terça-feira, 9 de junho de 2015

Lucinda e Joaquim - Parte II


Com o passar do tempo, porém, uma pequena ferida começou a despontar na lisura daquele amor, criando desencontros que se traduziam em sonhos esfumados, expectativas goradas e numa barriga que teimava em não crescer. Joaquim ia ficando cada vez mais distante, consumido por uma vida suspensa entre compassos de espera. Ainda que simulasse alguma indiferença perante os comentários maliciosos dos amigos e de alguns familiares, a verdade é estes lhe deixavam um sabor amargo, aumentando o estigma de não ter descendentes. Sentia os desejos a morrer ali, num espaço por preencher.

À noite, os silêncios caíam a prumo, como bátegas de tristeza, causando em Lucinda choros magoados e um desgosto que era maior do que ela. Comiam o caldo de hortaliça, batata e feijão na cozinha de teto baixo, encolhidos, curvados sobre o prato fumegante, cada um aninhado na sua própria dor. Nas noites frias de inverno, quando o sono chegava devagar, Lucinda ouvia os lobos esfaimados ao longe e sentia uma tristeza lúgubre que lhe escurecia o rosto, cada vez mais distante do rosto luminoso, pintado na fachada da casa. Os rostos dela e de Joaquim, tristemente sós, enquanto as fachadas das outras casas se iam enchendo de novos retratos a cada novo nascimento.

De manhã, levantava-se, fria e desalentada, atravessando a casa estreita, tão estreita como a sua vida, e dava início ao dia com uma vontade contrariada. No forno comunitário onde cozia o pão de centeio e milho, uma vez por semana, aparentava não escutar os murmúrios que as aldeãs cerziam entre fornadas, as perguntas dissimuladas para as quais ela não tinha resposta. Quando lavava, esfregava, batia e torcia a roupa, fingia não ver os olhares inquiridores e ouvir as conversas abafadas pela água que escorria da fonte para o tanque. Já não sabia o que dizer, como justificar aquela falta de esperanças dentro de si. Olhava o seu corpo ao espelho e via-se vazia, seca e sem préstimo. Sentia que morria aos poucos. Quando visitava a irmã, consolava-se com o bando de sobrinhos, cada vez mais espigados, que enchia de beijos e desvelos. Aos domingos, à saída da missa, os gritos das crianças que corriam pelo adro abriam-lhe uma ferida lancinante no coração que só o rumor surdo das paredes de pedra da cozinha acalmavam.

(continua)


18 comentários:

  1. Querida Miss Smile,
    Espero que lhes encontre um final feliz.
    Aguardo.
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      Vou ter o seu pedido em linha de conta.
      Vamos ver o que se pode arranjar...
      Bom dia :)

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  2. Uma provação difícil de superar num meio de tradição ancestral. Há tantas formas de abençoar a vida, pode não nascer de nós, mas pode ser abraçada e amada por nós.
    Basta ter coração e amor bastante para dar e partilhar. Lúcida e Joaquim tem esse dom dentro deles.
    Aguardo ansiosa MS pela continuação.

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    1. Sem dúvida, é pura verdade tudo o que escreve. Mas saberão Lucinda e Joaquim superar esta provação?
      Um beijinho, querida Sandra

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  3. Quando andava em tratamentos pensava tantas vezes na sorte que tinha por poder, pelo menos, ter a possibilidade de tentar, de viver numa época de grandes evoluções médicas que me devolviam uma esperança que tantas vezes parecia apagar-se. Senti um aperto com essa imagem dela a olhar-se ao espelho a sentir-se seca, vazia. Mesmo porque se hoje ainda é o que se sente, antigamente, sem exames médicos, a mulher era sempre a responsável por não conceber, o que tornava o estigma ainda maior para a própria. Tantos casais que devem ter sofrido em silêncio.

