segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O meu irmão



O meu irmão tem olhos cor de avelã. Os meus são castanhos, mas vemos as mesmas coisas. Os seus gestos são os meus gestos. É assim que me recordo de nós. Tínhamos os nossos segredos, coisas pequenas e vacilantes, como um barco inclinado em ondas de seda. Contemplámos as mais distantes estrelas no escuro baço da noite e atravessámos o azul estridente do céu nas asas trémulas dos pássaros. Trepámos a lisura dos muros brancos, como quem escala os dias. Corremos pelos mesmos campos rasos com os braços esticados como asas. Ele pressentia-me os passos e eu adivinhava-lhe as pegadas. Perdemo-nos juntos nos verões cantados pelas cigarras. Respirámos as mesmas manhãs claras, habitámos os mesmos bosques, estremecemos dos mesmos espantos. Empanturrámo-nos de amoras, deixando escorrer o sumo pelos cotovelos, como num pacto de sangue. Sacudimos as mesmas tristezas, abreviámos os mesmos sorrisos, costurámos as mesmas aventuras. Ao fim do dia, regressávamos a casa com os joelhos esfolados e os braços cheios de travessuras em rama. Tecíamos um mundo alado com as nossas mãos pequenas. De coração alegre, sorvíamos os dias e roubámos o sono aos nossos pais. Com meia dúzia de anos, quem é que consegue ser adulto?
Hoje, os nossos olhos já não sabem bem dizer o que fomos. Ficou o crepitar da ternura que se desprende, como uma chama, das fugidias lembranças, o sabor da polpa cintilante das amoras que ainda nos escorre pelas mãos, a música infinita dos dias sem idade. O meu irmão casou e teve filhos. E eu sei que ele ama mais a mulher e os filhos do que me ama a mim. Mas sei também que se o chamar, ele estará lá, como sempre esteve, com uma flor aberta nas mãos. Afinal, ninguém esquece a primeira pátria. E eu amo-o como o rio que cresce rumo ao mar, embalando na corrente as águas lisas do primeiro regato.


18 comentários:

  1. que bom, deu-me uma saudade do meu irmão, e de falar dele :) bom dia miss Smile!

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    1. Faz bem à alma falar dos irmãos. É como regressar à nossa primeira pátria.

      (…)
      “Ser irmão é ser o quê? Uma presença
      a decifrar mais tarde, com saudade?
      Com saudade de quê? De uma pueril
      vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?”

      Carlos Drummond de Andrade, in "Boitempo"

      Um beijinho, ana, e um dia feliz :)

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  2. O amor é assim tão quantificável? "Ele ama mais a mulher e os filhos do que a mim." E se for / fosse assim?
    Um "isso" não terá apenas que ver com alterações normais da vida?
    Um beijo, Miss Smile.

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    1. Isabel, percebo perfeitamente a sua questão, mas pergunto - porque não podemos nós tentar quantificar o que não é quantificável? Ainda que o amor, no seu estado absoluto, não seja mensurável através de uma bitola universal, válida para todos, pode, ainda assim, ser quantificado dentro de parâmetros individuais, que são as circunstâncias de cada um. Atribuir um sentido às coisas é também quantificá-las, sem que, no entanto, tenha de existir um juízo de valores. Podemos dizer que algo é mais ou menos intenso, mais ou menos doce, sem que estejamos a dizer que é melhor ou pior.

      Neste texto, não quantifico o amor do meu irmão por mim. Quantifico, sim, o que penso que ele sentirá por mim à luz das atuais circunstâncias. São registos diferentes. Provavelmente, se tivesse escrito menos com o coração, teria “censurado essa parte :) Mas não o fiz, e ainda bem. Gosto de abraçar as minhas inseguranças.

      Um beijinho, Isabel, e um dia feliz :)

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  3. Querida Miss Smile,
    Deixou-me pensativo. Eu não amo mais, nem menos, nem diferente os meus irmãos. Amo-os com o mesmo amor de sempre. Entretanto, a minha vida ganhou outras pessoas que também amo. Não como a eles, nem mais, nem menos. Reconheço que algumas dessas pessoas levam a palma quanto à dedicação, preocupação, tempo e cuidados... mas não sei se as amo mais, se precisam mais de mim. E, no entanto, sei bem do que fala...
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. O amor pode ser escrito, pintado ou expresso de diferentes formas. Existem tantas formas de o expressar como de o sentir. No entanto, essa perspetiva individual existirá apenas no pensamento de quem o viveu. A “chave” que o querido Outro Ente usa para ler o que escrevi, são os seus amores, os amores que viveu, não o amor que eu vivi.

