sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Um amor platónico

Talvez seja difícil acreditar que ainda existe amor platónico no século XXI. E ainda mais difícil acreditar num amor platónico que dura há mais de 50 anos. Mas ele existe. A minha amiga C. é a protagonista da história que vou contar. A C. autorizou-me a publicá-la aqui.
Quando se conheceram estavam já ambos comprometidos. Encontraram-se numa festa, onde foram com os respetivos companheiros. Foi amor à primeira vista. Trocaram olhares e sorrisos. Passado algum tempo, encontraram-se junto do buffet. Ele fez um comentário espirituoso. Ela riu-se. Ele encarou-a fixamente. Ela corou. Começaram a conversar e descobriram muitas afinidades e interesses em comum. Foi então que ambos compreenderam que algo tinha mudado. Que já não eram as mesmas pessoas que tinham entrado naquela sala horas antes. E foi nesse dia que começou a sua história de amor.
Quando a noite já ia avançada, trocaram números de telefone e cada um voltou para as respetivas vidas. Ao longo destes anos todos, não se voltaram a ver, mas falavam ao telefone duas a três vezes por mês. Ele viajava pelo mundo por motivos profissionais, mas telefonava-lhe sempre. Falava dos locais que visitava, dos costumes, da sua vida. Nunca falava da mulher e ela nunca falava do marido. Era um pacto que existia entre eles. Às vezes, ficavam horas ao telefone, falando disto e daquilo, imaginando o que fariam se estivessem juntos, que países visitariam, que cidade escolheriam para viver. Ela suspirava em sonhos acordados.
Ele acabou por ir viver para Paris e, anos mais tarde, ficou viúvo. Também ela acabou por perder o marido, que morreu de uma implacável doença prolongada. Passados meses, ele convidou-a a visitá-lo em Paris. Depois de muito ponderar, ela marcou a viagem sem, no entanto, lhe dizer quando chegaria. Queria ter algum tempo para se preparar, para ganhar coragem para aquele encontro. Três dias depois da sua chegada a Paris, ao acordar, soube que o dia certo tinha chegado. Vestiu-se com esmero, maquilhou-se, disfarçou as olheiras e colocou o mesmo perfume que usara no dia em que o conhecera. Depois, com o endereço dele rabiscado num papel e o coração nas mãos, pôs-se a caminho. Quando chegou à rua, sentiu o coração a disparar. Encostou-se a uma árvore do jardim que ficava em frente à casa dele e respirou fundo. Olhou para a janela que julgava pertencer ao apartamento dele. E pôs-se a imaginar como seria a sua vida a dois por detrás daquelas cortinas - os momentos de ternura e de terna paixão, a espirituosidade dele, a cumplicidade dela, mas também o passar do tempo, a degradação física, a doença, a impotência, a morte. E o medo de ficar outra vez sozinha, de voltar a sofrer. Não, ela não queria mudar a ordem das coisas. E foi na solidão da sua lucidez que decidiu que não iria visitá-lo. Queria antes relembrá-lo como o conhecera e queria que ele continuasse a pensar nela como ela era há 50 anos. Decidiu que não queria concretizar esse amor, que, entretanto, se tinha tornado possível. Queria conservá-lo perfeito, jovem, saudável e romântico. Para sempre. Só para si. Deu meia volta e foi-se embora a passos largos. Quando regressou a Portugal, continuou a amá-lo em silêncio e a viver com saudades de um futuro que nunca acontecerá. E ele nunca soube que ela esteve a poucos metros da sua casa, tão perto e tão longe ao fim de tantos anos.







10 comentários:

  1. Que linda história! A C. quis manter este amor perfeito sem as mazelas causadas pela rotina, pelo envelhecimento e pela doença. Depois de ter sofrido tanto com a doença e a morte do marido, compreendo a sua decisão.
    Emília

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  2. Obrigada por partilhar aqui a história da sua amiga. É linda.
    Rosa

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  3. Também gostava de ter um amor assim. Tão puro, tão idealizado…
    Isabel

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  4. Apesar de não ser uma história com um final feliz, é uma história encantadora que nos faz reflectir sobre o amor, as oportunidades e os desencontros da vida. Acho que a descreveste de uma forma maravilhosa. Quase que me vieram as lágrimas aos olhos.
    Adelaide

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  5. Mais uma vez, prendeste-me ao computador com esta história. Não me importava nada de estar na pele do prezado senhor e ser alvo e tamanha paixão.
    António

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  6. uma história tão bonita e tão triste ao mesmo tempo!
    Filipa

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  7. Se calhar foi esse amor impossível que tornou o casamento de ambos possível.
    Maria do Carmo

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  8. Até pela citação de Gabriel Garcia Marquez - no livro dele Amor em tempos de cólera, só com uma idade avançada eles vivem finalmente o amor que sentiam - acho que ela deveria ter ido ao encontro dele.

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