domingo, 25 de outubro de 2015

O canto do cisne



(…) Vou contar agora uma história de pássaros. No lago Budi, os cisnes eram furiosamente perseguidos. Os caçadores aproximavam-se deles à socapa, nos botes, e depois, rápido, remavam… Os cisnes, como os albatrozes, levantam voo com dificuldade, têm de correr a chapinhar na água. Erguem dificilmente as suas grandes asas. Os caçadores alcançavam-nos e, à paulada, davam cabo deles.
Trouxeram-me um dia um cisne meio morto. Era uma daquelas maravilhosas aves que não tornei a ver no mundo, o cisne do pescoço negro. Um navio de neve, com o pescoço esbelto como que metido numa delgada meia de seda negra. Tinha o bico alaranjado e os olhos vermelhos.
Isto aconteceu perto do mar, em Puerto Saavedra, Imperial del Sur. Entregaram-mo quase morto. Lavei-lhe as feridas e meti-lhe pedacitos de pão e de peixe na garganta. Vomitava tudo. No entanto, foi-se recompondo das magoadelas e começou a compreender que eu era um amigo. E eu comecei a compreender que a nostalgia o matava. Então, carregando com o pesado pássaro nos braços pelas ruas, levava-o ao rio. Ele nadava um pouco, perto de mim. Queria que pescasse e indicava-lhe as pedrinhas do fundo, as areais por onde deslizavam os prateados peixes do sul. Mas ele olhava com olhos tristes para longe.
Todos os dias, durante mais de vinte, assim o levei ao rio e o trouxe para casa. O cisne era quase tão grande como eu. Uma tarde ficou mais ensimesmado, nadou perto de mim, mas não se distraiu com os musaranhos com que pretendia ensiná-lo de novo a pescar. Manteve-se muito quieto. Tomei-o outra vez nos braços para o levar para casa. Então, quando o tinha à altura do peito, senti que se desenrolava uma cinta, algo como um braço negro que me roçou a cara. Assim aprendi que os cisnes não cantam quando morrem. (…) 

Pablo Neruda, Confesso que vivi





Música: Franz Schubert – Serenata [O Canto do Cisne]
Poema: Ludwig Rellstab
Voz: Fritz Wunderlich



15 comentários:

  1. Mais do que a dor do corpo, a saudade mata, e de forma implacável.
    Obrigada, Miss Smile.
    Um domingo feliz e um beijinho.

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    1. É curioso que foi depois da morte do cisne que Neftalí Ricardo Reyes, ou seja, Pablo Neruda escreveu o seu primeiro poema, como ele conta mais tarde. A morte, a saudade, a nostalgia são condições necessárias para a criação de beleza. Schubert, que sofreu muito durante a sua curta vida, foi “o músico mais poeta que alguma vez existiu”, segundo Franz Liszt.

      Um beijinho, Blue, e um bom domingo

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    2. Faltou acrescentar que escreveu o seu primeiro poema quando tinha cerca de oito anos.

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  2. Uma história bonita, mas triste. Porque matavam os cisnes?... Fiquei curiosa. Tenho o livro, mas ainda não o li.

    A música que escolheu é muito bonita:)

    Um bom domingo:)

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    1. Não é explicado o motivo, mas, possivelmente, terá sido para treinar o tiro ao alvo, por desporto, por malvadez.
      Na mitologia grega, o cisne foi também associado a Apolo, o Deus da luz, das artes e também da adivinhação. De acordo com a mitologia, o cisne pressente a sua própria morte, cantando-a pela última vez.

      Um beijinho, Isabel, e um bom domingo

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  3. Assim se morre de saudade, num canto mudo que nos comove.

    Obrigada pela partilha Miss Smile,

    Bom domingo,

    beijinho

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    1. “A sombra é sempre negra, nem que seja de um cisne branco.”
      Pablo Neruda

      Todos os poetas que já compuseram sabem que a mão da alegria estará sempre a despedir-se dos seus lábios, como escreveu Keats. Nenhum poeta teve uma consciência mais dolorosa da beleza do que Keats que esteve doente e a morrer durante quase toda a sua vida.

      Um beijinho, mz, e um bom domingo

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  4. é um laço eterno que nunca desata, quando os animais que amamos nos morrem nos braços.
    o post é belo,mas tão triste.

    um abraço, Miss Smile

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    1. Desculpe, querida flor, se a deixei triste com a minha escolha, mas hoje sinto-me um pouco assim.

      Mas vou já compensá-la :)

      Cão

      Cão passageiro, cão estrito
      Cão rasteiro cor de luva amarela,
      Apara lápis, fraldiqueiro,
      Cão liquefeito, cão estafado
      Cão de gravata pendente,
      Cão de orelhas engomadas,
      de remexido rabo ausente,
      Cão ululante, cão coruscante,
      Cão magro, tétrico, maldito,
      a desfazer-se num ganido,
      a refazer-se num latido,
      cão disparado: cão aqui,
      cão ali, e sempre cão.
      Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
      cão a esburgar o osso
      essencial do dia a dia,
      cão estouvado de alegria,
      cão formal de poesia,
      cão-soneto de ão-ão bem martelado,
      cão moído de pancada
      e condoído do dono,
      cão: esfera do sono,
      cão de pura invenção,
      cão pré fabricado,
      cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
      cão de olhos que afligem,
      cão problema...
      Sai depressa, ó cão, deste poema!

      Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado

      Um beijinho :)

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    2. Un Perro Ha Muerto (de Pablo Nerudo)

      Mi perro ha muerto

      Lo enterré en el jardín
      junto a una vieja máquina oxidada.

      Allí, no más abajo,
      ni más arriba,
      se juntará conmigo alguna vez.
      Ahora él ya se fue con su pelaje,
      su mala educación, su nariz fría.
      Y yo, materialista que no cree
      en el celeste cielo prometido
      para ningún humano,
      para este perro o para todo perro
      creo en el cielo, sí, creo en un cielo
      donde yo no entraré, pero él me espera
      ondulando su cola de abanico
      para que yo al llegar tenga amistades.

      Ay no diré la tristeza en la tierra
      de no tenerlo más por compañero,
      que para mí jamás fue un servidor.
      Tuvo hacia mí la amistad de un erizo
      que conservaba su soberanía,
      la amistad de una estrella independienre
      sin más intimidad que la precisa,
      sin exageraciones:
      no se trepaba sobre mi vestuario
      llenándome de pelos o de sarna,
      no se frotaba contra mi rodilla
      como otros perros obsesos sexuales.
      No, mi perro me miraba
      dándome la atención que necesito,
      la atención necesaria
      para hacer comprender a un vanidoso
      que siendo perro él,
      con esos ojos, más puros que los míos,
      perdía el tiempo, pero me miraba
      con la mirada que me reservó
      toda su dulce, su peluda vida,
      su silenciosa vida,
      cerca de mí, sin molestarme nunca,
      y sin pedirme nada.

      Ay cuántas veces quise tener cola
      andando junto a él por las orillas
      del mar, en el invierno de Isla Negra,
      en la gran soledad: arriba el aire
      traspasado de pájaros glaciales,
      y mi perro brincando, hirsuto, lleno
      de voltaje marino en movimiento:
      mi perro vagabundo y olfatorio
      enarbolando su cola dorada
      frente a frente al Océano y su espuma.

      Alegre, alegre, alegre
      como los perros saben ser felices,
      sin nada más, con el absolutismo
      de la naturaleza descarada.

      No hay adiós a mi perro que se ha muerto.
      Y no hay ni hubo mentira entre nosotros.

      Ya se fue y lo enterré, y eso era todo.

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    3. Todos os animais são especiais, mas o nosso é sempre mais especial, como é o caso deste cão - companheiro e simultaneamente independente. Muito bonito e comovente.

      Agora vou puxar a brasa à minha sardinha:

      "O Pequeno Persa

      É um pequeno persa
      azul o gato deste poema.
      Como qualquer outro, o meu
      amor por esta alminha é materno:
      uma carícia minha lambe-lhe o pelo,
      outra põe-lhe o sol entre as patas
      ou uma flor à janela.
      Com garras e dentes e obstinação
      transforma em festa a minha vida.
      Quer-se dizer, o que me resta dela."

      Eugénio de Andrade

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  5. "Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
    Não é o serem atingidas, mas que,
    Uma vez atingidas,
    O caçador não repare na sua queda."

    Daniel Faria/ Pórtico

    Miss Smile, é lindíssimo esse texto. Acho que fiquei com uma dor no coração o dia todo. Um grande amigo meu tinha cisnes de pescoço negro na quinta, que é rodeada por lagos. Também tinha cisnes brancos e cisnes negros, mas de facto o casal de cisnes de pescoço negro era de uma beleza e exotismo extraordinários. Um dia ouviu um grande rebuliço de madrugada, e qual não foi o seu espanto quando viu ao longe que um homem acompanhado por quatro cães os atiçava contra os cisnes, que os apanhavam pelo pescoço, enquanto ele se divertia. Gritou como um doido, e entretanto o homem desapareceu com os cães, mas quando ele chegou perto das aves quatro já estavam mortos, incluindo o casal raro dos cisnes de pescoço negro.
    Penso que os cisnes acasalam para a vida. É provável que o cisne de Pablo Neruda tenha mesmo morrido de tristeza.

    Um beijinho Miss Smile.

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    1. A história que se passou com o teu amigo é tão triste e tão revoltante. Sinceramente, não consigo compreender o sentido desta violência gratuita. Fica uma dor no profunda coração. O fragmento do poema de Daniel Faria é lindíssimo e podia ter sido escrito para o cisne de Neruda.

      Há uma poema de Álvaro Magalhães obre caçadores que eu gosto de ler aos meus mais pequenos:

      "O caçador de borboletas

      Sorridente, ao nascer do dia,
      ele sai de casa com a sua rede.
      Vai caçar borboletas, mas fica preso
      à frescura do rio que lhe mata a sede
      ou ao encanto das flores do prado.
      Vê tanta beleza à sua volta
      que esquece a rede em qualquer lado
      e antes de caçar já foi caçado.
      À noite, regressa a casa cansado
      e estranhamente feliz
      porque a sua caixa está vazia,
      mas diz sempre, suspirando:
      Que grande caçada e que belo dia!
      Antes de entrar, limpa as botas
      num tapete de compridos pêlos
      e sacode, distraído,
      as muitas borboletas de mil cores
      que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos."

      Um beijinho, Teresa


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  6. Um texto que tem tanto de belo quanto de triste.
    Beijinhos, boa semana

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    1. Normalmente, beleza e tristeza estão interligadas.

      Um beijinho, Pedro

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