quarta-feira, 20 de maio de 2015

A rainha de Hainberg




Lou Andreas-Salomé
Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamamento para longe.

Lou Andreas-Salomé, in Cartas a um jovem poeta 


Sempre que passava de bicicleta pelo número 101 da Herzberger Landstrasse, em Göttingen, gostava de parar um pouco para retomar o fôlego e contemplar o edifício moderno de fachada incaracterística que sobressaía na paisagem. Não porque este suscitasse qualquer interesse arquitetónico, mas porque fora contruído no mesmo local da casa onde vivera Lou Andreas-Salomé. À entrada, uma placa afixada em sua memória relembrava que a romancista, ensaísta e psicanalista russa passara ali grande parte da sua vida, de 1903 a 1937.
Lembro-me que encostava a bicicleta a uma árvore e ficava ali por momentos a recuperar a voz longínqua daquele lugar. Imaginava a casa “Loufried”, como Lou a designava, bordejada de bosques, em cima da colina de Hainberg, com Göttingen, na altura ainda uma pequena povoação, deitada a seus pés. Imaginava o jardim perfumado de rosas e árvores de fruto e Lou mergulhada nas sombras alongadas dos fins de tarde a escrever os seus romances e anotações de viagem. Com alguma imaginação vislumbrava-a também no inverno, atrás dos vidros rendilhados de neve, sentada à secretária a elaborar os seus ensaios de psicanálise.
Esta mulher dedicada ao estudo e à escrita exerceu uma enorme atração sobre muitos intelectuais da época. Para além da sua beleza, o seu encanto residia sobretudo na sua personalidade e inteligência. Lou Salomé foi uma musa para vários homens: Rilke, Paul Rée, Nietzsche, entre outros. Também Freud, que a designava de “poeta da psicanálise”, se rendeu à sua inteligência. Foi na sequência da sua intensa colaboração com Freud que Lou abriu o seu consultório de psicanálise na casa “Louried”. Independente, determinada, culta e apaixonada pela vida, Lou Salomé era uma fonte de inspiração para os seus companheiros, extraindo o melhor deles próprios, sem nunca abdicar da sua autonomia e criatividade. Considera-se que foi o grande e único amor de Nietzsche, que a pediu duas vezes em casamento. Nietzsche reconheceu ter escrito Zaratustra por inspiração de Lou, salientando que ela compreendia o seu trabalho melhor do que ninguém. No entanto, Lou recusou sempre os seus pedidos de casamento. Em 1887, aceitou casar com Carl Fried Andreas, um professor da Universidade de Göttingen, depois de este ter tentado suicidar-se, desesperado por não ser correspondido amorosamente por Lou. Durante os longos anos de casamento, nunca houve qualquer contacto físico entre eles, pois ficara estabelecido que cada um preservaria a sua liberdade individual. Carl Fried Andreas vivia no piso inferior e Lou no piso superior da casa. Carl trabalhava pela noite fora, enquanto Lou gostava de se deitar e levantar cedo. Além disso, Lou passava grande parte do tempo em viagens. Tornou-se amante e musa de Rilke, catorze anos mais novo, com quem fez uma viagem à Rússia, onde conheceu Tolstoi, entre outros grandes nomes da literatura russa. E embora Lou se tenha separado de Rilke ao fim de seis anos por sentir a sua liberdade limitada pela dependência e estados depressivos do poeta, a correspondência entre eles perdurou até à morte de Rilke.
Lou Andreas-Salomé viveu de forma intensa, dedicando-se à filosofia, poesia e psicanálise. Entregou-se ao outro e ao mundo com a mesma naturalidade com que se afirmava como mulher e indivíduo. A experiência do amor e da criação artística serviram-lhe de inspiração para uma vida plena. Possuía o dom de inflamar a criatividade dos homens com quem privou sem prescindir do seu percurso pessoal. Lou permaneceu sempre fiel à sua essência, ao amor pela vida, pelo trabalho e pelo estudo. A sua sede de liberdade e o estilo de vida pouco convencional para a época valeram-lhe o epíteto de “bruxa de Hainberg” pela população de Göttingen. Mas para mim, ela foi sempre a “rainha de Hainberg”.