domingo, 21 de junho de 2015

Amores de verão




Sempre que ouço esta música de Michel Fugain não consigo deixar de pensar nos meus amores de verão. E ainda foram alguns, acreditem. Na maioria dos casos, foram paixonetas inconsequentes e fugidias, como a brisa leve do verão. Numa época em que as férias se prolongavam por três intermináveis meses, a vida fluía placidamente, apenas agitada pelo despontar de alguma tenra paixão. Claro que, com treze, catorze anos, não se pode falar de amor. Seria talvez mais o apelo do desejo, a mera curiosidade pelo sexo oposto.

Assim que chegávamos ao Algarve, onde passávamos os três meses de verão, eu e as minhas primas desfrutávamos de uma liberdade inaudita. Íamos à praia, jogávamos minigolfe, comíamos gelados e, alegria das alegrias, saíamos à noite. Claro que tamanha condescendência por parte dos nossos pais não era inocente. Na verdade, esta estranha infusão de hábitos noctívagos nos mais novos tinha uma função, a de vigiar as irmãs e primas mais velhas e de, eventualmente, servir de “empecilho” a alguns admiradores mais audazes. Encantadas com a assunção de tão aprazível tarefa, acompanhávamo-las nos seus passeios noturnos, dois ou três metros atrás, para não perturbar as suas conversas privadas. E nós, as primas mais novas, fora do controlo visual das mais velhas, regalávamos a vista com o desfilar de rapazinhos que se cruzavam connosco na marginal. Retínhamos os rostos mais bonitos e bronzeados, trocávamos olhares furtivos, e num exercício de pura criatividade, dávamos nomes aos rostos, que perduravam até ao fim da temporada. Depois de calcorrear a calçada à noite, rumávamos em bando até à praia logo pela manhã. A pretexto de uma caminhada, percorríamos, expectantes, o extenso braço de areia, olhando de soslaio os corpos estendidos nas toalhas, à procura dos “belos objetos de estudo”, chamemos-lhes assim, que víramos na noite anterior.

Lembro-me de que, num ano, tive um fraquinho por um rapaz que batizara com o nome de “Palhinhas” pelo facto de usar sempre um chapéu de palha na praia. Era um rapazinho moreno, bem-parecido, pelo menos, eu assim o julgava na altura, que frequentava a missa aos domingos à tarde, acompanhado pelos pais. E enquanto estes, sentados no primeiro banco, celebravam a Eucaristia com ar solene, entoando cânticos com devoção e fervor cristãos, o filho virava-se frequentemente para trás, fitando-me com os seus expressivos olhos castanhos. As minhas primas, indiscretas, acotovelavam-se e soltavam risadinhas abafadas. E eu afundava-me no banco, sentido mil borboletas a brincar no estômago.

Num domingo, no fim da missa, quando aguardava no adro que as minhas primas saíssem da igreja, o “Palhinhas” começou a caminhar na minha direção, assim, sem mais nem menos, como se fosse entabular conversa. E eu, sem saber o que fazer, petrificada, colada ao chão, com o coração a bater tresloucadamente, a boca muda, sem fala, e o rosto a arder, como uma tocha incandescente, desatei a correr dali para fora, quase tropeçando nas minhas próprias pernas, como se fugisse da minha sombra. Só parei em casa, onde fiquei dois dias a engolir a vergonha e o arrependimento pela minha cobardia. À noite, antes de adormecer, pedia um desejo, como se faz com as estrelas. Fechava os olhos e pedia que ele voltasse. Achei que seria assim que aconteceria. Mas não foi assim que aconteceu. Dias depois, voltei a vê-lo. Caminhava pela praia, de chapéu de palha na cabeça e calções azuis e brancos, ao lado de uma rapariga. Passou por mim e ignorou-me. Ou não me viu. Não sei ao certo. Mas o que sei é que, no meio de toda aquela luz que me queimava os olhos, o meu mundo escureceu. Ele era o único rapaz. Aos catorze anos, o único amor possível. Poucos dias depois, chegavam as trovoadas e o vento de sueste que punha o mar revolto, dando sinal que as férias tinham terminado e que era hora de regressar a casa.

Este é um segredo que mantive durante décadas. E vocês são as únicas pessoas do mundo a quem contei isto.


