sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Momento Western do dia*



Deixei o balneário, fresca e airosa, depois de mais uma manhã a treinar glúteos, e dirigi-me à receção para pedir informações sobre uma aula de Pilates. A funcionária, uma jovem de sessenta anos que, nesse dia, pedira à filha adolescente a roupa emprestada, cirandava de um lado para o outro, de telefone colado ao ouvido. A conversa, que parecia intelectualmente interessante, não tinha fim.
- A minha próxima vai ser uma cobra…
Enquanto do outro lado do telefone o interlocutor bate certamente palminhas de alvoroço, eu penso cá para os meus botões para que quererá a menina uma cobra como animal de companhia. Finalmente, desliga o telefone e dirige-se a mim, dizendo que esta vai ser a sua terceira tatuagem. Agora compreendo a história da cobra. Não comento, pois as minhas competências no domínio das tatuagens são muito pouca coisa em comparação com outras matérias menos ortodoxas. Vou para colocar a questão que me traz ali, quando, nisto, toca o telefone. A jovem, solícita para quem, refastelado num sofá, no conforto de sua casa, se impõe aos simples mortais que se abeiram de um balcão, atende imediatamente o telefone. Aguardo, contrariada, tentando dominar uma comichão que se começa a alastrar. Assim que desliga, agarro a nova oportunidade e vou direta ao assunto. Mas ainda não encetei a pergunta e já o telefone toca outra vez. E a menina já está de novo agarrada ao telefone, toda sorrisos e cordialidades, mandando-me a mim à fava. Cá para mim, ainda deve ter afinidades sanguíneas com os irmãos Dalton. Sinto-me como se tivesse sido enfiada nuns parênteses vazios. Antes que me dê uma crise hipoglicémica, levo a mão à pochete, onde repousa o meu telemóvel, aquecido pelo corpo da Milu que dorme serenamente, num felpudo pijaminha cor-de-rosa, alguns números acima (acho que foi a flor que lho emprestou), ainda a recuperar da nossa ida ao saloon com a Teresa, na sexta-feira passada. Mais rápida do que a minha própria sombra, saco do telemóvel e, com um ar intimidatório que não aceita recusas nem hesitações, indago a moça sobre o número do ginásio, assim que pousa o telefone. Surpreendida e de sobrolho franzido, indica-me o número. Com uma destreza absolutamente inédita, marco o número desenfreadamente. Agora, atende o telefone, como se considerasse o meu telefonema uma ofensa pessoal. Coloco, então, a questão que me sufoca desde que ali cheguei e saboreio, finalmente, a resposta que me é devida há muitos minutos atrás. Termino a chamada, triunfante, repetindo a informação em voz alta, como se ostentasse um prémio. Venço a vontade de soprar o telemóvel, qual pistola de fulminantes, antes de o voltar a guardar ao lado da Milu. Saio para a rua, bamboleando-me, como se tivesse pequenas molas por baixo dos pés a projetarem-me para cima, sentido que o mundo me pertence. Quase que tenho vontade de acender um cigarro. Como não fumo, substituo-o por um palito que encontro no fundo da pochete, o que me vale o reconhecimento da Organização Mundial de Saúde. Monto o Biju, o gato mais esperto do mundo, que, de bigodes ao vento, me leva pelo Velho Oeste para salvar viúvas e órfãos. Bom, enlevada que estava com a história, acho que exagerei. Esqueçam esta última parte.

* Esta é uma história real, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações fictícias não será mera coincidência.


25 comentários:

  1. :D Como diria a minha sobrinha: brutal!

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    1. Brutal foi o desprezo que aquela jovem senhora me devotou :)

      Um beijinho, MS

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  2. Ahahah pessoas com sentido de humor e oportunidade são outra loiça :D
    Bom dia.

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    1. E por falar em louça, por vezes, temos mesmo de a partir :)

      Bem-vinda, Eva :)
      Um beijinho

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  3. Tiveste paciência de Job para obter uma simples informação.
    A senhora da recepção não procedeu bem. Eu ter-lhe-ia dito.
    Beijo

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    1. Acabei por lho dizer, ainda que de uma forma menos ortodoxa. Pode ser que não se esqueça…

      Um beijinho, Isabel

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  4. Haja paciência ;)

    Beijinhos e bom fim de semana

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    1. Haja muita, muita paciência :)

