terça-feira, 20 de outubro de 2015

Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer*


Primeiro, o gume do olhar enterrou-se-me na pele, recortando feridas invisíveis. Depois, a voz aguda chamou o meu nome, sobressaltando o meu coração de pardal distraído.
- Chegue-se aqui à frente para nos explicar a todas do que se está a rir.
Levanto-me e vou ao seu encontro, com o coração aos tropeções, sentindo o olhar da turma a pesar-me nos ombros. A professora aguarda-me junto ao quadro, com um sorriso escarnecedor de dentes brancos.
- Agora, vire-se para a turma e conte-nos o que a fez rir.
De olhos colados ao chão, não arranjo coragem para enfrentar os olhares ávidos, capazes de engolir o mundo inteiro, que me perscrutam a alma e me trespassam o corpo como espadas afiadas. Sinto o rosto a cozer de vergonha, a boca seca de humilhação. Os olhos enchem-se de água. Não encontro palavras. Que letras descrevem o contentamento? Como explicar um bosque secreto a nascer, a promessa de um abraço a ondular à volta do corpo, uma alegria da cor da folhagem que cabe numa caixa de sapatos? Dizê-las seria tirar-lhes a cor e o calor. E eu sei que em mãos alheias arrefeceriam, desamparadas e tristes. Se me tivessem pedido que o explicasse em números, seria bem mais fácil. Diria que, com a ponta de uma tesoura, fizera dezoito furos na tampa da caixa de sapatos que albergava oito bichos-da-seda.
- Não nos quer, então, revelar o motivo da sua risada. Muito bem. Hoje não terá recreio. Ficará na sala de aula a escrever quarenta vezes no caderno “A escola é uma coisa muito séria”. E, agora, volte para o seu lugar.
Mais tarde, enquanto todas brincavam no recreio, escrevi quarenta vezes a frase que não compreendi. Mesmo depois de a escrever tantas vezes, continuava a não fazer sentido. Foi então que resolvi escrever, com a melhor letra que consegui, o pensamento que me fizera cócegas na barriga. Bastou escrevê-lo uma só vez para voltar a sentir uma alegria a pular devagarinho. “Ao fim do dia, vou com o meu pai apanhar folhas de amoreira para os meus bichos-da-seda”.

* Verso do poema “Certas Palavras” de Carlos Drummond de Andrade


18 comentários:

  1. Pai. Boa, a palavra. Se seguida de uma aventura juntos, então!
    A escola, hoje, não é mais assim.

    Beijos, Miss Smile, e um bom dia. :)

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    1. O pai cumpriu a sua palavra e, ao fim da tarde, fomos colher folhas de amoreira :)
      Felizmente, a escola, hoje, é muito diferente.

      Um beijinho, Maria e uma boa noite :)

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  2. Como expliicar tamanha alegria e contentamento. Coisas que timidamenta achava que os outros nao iriam compreender? Sei que provavelmente naquele momento iriam rir-se mas se pensassem, iriam adorar estar no teu lugar. Beijinho e um bom dia :)

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    1. Naquela escola não se podia sonhar acordado. Sentir contentamento na sala de aula era uma heresia. Tínhamos de estar todas sérias (era um colégio só de raparigas), de costas direitas a olhar para a professora, sem pestanejar, sem respirar...
      Outros tempos…

      Um beijinho, GM, e uma boa noite :)

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  3. Que maravilha, Miss Smile.
    As nossas alegrias interiores, que nos asfixiam de felicidade, intocáveis para os outros, que as podem diminuir. Percebo tão bem que tenha preferido o castigo. Foi um mal tão menor.

    Obrigada, que belo momento.
    Um beijinho, com votos de dia feliz :)

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    1. Querida Blue, foi exatamente isso que senti. Preferi mil vezes o castigo a revelar a razão do meu contentamento. O ambiente não era propício a manifestações dessa natureza e, instintivamente, eu sabia que seria motivo de chacota. Já tinha assistido a outros casos.

      Um beijinho, Blue, e uma boa noite :)

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  4. As obrigações não explicadas geram revolta.
    Um beijo, Miss Smile.