26 comentários:

  1. E é uma honra ouvir a história em primeira mão, tão excelentemente contada.

    Um óptimo domingo :)

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    1. Sim, posso assegurar-lhe que é em primeira mão. E, já agora, pedia-lhe também discrição :)

      Um bom domingo para si também, Xilre

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  2. Muito bom,Miss! :)
    Mas a sua história lembra-me uma outra canção. Esta:

    https://www.youtube.com/watch?v=fmSh6iKcIYI

    Beijinho

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    1. Na "mouche", Isabel!

      "L'amour va se terminer comme il a commencé
      Doucement sur la plage par un baiser..."

      Um beijinho e um bom domingo :)

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  3. Ainda pensei, durante a leitura, que se voltassem a encontrar nas férias seguintes e o namoro começasse.
    Belo texto.

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    1. Na altura, também eu tinha essa expectativa para o verão seguinte, mas nunca mais voltei a vê-lo.

      Um beijinho, Benó

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  4. Que giro!
    Gostei imenso, venho atraída pelo comentário da Luisa, não estou arrependida, venho para ficar! :)))
    bjs

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    1. A Luísa é uma querida e eu fico muito contente se ficar :)

      Um beijinho, Papoila

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    1. Obrigada, Mãe Sabichona :)

      Um beijinho

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  6. Que pena Miss Smile, sobretudo porque na altura ele era o único.
    um beijinho

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    1. Sim, na altura, ele era único, o único amor possível até a fim da minha vida :)

      Um beijinho, Gábi

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  7. E os amores de Verão estão infalivelmente ligados a músicas de Verão, a perfume de baunilha, a maresia, e a bolas de Berlim...e depois tudo fica no lugar certo, um miúdo, um chapéu de palha, um olhar perdido no tempo...

    Beijinhos Miss Smile (também tive alguns...)

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    1. É verdade, Teresa, e podíamos continuar a enumerar: a bola Nívea na praia, o cheiro a protetor solar, os slows... tantas associações que ficaram para sempre ligadas às férias e aos amores de verão!

      Um beijinho, Teresa (eu bem que desconfiava que também tinha tido alguns :))

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  8. É uma honra, poder ler esta maravilhosa brisa de amor de verão.
    Hoje esteve muito calor, MS.
    Beijinho :)

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    1. Pois, Sandra, mas não sei se esta brisa de amor serviu para refrescar alguma coisa :)

      Beijinhos :)

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  9. Se não for muito atrevimento, digo que me revejo totalmente nesta história de verão; só que noutra praia, mais a norte. E o meu final foi mais feliz: mão sobre mão, num cinema ali tão perto.

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    1. Claro que não é atrevimento nenhum, muito pelo contrário, eu é que agradeço a sua partilha. É bom saber que houve amores de verão com final feliz :)

      Um beijinho

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  10. Ah!Ah!Ah!
    Como gostei de ler este relato e principalmente o final...
    Identifico-me com ele, com algumas alterações...

    Pela minha parte...discrição absoluta!

    Um beijinho e uma boa semana:)

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    1. Claro, cada amor de verão é feliz ou infeliz à sua maneira...
      Quanto à discrição, agradeço :)

      Um beijinho, Isabel

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  11. Não tinha ouvido a música! Que optimas recordações tive :)))
    bjs

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  12. Sempre adorei esta música e, curiosamente, também me lembra uma paixão de Verão, de nome Paulo, filho de emigrantes em França. Eu era demasiado tímida e ele nunca soube o efeito que tinha em mim. Um ano os pais deixaram de vir de férias a Portugal e eu nunca soube mais nada dele!

    Beijinhos Miss Smile

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    1. Vejo que a sua história de amor também não se concretizou, Maria. E os desencontros amorosos nessas tenras idades são tão melodramáticos :)

      Um beijinho

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  13. :) :) :) :) Como adoro ouvir estas confidências tão puras e genuinas!! Pergunto-me se nos tempos de hoje, com os jovens de hoje, tal ainda acontece... :( Acredito que sim, mas acredito que com uma magia desfocada ou perdida! :( Obrigada pelo "segredo", estes pequenos (grandes) segredos vividos, sem maldade, enchem-me o coração! :) Fazem-me ver que definitivamente na geração de hoje se perdeu toda a magia verdadeira da vida e sobretudo dos sentimentos... :( É uma pena!! Sorte que na vida gosto de parar para ouvir quem as viveu, bem... e também as pude viver um bocadinho ainda! ;) ehehe
    Boa semana e boas leituras!:)

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    1. Ah, bem me parecia, a Luísa também tem os seus segredos :) Gosto de reviver estes momentos e de recuperar a sua magia.

      Um beijinho, Luísa :)

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