      Bem-vinda, Cristina, e um beijinho

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  5. {Ora, ora, humana do sorriso, não foi bem assim... permita-me que aqui deixe a minha versão dos factos; é que, ao contrário do que afirma, eu não dormia, [muito menos serenamente, que uma aranha que se queira, tece noite e dia, dormitando na troca das agulhas], muito menos dentro daquele pijama cor de rosa xóninhas!!
    Ora então, cai vai.
    Estava eu a lamber a tablete de 'chicolate' dos alpes [do mesmo sítio dos 'láps' de cor da humana do chapéu], sossegadinha, que a noite tinha sido de borga [se soubessem como me aborrecia em casa da Flor... aquilo era só papel e ranho], quando ouço uma voz adoçada a donuts de pacote a dizer que a próxima era uma cobra - é lá! alto e pára a teia! a minha amiga Cidália anda por cá?! Carai, não a vejo desde a Primavera... - mas afinal não era a Cidália, nem réptil que se veja, era a humana dos elásticos nos refegos traseiros a falar de tatuagens. Por esta altura a humana do sorriso começava a impacientar-se, não fosse eu aranha saltimbanco e teria ficado esmaga entre o baton e a tablete, logo no primeiro abano. De cada vez que fazia a pergunta, a dos refegos serampintava para o telefone, adoçando o bocal com uma espécie de baba branca calórica - vulgo, queijinhos no canto da boca. Nunca paro de me surpreender com a falta de higiene dos humanos.
    Antevi, com estes oito olhos que alguma vassoura há-de tentar matar, o pior, quando a humana do sorriso meteu a mãozinha dentro da pochete. Posso garantir-vos, pois eu estava lá! que a mão esteve colada à pistolinha de madrepérola uns bons vinte segundos, - parece que até já se ouviam ao longe as sirenes da policia, numa ramboiada com as sirenes das ambulâncias, uma barulheira dos infernos, as televisões montadas em satélite, e aquela cambada de humanos, alguns quase em pêlo, a guinchar, Ai, credo, Ai, Socorro! - depois não sei que bom ar lhe deu, talvez pena da família da dos refegos, não sei, só sei que largou a pistolinha e sacou o telemóvel com a rapidez de um Lucky Luke com palhinha, e, záz, páz!, liga para a outra! Bufaram, mediram as forças, sopraram, a humana do sorriso sorri por último, enquanto sopra um fumo invisível da ponta do dedo indicador.
    Foi melhor do que ir ao Imax...
    Finalmente, montadas no Biju, cavalgamos até ao pôr-do-sol.

    E foi assim que aconteceu.}

    Ass.: Milu, usurpando a identidade da humana do pijama cor de rosa

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    1. Miluzinha, a menina está a evidenciar-se. Veio para aqui bordar testemunhos e, de fio em fio, não é que tece um comentário maior do que o meu próprio post!
      A menina entra aqui pela caixa de comentários a dentro e balouça-se, como se balançou na minha pochete, vasculhando e espalhando inconfidências. Vir para aqui dizer que eu guardo um batom na minha pochete é muito, muito grave. Vá lá que não revelou a cor! Uma senhora já não pode ter direito aos seus segredos! Ai, ai, Miluzinha, se se continuar a portar mal, ver-me-ei obrigada a soltar a Cidália ou, então, a pedir à humana dos refegos que lhe mostre a nova tatuagem. Quanto à pistola a que se refere, com cabo artisticamente trabalhado em madrepérola, preciosidade que se encontra em posse da família Smile há vários séculos, afianço-lhe que possuo porte de arma e que os papéis estão em dia. Ando sempre com ela no bolso para o caso de alguma coisa correr mal. Afinal, porque é que acha que consigo estar sempre a sorrir?
      Mas, está bem, tenho de reconhecer que gostei muito da sua versão. A Miluzinha tem queda para tricotar cenários de terror. Foi melhor do que ir ao Fantasporto! E o que lá vai, lá vai, que eu não sou pessoa para guardar ressentimentos. Venham de lá essas oito pernas para um abraço de tréguas. E, logo à noite, saloon? A Teresa já disse que alinha. Traz tabletes de chocolate lá das planícies alentejanas dos Alpes para todas. O Biju já desmarcou o "date" desta noite para nos dar boleia.

      Um beijinho, Miluzinha, e outro para a Flor :)

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    2. um beijo e um abraço tão forte, que até os ossos nos hão-de estalar.
      gosto de si, humana do sorriso :)

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    3. Ora vamos lá estalar esses ossinhos todos - tchim-tchim :)

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  6. Mais rápido que a própria sombra montado no seu Jolly Jumper o Lucky Luke não seria mais rápido do que a Miss Smile a sacar o telemóvel. Como achei engraçada a sua história lida nesta sexta-feira mais cinzenta que as cinzas que ficaram dessas leituras de BD.
    Um bom fim de semana.