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    1. Não sei se revolta foi exatamente o efeito que teve em mim. Aprendi a sobreviver naquele meio rígido e austero, recorrendo a um certo distanciamento e reserva. Embora cumprisse o meu papel e acatasse as regras (que remédio!), não estimava a minha professora, o que, de certa forma, era também uma proteção.

      Um beijinho, Isabel, e uma boa noite :)

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  5. A vida está cheia de desencontros, silêncios e más interpretações...
    Se a menina tivesse explicado dificilmente a professora teria ficado zangada e poderia ter-lhe chamado a atenção de uma maneira positiva e todos sairem a ganhar com a partilha dessa experiência.
    A mim comoveu-me e compreendi esse sorriso de felicidade :))) bjs

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    1. papoila, a escola, no meu tempo, e estamos a falar de um tempo anterior ao 25 de abril, era muito diferente do que é a escola hoje em dia. Quem não viveu nesse tempo talvez nem consiga imaginar. Posso, por exemplo, contar-lhe que, apesar de ser uma aluna bem-comportada e atenta, ainda levei umas belas reguadas à conta de situações como esta que descrevo.

      Um beijinho, papoila, e uma boa noite :)

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  6. Não podem mesmo! Há coisas de dentro da gente que só sentidas fazem sentido.
    Um beijinho Miss Smile :)

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    1. Há contentamentos que, quando partilhados, sobretudo, com as pessoas erradas, arrefecem e perdem o gosto. Ficam diminuídos na sua essência.

      Um beijinho, Maria, e uma boa noite :)

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  7. Olá Miss Smile,

    Certos contentamentos são unicamente nossos e expressá-los para os coleguinhas provavelmente não produziria o efeito que a fez rir. Os professores da linha 'mais antiga' não tinham a percepção dos de hoje, que são mais cuidadosos em respeitar os momentos dos alunos sem expor-lhes a situações embaraçosas. E a seriedade da escola não se desmancha diante de sorrisos inocentes e sonhadores.

    Ótimo texto, trazendo uma agradável e prazerosa leitura.

    Beijo.

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    1. Olá Vera,
      Tem toda a razão. Naquela época, muitos professores não tinham essa capacidade de tentar entender o mundo da criança. Claro que havia exceções. Mas a minha professora, e não querendo ofender os pobres bichinhos, era um verdadeiro “dragão” :)

      Um beijinho, Vera, e uma boa noite :)

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  8. Eram outros tempos, na verdade. Eu não guardo boas recordações da escola primária. Era muito boa aluna e no entanto também não me livrei das reguadas...

    Gostei do seu texto:)

    Beijinhos:)

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    1. Bem-vinda ao clube das reguadas :)
      Naquele tempo, era difícil escapar. Na verdade, não era preciso muito para cair na mira da professora...

      Um beijinho, Isabel, e boa noite :)

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  9. " Os cinco anos da tua morte
    esculpiram já uma criança.
    Moldada em éter, de tal sorte,
    ela é fulva e no dia avança.
    (...)

    Com todos os dentes, feliz,
    lá de um mundo sem sul nem norte,
    de teu inesgotável país,
    ris. Alegria ou puro esporte?

    Ris, irmão, assim cristalino
    (Mozart aberto em pianoforte)
    o redondo, claro, apolíneo
    riso de quem conhece a morte.
    (...)
    Aniversário

    (...)
    "Há muito aprendi a rir,
    de quê? de mim? ou de nada?
    O mundo, valer não vale."

    Carlos Drummond de Andrade/ . Aniversário
    . Cantiga de Enganar

    Uma noite feliz Miss Smile, as alegrias são como as crianças "pulam, e avançam" :)

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    1. Terras

      Serro Verde
      Serro Azul
      As duas fazendas de meu pai
      aonde nunca fui
      Miragens tão próximas
      pronunciar os nomes
      era tocá-las

      Carlos Drummond de Andrade, A Lição das Coisas


      Um beijinho, Teresa, a pular de alegria, aqui desta caixa de comentários que é um canteiro florido :)

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