      Mas sei que percebeu o que escrevi, querido Outro Ente. O amor entre irmãos é também o barco de piratas, a casa na árvore, a cabana da bruxa na floresta das brincadeiras de infância, às quais não podemos jamais regressar. O amor não se esgota, é certo, mas muda com as nossas circunstâncias. Há correntes que nos suportam e embalam uma vida inteira, mas já não nos fazem cair...

      “Lugares da infância onde
      sem palavras e sem memória
      alguém, talvez eu, brincou
      já lá não estão nem lá estou.”
      (..)
      Manuel Pina
      Um beijinho, querido Outro Ente, e um dia feliz :)

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  4. Há diferentes formas de amor, o amor entre irmãos não interfere no amor entre marido e mulher ou pai e filho, são coisas diferentes, quanto a mim o que pode acontecer é quantificar o amor em termos de tempo disponível de uns amores para os outros....
    bjs

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    1. Não sei se os amores são assim tão lineares, permanecendo arrumadinhos em compartimentos próprios. Formam ilhas de um arquipélago que somos nós, estando, assim, todos interligados. Há amores absolutos e invioláveis, mas não amamos a mesma pessoa da mesma maneira toda a vida.

      Um beijinho, papoila, e um dia feliz :)

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  5. No nosso coração cabem muitas pessoas e o amor, esse, é amor, ponto. Irmãos, pais, filhos.. Pessoas diferentes sim, mas o amor, esse é sempre amor, não sei se conseguimos medi-lo. Beijinho MS

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    1. Todos cabem no nosso coração, sim. Mas o coração também se alimenta de circunstâncias e, embora possa não sentir o amor todos os dias igual, não é por isso que deixa de bater por amor.

      Um beijinho, GM, e um dia feliz :)

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  6. Miss Smile, percebi o seu amor, que é, certamente, correspondido pelo seu irmão na mesma justíssima medida.
    Há uns anos, um grande sábio daqueles que me cruzam o caminho, ensinou-me a distinguir as pessoas que verdadeiramente amamos daquelas que achamos que sim. Disse-me ele: "Se estás disposta a dar o teu coração por essa pessoa, podes dizer que a amas".
    Acredito que a Miss Smile vive rodeada de gente que daria o coração por si.
    Um beijinho de boa noite :)

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    1. Minha querida Blue, obrigada pelas doces e sumarentas palavras. Pois, não sei se haverá assim tanta gente a dar o coração por mim. Sei que algumas, sim, com toda a certeza. Mas, no fundo, não é isso que é o mais importante. Eu meço a valor da minha vida pela minha capacidade de gostar e de amar. Para mim, isso é o mais importante, porque para se gostar, tem-se também de aceitar e compreender as diferenças. Tem-se de questionar, crescer, tolerar, elevar. E eu acho que é isso que nós andamos cá a fazer.

      Um beijinho, doce Blue, e um dia feliz :)

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  7. (...)
    " Há uma casa que me espera
    para uma festa de irmãos
    há toda esta noite a negar que me esperam
    e estes rostos de insónia
    e o martelar opaco num muro de papel
    e o arranhar persistente duma pena implacável
    e a surpresa subornada da rotina
    e o muro destrutível destruindo as nossas vidas
    e o marcar passo à frente desse muro
    e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro
    até quando? até quando?"
    (...)
    António Ramos Rosa

    Um beijinho Miss Smile; tão belo este seu texto.

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    1. (…)
      “…que a vida vale a pena que ela é a nossa medida
      que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
      que o reino da bondade dos olhos dos poetas
      vai começar na terra sobre o horror e a miséria
      que o nosso coração se deve engrandecer
      por ser do tamanho de todas as esperanças
      e tão claro como os olhos das crianças
      e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele”
      (…)
      António Ramos Rosa

      Um beijinho, minha querida Teresa, e obrigada pelo Teu “colinho”, sempre tão consolador :)

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  8. Nós somos nove. Os nossos momentos de encontro, são momentos de plena felicidade e alegria. Trazemos até nós momentos partilhados na infância que nos fazem dar imensas gargalhadas. Outros nem tanto.
    No fim de semana passado tive encontro com seis deles. Foi tão bom.
    Um beijinho

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    1. Que maravilha :)
      Que riqueza ter tantos irmãos!
      Imagino que as conversas à mesa, quando se juntam, sejam sempre muito animadas :)

      Um beijinho, Maria, e uma boa noite :)

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  9. Respostas
    1. Obrigada, Laura :)
      E seja bem-vinda!

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