quarta-feira, 22 de julho de 2015

A dignidade explicada pelo meu avô



Durante os longos serões de verão que passávamos sentados ao relento, ouvíamos o meu avô contar histórias. Havia uma de que ele gostava especialmente. Ele próprio a ouvira contada pelo pai inúmeras vezes. Era a história de um casal com seis filhos, todos rapazes. Os mais novos iam à escola enquanto os mais velhos ajudavam o pai na lavoura e na administração das propriedades agrícolas. O pai era um homem bem conceituado na região pela sua educação, sabedoria e idoneidade. Embora fosse um pouco austero, o que na época era considerado uma qualidade, gostava muito dos filhos e empenhava-se afincadamente na sua formação moral. Dizia-lhes que o respeito vinha sempre de dentro e que, para ser respeitado, um homem tinha de se respeitar primeiro a si próprio. Gostava de repetir, passando os dedos pela corrente do relógio que prendia nas calças, que não havia nenhum dinheiro do mundo que pagasse uma consciência limpa. A família vivia em harmonia, trabalhando arduamente. No entanto, as fortes chuvas que se abateram na região durante dias a fio causaram grandes prejuízos nas colheitas. A economia da família perdeu alguma folga e esta, embora não passasse fome, viu-se privada de alguns alimentos. Dos lábios dos mais novos despregavam-se queixas quando a mesma sopa de feijão adornada com talos de couve e um pedacinho minúsculo de carne era servida várias refeições seguidas. Os mais velhos torciam o nariz, sorvendo a sopa, numa contrariedade afadigada. A vida estava a ser muito difícil. Um dia, quando terminavam mais uma refeição aguada, os mais velhos questionaram o pai sobre o que fazer. Este, de feições contraídas, respondeu-lhes que o que havia para fazer estava a ser feito. Não estavam eles já a trabalhar para que a próxima colheita fosse farta? Mas os filhos queixavam-se de ter de esperar tanto tempo. Foi, então, que o pai, descontente com aquele excesso de insolência, decidiu pô-los à prova. Com uma voz calma que, contudo, traía algum nervosismo, disse-lhes que, para além de esperar, não tinham outra alternativa. A não ser que fossem roubar. Mas que, se o fizessem, teriam que se assegurar que ninguém os veria. Os filhos, entreolhando-se com espanto perante tão estranha ideia, não queriam acreditar no que ouviam. Em silêncio, os mais velhos levantaram-se da mesa e saíram para a rua, seguidos pelos mais novos. O pai encontrou-os, mais tarde, sentados na eira. Perguntou-lhes o que faziam ali, porque não tinham ido, afinal, fazer o que tinham combinado. O mais velho, respondendo pelos irmãos, disse que não o podiam fazer. O pai, disfarçando o sorriso que lhe nascia no coração, perguntou qual era o motivo, já que o objetivo era fazê-lo quando ninguém estivesse a ver. Nesse momento, o mais novo levantou-se de um salto e respondeu:
- Mas, meu pai, eu estou sempre a ver o que faço!
Tentando reprimir as lágrimas, o pai levantou o filho mais novo do chão e apertou-o com força, grato por aquelas seis bênçãos que lhe tinham sido concedidas.


21 comentários:

  1. Querida Miss Smile,
    Já tenho conto para esta noite. E não é "dos repetidos". A nossa sorte.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Querido outro Ente, é uma bela história, sim. Lembro-me de o meu avó a contar várias vezes, mas era sempre como se fosse a primeira vez.

      Um beijinho e boa história logo à noite :)

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  2. Linda história Miss Smile.
    Não há como enganar alguém quando nosso coração é a mais importante das testemunhas.
    Um beijinho

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    1. É isso mesmo. O respeito começa em nós e na nossa consciência.

      Um beijinho, Maria

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  3. Não há maior riqueza na vida de um homem/mulher que a sua palavra, a sua dignidade e a sua idoneidade.
    Deixo um beijo doce MS.
    O meu pai já está em casa e melhor.
    Muito obrigada.

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    1. É a maior riqueza que possuímos, sim, ainda que, por vezes, nos esqueçamos disso.
      Fico contente por o seu pai já estar melhor.

      Um beijinho, Sandra

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  4. A boa educação dum filho começa com a boa educação dos pais. Esse pai tinha carater e dignidade e soube transmitir aos filhos. Se todos fossem assim o mundo seria muito melhor.

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    1. Sem dúvida que esse pai soube incutir princípios nos filhos, demonstrando que a educação é um dos maiores bens que podemos transmitir aos nossos filhos.

      Um beijinho, Benó

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  5. Haja país que eduquem os filhos e filhos que os entendam.

    Beijos, Miss Smile. :)

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    1. Que ambas as partes façam o seu melhor.

      Um beijinho, Maria

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    2. Incentivar os filhos a dar um "passo" condenado pela sociedade foi uma prova de fogo e ao fazê-lo, expôs à prova também a sua autoridade e toda a base educativa em que acreditava.

      Um bom exemplo.

      Um beijo para si Miss Smile :)

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    3. Foi mesmo uma prova de fogo, como diz. Foi arriscado, mas correu bem.

      Um beijinho, mz :)

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  6. Foi um acto de coragem que correu muito bem, a semente estava plantada e quando foi posta à prova cresceu.
    Gostei muito.
    bjs

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    1. Cresceu e deu frutos :)

      Um beijinho, Papoila :)

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  7. Aprecio por demais esses valores, sinal de que os pais fazem bem o seu dever e os filhos o interiorizam. Bonita história. Beijinho MS

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    1. Apesar de a história já ser muito antiga (o meu avô já ouvia o próprio pai contá-la), os valores, esses, são intemporais.

      Um beijinho, GM

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  8. Uma boa educação, onde os verdadeiros valores são transmitidos com palavras e acções, fica!

    Gostei muito da história:)

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    1. É curioso como nunca me esqueci desta história. Tinha de a partilha aqui :)

      Um beijinho, Isabel

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  9. Gostei muito desta história.

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    1. É uma história sempre atual.

      Um beijinho, Gábi

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  10. É uma bela história. Como só antigamente elas sabiam ser.
    Acho que gosto tanto dela porque ensina, não ilude sobre romances e amores fantásticos... (Walt Disney).

    Bom, mas o que mais gostei foi a parte em que se comprova que nesse "tempo" se enalteciam valores realmente nobres - que cada vez fazem mais falta. A reputação era importante, o trabalho honesto, o esforço, a união, a honra, idoneidade...

    E esses "paradigmas" que eram lançados às jovens mentes, esses quebra-cabeças morais, que os faziam crescer e perceber melhor o mundo, o certo e o errado.

    Fazem falta neste mundo cada vez mais cínico.

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