sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Quando as fotografias fazem perguntas



Quando te visitava, levava algum tempo a ordenar o odor subtil que perfumava a tua casa. Não sei se seria açafrão, mas imaginava-o amarelo, como um pôr-do-sol. Recebias-me com o teu sorriso de pão fresco. Preparavas o chá, enquanto me falavas no teu alemão arrastado e melodioso. Prendias a seda preta do teu cabelo numa trança ágil antes de deitares a água borbulhante sobre as folhas de hortelã, que flutuavam como algas recém-nascidas. Um dia, falaste-me da Pérsia, desse país que não tiveste tempo de conhecer melhor. Eras ainda pequena quando tiveste de fugir com a tua família. Não te lembravas de quase nada. Por isso, tiveste de aprender tudo de novo. Os cheiros, os verões de terra gretada, os bazares, os perfumes, a casa abandonada, os mortos que ficaram para trás. A tua mãe e irmãs mais velhas eram a tua memória de aromas e vozes. Mas faltavam-te as imagens desses primeiros anos, dessa vida que, sem o peso da existência, era demasiado vaga, flutuando como folhas de hortelã na água. Fitaste-me com uns olhos tristes, como dois lagos escuros numa noite sem luar, e contaste-me que não tinhas uma única fotografia tua em criança. Nos atropelos da fuga, não houvera tempo para pensar nisso. Fora tudo tão rápido. Falaste-me que existiam dois grupos de refugiados - os que tinham trazido consigo um álbum de fotografias e os que não tinham. Na curvatura triste do teu pescoço, pensei ter ouvido o que não disseste. Uma vida sem fotografias é como uma vida que não existiu. É como uma infância que não pode ser inventada. E ali estavas tu. Para mim, no sítio onde sempre estiveras. Para ti, num sítio onde apareceste e passaste a ser ninguém.

Olho a única fotografia que tenho de nós as duas. Parecíamos irmãs. Éramos de mundos diferentes, mas vivíamos, afinal, no mesmo. Lembro-me bem desse dia. Da nossa pose para a câmara. Da nossa pose para o futuro. Nesse dia, ensinaste-me a fazer Tahdig, o arroz frito, crocante. Comi tanto que me doía a barriga. Sabes, gosto tanto, tanto de ti. Faz hoje um ano que não morreste. Continuas comigo, a adejar como um pássaro no meu coração. Volto a olhar a nossa pose. A fotografia faz-me perguntas, como se me pedisse para ser legendada. E eu contei-lhe a nossa história.

11 de setembro de 2014