quarta-feira, 10 de junho de 2015

Lucinda e Joaquim - Parte III



Num dia de vindima em que a tarde caía amena, umas batidas prolongadas e insistentes na porta fizeram-na estremecer, como fustigada por um calafrio de mau augúrio. Acorreu à porta, abrindo-a de rompante, sem sequer indagar quem era. Três homens carregavam Joaquim que, de olhos fechados, gemia baixinho. Contaram que Joaquim escorregara quando descia de uma oliveira após ter resgatado um picanço recém-nascido que caíra do ninho, tombando com todo o peso do corpo sobre a perna direita. Com o coração em sobressalto, Lucinda deu instruções para que os homens o levassem para o quarto. Enquanto deitavam o corpo de Joaquim sobre a cama, informaram que já tinham enviado alguém a casa do doutor Rodrigues a dar parte do sucedido. Os homens saíram pouco depois, de ombros descaídos e palavras de ânimo, deixando Lucinda como que paralisada no quarto. Joaquim permanecia de olhos fechados, com o rosto contraído pelo sofrimento. Com muito cuidado, Lucinda despiu-lhe a camisa de flanela, vestiu-lhe o casaco do pijama e limpava-lhe o rosto com uma toalha embebida em água fresca quando o doutor Rodrigues chegou. Depois de diagnosticar uma perna partida, o doutor cortou as calças de Joaquim com uma tesoura afiada e colocou-lhe duas talas na perna enquanto este se contorcia com dores. Por fim, saiu, apressado, recomendando muito repouso e a ingestão de caldos de galinha.

     Joaquim ia recuperando na lenta melopeia dos dias, graças aos doces cuidados de Lucinda, que sentindo um alento renovado na nova rotina, transbordava uma quente emoção de aliança. Deitado na cama, Joaquim saboreava as atenções, os gestos de vigília, a cumplicidade que escorria do olhar, o desejo que se insinuava no riso impulsivo, o doce canto da voz que o punha ao corrente das novidades da adega. Era como se depois de uma longa ausência voltasse a pousar o olhar nos antigos lugares que conhecera. No recolhimento do quarto, as emoções moviam-se silenciosamente dentro de si. Observava como a luz da manhã iluminava o rosto de Lucinda, realçando o contraste frisado das pestanas sobre a pele. Entretinha-se a seguir as suas mãos a compor a dobra do lençol, os movimentos lestos e altruístas dos braços disponíveis, as finas linhas de expressão que o tempo esculpira à volta do sorriso espontâneo. E no seu coração acendia-se um pedaço de sol. Comprazia-se com as flores que via crescer nos vasos do beiral e que perfumavam o quarto quando Lucinda abria a janela para arejar os sopros da noite. Dava por si a pensar que a vida talvez fosse isso mesmo. Muito desespero, sofrimento, mas também alguns momentos de beleza, de felicidade. De repente, todos os possíveis desapareciam e era apenas ele e ela. Dois corações amparados por um sentido em permanente construção. Agradecendo a liberdade que a vida lhe dava de se reconverter, chamou-a para o pé de si e afagou-lhe o regaço delicado de rosa.


FIM


20 comentários:

  1. Uma viagem maravilhosa, Miss Smile.
    Obrigada por escrever e partilhar.

    Beijinhos.

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    1. Oh, sempre tão querida, G.!

      Um beijinho

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  2. Que fim maravilhoso, MS :)
    A vida é mesmo admirável, faz milagres. Neste caso, regou o jardim de Lucinda e Joaquim.
    Um beijinho muito grande e obrigado por mais um belo momento.

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    1. Ainda bem que gostou, Sandra. Lucinda e Joaquim são muito especiais. Ganhei-lhes estima :)
      Um beijinho

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  3. Perdi-me na história deles. Uma viagem tão bonita Miss Smile :)
    Um beijinho

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    1. Que bom! Fico tão contente...
      Um beijinho

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  4. Gostei muito, mas fiquei um pouco decepcionada .
    Estava tão embalada na estória que contava com mais uns capítulos.
    Mas isso seria habituar-me mal.
    Um muito obrigado.
    D.

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    1. D., esta história tem, de certa forma, um fim em aberto, podendo a respetiva continuação desenvolver-se na imaginação de cada um. Ou, quem sabe,um dia dia volto a escrever sobre Lucinda e Joaquim :)
      Um beijinho de boas-vindas e obrigada pelo seu comentário

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  5. Querida Miss Smile,
    Gostei tanto.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      Foi um prazer :)
      Um bejinho

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  6. Miss Smile, estive a ler deleitada esta história de amor que desabrochou quando tudo parecia perdido.
    A vida tantas vezes nos ensina nas adversidades.
    Parabéns, uma narrativa excelente.

    Um beijinho

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    1. Obrigada, querida Fê. E eu aprendi também muito com a Lucinda e o Joaquim.
      Um beijinho

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  7. Olá Miss Smile,

    Final perfeito! O acontecimento inesperado fez renascer a cumplicidade e o amor do casal. O terreno se tornou fértil para a concepção do esperado filho.
    Lindo! Parabéns!

    Beijo.

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    1. Olá Vera, ainda bem que gostou! Na verdade, só depois de aceitarmos as circunstâncias e as adversidades é que podemos mudá-las. Quem sabe se não é a partir daqui que chega o tão desejado bebé :)
      Um beijinho e obrigada

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  8. Um fim sublime escrito ao nível do resto da história, porém, fico na esperança uma continuação. Gostei da Lucinda e do Joaquim. MS, escreves tão bem :)

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    1. GM, como a compreendo! Também eu fiquei a gostar muito da Lucinda e do Joaquim :) Pode ser que, um dia, dê continuação à sua história.
      Um beijinho e obrigada

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  9. :) Valeu a pena esperar pelo final!
    E sim... acho que a vida é mesmo isso, perceber que ser feliz sempre, ou sentir-se sempre feliz, não existe! A vida tem sim rasgos, momentos de pequenas grandes felicidades! :) Pequenos grandes momentos que nos enchem de repente o coração, mas que a qualquer momento, essa felicidade se vai reduzindo... é impossível uma pessoa sentir-se sempre feliz, mas sim é possível lembrar-nos e darmos valor ao que temos, mesmo que seja pouco, mas que é um pouco que nos enche o coração e dá forças e sentido à vida! :)
    Bom fim de semana e boas leituras!:)

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    1. É isso, Luísa, a felicidade são os momentos que vamos cosendo na trama dos dias.
      Um beijinho

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  10. Um bem-aventurado acidente, ponto de partida para a felicidade de duas pessoas. Às vezes, é só isso: o acaso prega umas partidas e constrói-se uma teia harmoniosa, a partir daí :)
    Lindo conto, Miss Smile.
    Um beijinho e bom fim-de-semana.

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    1. Por vezes, há males que vem por bem, Linda.

      Um beijinho

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