sexta-feira, 17 de julho de 2015

Hoje também vou falar de sapatos



Tive uma amiga que padecia do chamado “pé chato” e que, numa determinada altura, teve de usar uma palmilha especial. Como o problema era mais acentuado no pé direito, os sapatos tiveram de ser fabricados por medida. O sapato do pé direito, onde encaixava uma palmilha de maior espessura, era bastante mais volumoso em altura do que o sapato do pé esquerdo. Desgostosa com aquele desemparelhamento, a P. perguntou-me, um dia, se eu me importava de trocar de sapatos com ela. Pragmática, respondi-lhe que não, que não me importava. Assim, passámos a trocar de sapatos na esquina do café “Minabela”, onde nos encontrávamos todas as manhãs para irmos juntas para a escola. Era um segredo só nosso que não partilhámos com os restantes colegas de escola e, muito menos, com os nossos pais, sobretudo com os pais da P. que tinham gasto uma pequena fortuna naqueles sapatos corretores.
A P. começou, então, a usar os meus sapatos, enquanto eu iniciei o ano letivo em grande estilo. Lembro-me de achar alguma graça aos sapatos. Eram únicos e originais e não havia ninguém na escola que tivesse uns iguais. Aliás, nem entre si eles eram iguais. Confecionados em camurça castanha, de um castanho como uma castanha a sério, tinham uma biqueira redonda, atacadores vermelhos e recortes decorativos. Para dizer a verdade, não eram feios. Isto, claro, se nos abstraíssemos do sapato do pé direito, que parecia um porta-aviões. Mas eu, que sempre valorizei o lado positivo das coisas, quase que só reparava no sapato do pé esquerdo. E posso assegurar-vos que se consegue viver sem se ver o pé direito durante algumas horas do dia. Naquela altura, eu acreditava que se não o visse, os outros também não o veriam. Empoleirada em palmilhas especiais, participei nos melhores desafios de futebol de que tenho memória, durante os longos recreios da escola. Aqueles sapatos constituíam um perigo sério para as canelas dos adversários. Com um porta-aviões no pé, eu era imbatível. Nunca me deixaram ficar mal. Com uma bravura indómita, suportavam os meus afluxos de energia e as inúmeras peripécias em que participei. Aqueles sapatos conferiam-me popularidade e tornaram-se na minha imagem de marca. E eu usei-os com toda a dignidade que pude. Depois das aulas, a P. e eu voltávamos a trocar de sapatos na referida esquina, onde os nossos caminhos se separavam. Um dia, já o terceiro período ia a meio, reparei que o olhar da P. chocava com os meus pés, repetidas vezes, enquanto eu jogava à macaca, esganiçada de alegria. No início, não compreendi. Só sei que, no dia seguinte, quando nos tornámos a encontrar na esquina do café, a P. já não quis trocar de sapatos comigo. E no dia a seguir também não. Aliás, nunca mais o quis fazer. Como por milagre, deixara de sentir vergonha deles. Hoje, quando penso em tudo isto com uma lufada de saudade, confesso que sinto um certo orgulho por os ter usado. Orgulho-me de me ter colocado nos sapatos de uma amiga. Literalmente. E de ter calçado os seus dois problemas. Um maior do que o outro, é certo.


18 comentários:

  1. Que bonita essa recordação! Ainda és amiga da P.?

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    1. Sim, somos muito amigas. A P. é daquelas amigas que sabe tudo sobre mim sem perguntar nada.

      Um beijinho, Alex e um dia feliz :)

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  2. Que história tão bonita Missa Smile.
    De fato tem mesmo motivo para se sentir orgulhosa :).

    Beijinho

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    1. Obrigada, Maria. Mas é verdade, orgulho-me deste episódio da minha vida. Não tenho pruridos em assumi-lo.

      Um beijinho e um dia feliz :)

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  3. Verdadeira amizade.

    Gostei muito da partilha.

    Beijinhos

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    1. É uma amizade que dura desde os nossos 10 anos :)

      Um beijinho, Pérola

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  4. Boa noite, Miss Smile
    Venho aqui só para lhe perguntar se também calça 38. :)

    Um beijinho

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    1. :)
      Por acaso, não. Calço 36. Mas, se precisar, Teresa, pode contar comigo. Não há nada que umas boas palmilhas ou uns bocadinhos de algodão na biqueira não ajudem :)

      Um beijinho

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  5. Oi Miss Smile, é a Vi, estava rindo do relato, imaginando o sapato porta-avião, você é uma pessoa muito generosa, pois uma menina fazer um sacrifício desses por uma amiga, numa fase da vida onde a vaidade é super valorizada, é muito difícil..
    amei a historia.
    Beijos,Vi

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    1. Sabe, Vi, é curioso que, na altura, não encarei a situação como um sacrifício, mas como algo natural. Não me custou mesmo nada. E o sapatinho do pé esquerdo até era bonitinho :)

      Um beijo

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  6. Entre mulheres adultas talvez a troca já não se fizesse. Gostei de ler, Miss Smile.

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    1. É provável que não, Benó, mas não tenho a certeza. É que ainda vamos vendo, por aí, verdadeiras provas de amizade entre adultos. E isso dá-me esperança.

      Um beijinho

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  7. As crianças têm cada ideia!

    Uma história muito gira!

    Bom fim-de-semana:)

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    1. Na infância, a criatividade não tem limites :)

      Um beijinho

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  8. É muito interessante esta história porque tirei dela muitas conclusões!
    A primeira a beleza do gesto
    A segunda, é que a auto-estima das duas era completamente diferente
    A terceira, é que entre as duas a que precisava sentia-se triste e talvez diminuida e a outra que estava bem não se deixou intimidar pois tirava o sapato quando quisesse.
    Muito giro, mas de modo algum retiro o valor do gesto lindo e de bom coração.
    bjs

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    1. No fundo, não me sentia muito comprometida com aqueles sapatos, porque eles não eram realmente meus, pelo que os podia descalçar quando quisesse. Penso que isso faz toda a diferença.

      Um beijinho

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  9. rsrsrss, eu ri !!!
    Ri imaginando o receio que os colegas tinham por suas canelas, ri porque é bem verdade : quem passa o dia olhando para os pés ?
    Mas acho que no final, P, ficou com um certo ciuminho do sucesso que vc fazia com os sapatos dela né ?

    Adorei a forma como vc escreve, Vi já tinha me falado, mas como andava enrolada ainda não tinha lido messsmo... agora, já vi que vou ficar viciada, srrss

    Bjus 1000 e um finde lindo prá ti !!

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    1. Rir faz bem e ainda não paga imposto! Aqueles sapatos pareciam blindados. Eram o terror de todas as canelas :)
      A moda é uma coisa passageira. Mas o que fica é a atitude.

      Beijinhos, Pepa

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