quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mestre Biju




Enquanto beberico uma chávena de chá com uns pingos de leite para despertar os sentidos, contemplo o gato Biju que dorme o seu sono de beleza, sem que nada o perturbe. O meu companheiro das horas solitárias é também um mestre, uma espécie de monge budista que vive cá em casa. A serenidade e a paz parecem ser o seu lema de vida.
Também a mim me apetece, com consciência limpa, repetir com Fernando Pessoa: “Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer...”

David Lodge que me perdoe…



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O blogue



 


Iniciei o dia com a minha atividade física habitual: a hidroginástica. A aula estava hoje menos frequentada do que o costume. A chuva e o frio retêm em casa todos aqueles que deixaram de cumprir horários. Quanto a mim, não há intempérie que me amedronte. Depois de um pequeno-almoço frugal, pus-me a caminho do ginásio de que sou sócia há 13 anos. Não passo sem este ritual matinal. Preciso do exercício, do convívio, dos risos e da cumplicidade com as outras velhotas que, como eu, estão prontas para as curvas.
Quando cheguei, já a Manuela, a Clarice e a Emília me acenavam. Entrei na piscina e juntei-me àquele grupo de “batráquios” atacados de frenesi. A aula deixou-me hoje derreada.
Exausta, regressei ao balneário, onde a Manuela me contou que tem uma nova empregada, oriunda da Ucrânia. Fiquei deleitada com a perspetiva de poder ter acesso à gastronomia ucraniana. Já ouvi falar da famosa sopa de beterraba.
No jacuzzi, para onde fomos todas pôr a conversa em dia, a Emília contou-me que anda a pensar criar um blogue de culinária. A Emília cozinha lindamente e é um deleite para todos os sentidos sempre que me convida para ir almoçar lá a casa. A sua ideia pareceu-me excelente.
Fui para casa a remoer no assunto. E se eu criasse também um blogue? Assim uma coisa mais genérica? Sobre mim, os meus interesses, o mundo que me rodeia, visto pelos olhos de uma mulher madura?
Depois de concluídas as atividades menores, sentei-me no sofá para uns preciosos momentos de leitura. Aos meus pés, o gato Biju tenta-me roubar a manta lilás que me cobre os joelhos. Enquanto o aroma da infusão de jasmim se propaga pela sala, retomo a leitura do livro “Deaf Setence" de David Lodge (edição inglesa da Harvill Secker). Identifico-me com o protagonista: Desmond Bates. Somos ambos velhinhos, a desfrutar dos prazeres da reforma e das vicissitudes da velhice. O que nos distingue é a surdez. Eu continuo a ter ouvidos de tísica. Nada escapa à minha audição apurada. Às vezes, até ouço o que não devo!
Li duas páginas, mas os pensamentos estavam dispersos. A ideia do blogue não me deixava em paz. Resoluta, telefonei ao meu neto Vasco de 13 anos para vir almoçar comigo e ajudar-me nos complicados meandros da Internet. Ainda sou uma novata nestas andanças.
E é assim que embarco nesta aventura virtual!

Miss Smile