sexta-feira, 1 de maio de 2015

Mandei vir um canalizador e veio uma pessoa*




Gosto muito de pessoas. Gosto de cumprimentar as pessoas na rua, de procurar os seus olhos quando me abordam, de lhes sorrir quando nos cruzamos. Gosto quando me retribuem o cumprimento, o sorriso e o olhar. Sinto que há tanta humanidade nesta capacidade de gostarmos uns dos outros, mesmo quando nos somos estranhos. Para mim, é esta a verdadeira delicadeza. O sorriso, as pequenas atenções, as palavras amáveis que prezam a presença do outro. Lembro-me de um dia ter levado os meus netos a almoçar no McDonald's e de ter trocado algumas palavras com o funcionário que nos atendia enquanto aguardava que me aviassem o pedido. Quando lhe perguntei se estava satisfeito com o trabalho, ele respondeu que o trabalho, esse, não era problema. O problema residia nas pessoas que não o tratavam como um ser humano. Que debitavam, apressadas, os pedidos sem quase olharem para ele. Que o faziam sentir um objeto, uma peça de mobiliário. Isso era o que mais o incomodava. Nunca me esqueci destas suas palavras. Por isso, quando chamo um canalizador, recordo-me sempre que, numa primeira instância, estou a chamar uma pessoa. Quando vou ao talho, penso que o talhante que me corta os bifes e me tira a pele ao frango é, em primeiro lugar, uma pessoa. Uma pessoa única, insubstituível, não permutável. Uma pessoa com família. Com amigos. Com sonhos, dissabores, frustrações, alegrias e espantos. Quando o senhor do café me coloca o chá de camomila sobre a mesa, penso que aquelas mãos já afagaram a cabeça de um filho, consertaram coisas, transpiram de ansiedade, se uniram a outras com ternura. Que os gestos daquelas mãos contam uma história. Única e irrepetível. E que dentro da sua história há uma infinidade de histórias e de pessoas. Uma profusão de matrioskas, ligadas por múltiplos laços. Gosto de gostar de pessoas. Espanto-me com a diversidade de existências. Tão diferentes e tão iguais na sua pertença ao mesmo tempo cronológico. A consciência de que vivemos dos mesmos apetites e sofremos dos mesmos males. A universalidade dos afetos humanos. O laço inefável que nos liga uns aos outros. Essa onda quente e deliciosa que nasce no coração quando alguém nos trata como uma pessoa única, abarca a impermutabilidade da nossa presença e fecunda a nossa vida com a sua delicadeza.