com a escrita. E esses, quer queiramos quer não, ficam para sempre gravados nas linhas que escrevemos. Um blogue respira vida quando tem gente dentro, como os meus sábados. Muito, muito obrigada a todos os que, ao longo destes dois anos, não me deixaram aqui a falar sozinha 💓]