19/04/2015

Miss, smile



Miss Smile é apenas mais um nome que oculta um rosto sob a máscara do anonimato. Mas se a Miss Smile desse pelo nome de Maria, Rita ou Margarida, nomes que lhe confeririam uma existência mais verosímil, isso mudaria alguma coisa? Penso que não, porque quem me lê continuaria sem saber quem sou, tal como não conhece a massa anónima de Cristinas, Ritas e Margaridas que povoa a blogosfera. Da mesma forma que ninguém duvida da irrefutável realidade de um lenço amarelo, mesmo quando esse lenço amarelo é simultaneamente designado de acessório, lenço da mãe, lenço para o frio ou prenda de aniversário, também eu posso ser Miss Smile, sem que este nome me retire a identidade ou a autenticidade.

O meu gato, por exemplo, chama-se Biju, embora eu lhe acrescente sempre o epíteto de “Mestre”, não por aquilo que ele me ensina, pois é comummente sabido que os gatos não ensinam nada, mas por aquilo que eu aprendo com ele. Todavia, quando penso nele, penso sempre em Artur, que é o nome que lhe estava destinado numa alusão vaga a Schopenhauer. As doces súplicas dos meus netos e a sua preferência pelo nome Biju levaram a melhor. No entanto, num voto de fidelidade a mim mesma, o Biju continua a ser Artur para mim. E embora o gato seja o mesmo, o que difere é o olhar. Os meus netos veem-no como Biju. E embora eu o designe por Biju quando lhe afago o pelo, continuo a vê-lo como Artur. Não há aqui qualquer dualidade. Afinal, ambos os nomes designam o mesmo gato que, indiferente a questões ontológicas, dormita, plácido e indiferente, no sofá, existindo em todo o seu esplendor no contexto que o circunda. E isto faz-me pensar na trama múltipla e oculta das nossas existências. As que pensamos que temos e as que nos atribuem. É essa descontinuidade que o espelho que são os outros nos devolve todos os dias. E talvez por isso, escrever seja uma forma de preencher esses espaços em branco da existência.

Mas regressemos à questão do nome. O nome, por vezes, diminui-nos, aumenta-nos ou contrai-nos. Quando penso no meu nome de batismo fico presa num tempo, num espaço e em todos os vínculos que o sustentam. Miss Smile é uma criação, um pseudónimo. Mas é um nome de carne e osso. Isso posso assegurar-vos. Miss Smile sou eu. Escolhi-o, porque me relembra que é preciso sorrir todos os dias. Sorrir, sobretudo por dentro, como uma oração que se profere em silêncio. Mesmo quando a vida mostra a sua face mais cruel. Mesmo quando as lágrimas me cortam a respiração e a dor me comprime o coração num abraço apertado. Mesmo assim, é preciso sorrir. Para mim e para o mundo. Para a beleza das coisas criadas. É desta forma que seduzo a vida e agradeço as pessoas e as coisas que iluminam e aquecem os meus dias como um sol. Só isso. Quando me distraio, logo uma singela vírgula disciplinadora se interpõe entre a forma nominal e o nome próprio, chamando-me à razão: Miss, smile.

Sem imposições e preconceções, eu diria que a Miss Smile é mais genuína do que eu, porque se libertou da objetividade de um nome que a enquadra. É exatamente esse desenraizamento que a impele a escrever, sentir e ser o que lhe aprouver. Adquirir um novo nome não significa atraiçoar o primeiro, mas enriquecer o que já se é com uma nova alma. A identidade é uma procura constante do que se é e do que se pode ser. Porque o mundo é aberto e incompleto.