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    1. É verdade. Numa época em que não existiam exames médicos, o estigma da infertilidade recaía sempre sobre a mulher. Sem dúvida que viver numa época em que a ciência evoluiu bastante e confere uma esperança renovada a cada tratamento será diferente. No entanto, mesmo com todas estas possibilidades, penso que o desgosto e a pressão social que Lucinda e Joaquim sentem não serão talvez muito diferentes daqueles que são sentidos e vividos por muitas mulheres e homens de hoje.
      Um grande beijinho e obrigada pela sua partilha

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  4. Boa tarde, sabemos que antigamente tudo era por culpa da mulher, ainda hoje acontece, mas de uma maneira mais soft, felizmente que hoje existe maneira de saber porque razão a mulher não engravida, se o problema é da mesma ou não.
    AG

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    1. Sim, felizmente que estas questões já são encaradas com maior abertura, mas quer seja a mulher ou o homem a sofrer de infertilidade, o "problema" é sempre dos dois, como casal.
      Um abraço, AG

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  5. Olá Miss Smile,

    Triste um amor que se desmorona pela ausência de uma gravidez. Sei que há um grande sofrimento por parte da mulher que, na maioria das vezes, sente-se responsável por não engravidar. Atualmente, contudo, um casal lida com mais facilidade com este tipo de frustração, pois a medicina moderna lhes oferece meios para ter o tão desejado filho, o que não ocorria provavelmente na época de Lucinda e Joaquim. Além do mais, os filhos sempre chegam quando estão nos planos divinos e saber esperar, com amor e sem ansiedade, é a maneira mais fácil de deixar a porta aberta para a chegada de uma criança. Questionamentos ou ironias alheias apenas perturbam ainda mais o casal, que já se sente frustrado pela aparente incapacidade de gerar filhos. Tomara que Lucinda e Joaquim tenham a graça de conceber o filho desejado, e, se assim não acontecer, que não destruam o sentimento que os uniu, procurando acolher outras crianças em seu lar, através da adoção.

    Lindamente escrita esta segunda parte.

    Beijo.

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    1. Olá Vera,
      Não me ocorre mais nada que possa acrescentar ao seu comentário tão completo :)
      Vamos esperar até amanhã para descobrir como é que Lucinda e Joaquim superam este desafio.

      Um beijinho

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  6. Esta faz-me lembrar a história da minha tia Edite que apenas alegrou os seus dias a criar dois sobrinhos de uma irmã que partiu para Lisboa à procura de uma vida melhor. Espero que Lucinda consiga ser tão feliz como a minha tia Edite acabou por ser, à sua maneira.
    A tua escrita é maravilhosa MS. Bjs :)

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    1. A sua tia Edite encontrou uma forma de viver a maternidade que a terá certamente preenchido. Apesar das contrariedades, acabou por ser feliz, mas nem todas as mulheres tiveram essa sorte.
      Um beijinho

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  7. Agora estou a torcer para que eles tenham um bebé...

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    1. Essa é uma ideia, Gábi. Podem perfeitamente ser abençoados com a vinda de um bebé. Vamos ver...
      Um beijinho

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  8. Aiiiii..... isso não se faz MIss Smile!!! ;) ;P Apesar de outros tempos esta história , parece ter um "trajecto" tão actual... Aguardo pelo fim.... ;)
    Boas leituras!:)

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    1. Pois é, Luísa, a vida nem sempre é um mar de rosas e a escrita imita a vida. Mas vamos aguardar pelo final...
      Um beijinho e boas leituras :)

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  9. Tenho bons amigos que se viram confrontados com o mesmo problema.
    O desejo de ser pai/mãe, muito diferente de ser simplesmente progenitor (espermatozóide e óvulo) falou mais alto.
    E adoptaram.
    Hoje vivem felizes e são pais cinco estrelas.

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    1. Felizmente que hoje existem mais opções para os casais que sofrem de infertilidade, o que não era, de todo, o caso da Lucinda e do Joaquim. Também conheço vários casos de adoção que foram uma verdadeira bênção para todos.
      Um abraço

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