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    1. Também acho que ganharia em destreza ao Lucky Luke, embora há que reconhecer que sou uns aninhos mais nova dos que ele :)

      Um beijinho, Benó, um bom fim de semana

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  7. Dona flor e os seus dois aranhiços, já acabou o naperonzinho, por acaso bastante garrido, cá para o meu gosto claro, ou isso é casa separa, casa separa? A menina por acaso sabe o estado em que deixou a Miss Smile, uma menina das mais antigas famílias dos humanos? Deixei-a agora no hospital da parede, toda partidinha, e o que descobrem os médicos, foi tudo obra de uma ji(bóia) tatuada sabe deus a começar em quem, porque dizem que é tão grande que começa no pôncio (pilates) lá do ginásio e acaba no...credo! E o que faz a florinha, com esse arzinho de flor de estufa, a senhora deixou de se rir, o que é estranho na família dos smiles, e a menina vá de morfar tabletes de chocolate suiço encostada à parede do saloon, e a afiar os lápis caran d'ache, aquela velharia lá da teresa, já todos mais p'ra lá do que p'ra cá...(eu quero ver como é que ela vai dar azul a toda a gente), e vai disto, dá um end ao Jolly Jumper, e eu nem cavalo tinha para levar a smilinha ao hospital. Então lá disse cá para mim, Hilarão, não és homem não és nada se não a levares ao colo! E lá a deixei chorosa, está a fazer exames e uma tac, coitadinha. Mas depois lembrei-me, e a Milu - the pink panther -, já terá acabado a depilação lá no health club, e vai daí liguei para a menina da recepção, muito eficiente diga-se em abono da verdade, mal tocou o telefone atendeu logo, e muito simpática por sinal, disse-me que decidiu antes tatuar uma aranha nas costas com uma teia enorme com moscas e melgas, se eu achava bem, eu disse que sim claro, mas que a cobra tinha fugido e andava a engolir bloggers conhecidos frequentadores lá do ginásio, e ela pareceu não se importar, e pediu-me para não desligar, que tinha que ir lanchar pela porta do cavalo, e agora estou aqui pendurado, porque ela ainda não chegou, nem o Jolly Jumper, só apareceu o rantanplan cheio de pulgas, a milu nem vê-la, e eu aqui com esta pistoleca de senhora na mão, a cheirar a perfume que tresanda...sem poder avisar ninguém de que hoje à noite não há saída, ou convido aquela que desapareceu com a mania que é nova, ah, ah, ah...

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    1. Senhor Hilário, veja lá como são as coisas. Uma pessoa está bem e, de repente, tudo muda. Ai, o meu coração que já não aguenta estes sobressaltos! Informo-o que já estou instalada numa cama da enfermaria a aguardar o resultado dos exames. Tenho duas companheiras de quarto que me têm feito muita companhia. Uma diz que tem uma “patite” e a outra queixa-se de uma dor “asiática”. Não sei que doenças serão. Provavelmente, serão dessas doenças exóticas que vão aparecendo por cá. Estamos, agora, a ver o João Baião na televisão para distrair. Senhor Hilário, se não for pedir muito, passe, por favor, por minha casa e traga-me os chinelos de quarto e a camisa e robe de cetim que a bata do hospital deixa entrar frio pelas costas e eu estou a sentir-me muito desconfortável. E avise também a Teresa e a Miluzinha deste meu handicap. Não se esqueça também de alimentar o Biju e o Jolly Jumper. Grata por tudo,

      A sua Smilezinha

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    2. ahahahahhahahhahahahahhahahahahahhahahahhahahahha!
      (que filme!)

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  8. De mestre, MIss Smile, de mestre!
    Muito bom fim de semana.
    Um beijinho,
    Mia

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    1. Com os anos, vai-se aprendendo a contornar certas situações.Para alguma coisa a idade há-de servir, não é?

      Um beijinho, Mia, e um bom fim de semana

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  9. Adorei a sua desenvoltura, Miss Smile, e a última parte, é um final feliz!

    Eu pratico Pilates :)
    beijinhos

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    1. mz, se eu soubesse que praticava Pilates, era a si que eu teria pedido as informações! Seria certamente mais rápido e eficiente :)

      Um beijinho e um bom fim de semana

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  10. Essas são as armas melhores para travar duelos. As que a inteligência descobre!
    Ah, mulher dum raio! :P

    Beijinhos, Miss Smile, e um bom fim-de-semana. :)))

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    1. Ah, ah - às vezes, também consigo ser uma mulher dum raio :)

      Um beijinho, Maria, e um bom domingo :))

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  11. Muito bem resolvido o contratempo! :)
    Ela não se irá esquecer de si...
    beijinhos e bom fim de semana

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    1. Para bem ou para o mal, a jovem não se esquecerá de mim, não :)
      Confesso que me incomodam estas situações - muito comuns, por sinal - em que é dada prioridade a quem telefona (como se o telefone emitisse o sinal sonoro de uma ambulância) em detrimento da presença física de alguém que aguarda a sua vez junto ao balcão de atendimento. Exaspera-me. Desta vez, "saltou-me a tampa" :)

      Um beijinho, Papoila e um bom domingo :)

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