terça-feira, 13 de outubro de 2015

O verde da planície




Mark Rothko, Green on Maroon, 1961

- Ah, ele era o homem mais bonito que eu vi na minha vida – suspira D. Adosinda com um ar sonhador, enrolando uma madeixa de cabelo ralo e branco.
O contraste do gesto, tão doce, com as suas mãos engelhadas deu-me vontade de a abraçar, de emoldurar as suas memórias, que vão desaparecendo sob as camadas de pele cansada.
- Às vezes, sonhava com ele. De tão real que era, quase que sentia a mão dele sobre a minha. O calor do seu corpo a fazer parte do meu.
D. Adosinda interrompe o monólogo. Curvando-se sobre a mesa de centro, pega na chávena de chá e sopra o líquido quente e aromático. Bebe dois golinhos. A chávena a oscilar no pires, num mar ondulado de tremuras, desperdiça umas gotinhas de chá, como a vida faz com alguns amores.
- Os meus pais eram contra o namoro, porque o rapaz era de outro nível social. E eu tive de me conformar. Não podia fazer nada. Passei dias muito tristes. Sentia uma dor aguda no coração. Mas, depois, tudo passou. Os meus pais arranjaram o casamento com outro rapaz e eu não tive outro remédio senão aceitar.
Imagino-a jovem e pálida, encharcada de desgosto e de sal, sufocada por um amor estrangulado. Consigo vê-la a debater-se para aceitar os conselhos assisados dos pais e conter a revolta que, tal como as dores de parto, que só sentiria mais tarde, tinha de ser esquecida e perdoada. Naquele tempo era assim.
- Quando nos casamos, éramos dois desconhecidos. Se me perguntar como foi o meu primeiro ano de casamento, não lhe posso dizer que tenha sido mau. Mas foi melhorando à medida que os anos passavam. Sabe, tive sorte. Casei com um homem muito bom...
Lá fora, uma chuva miudinha roça ao de leve o vidro da janela. D. Adosinda suspira e estica repetidamente o pano verde da saia sobre os joelhos. Fita-o como se contemplasse uma extensa planície verde. O nosso coração está cheio de paisagens.
A mão, onde brilham duas alianças no anelar - a do falecido marido, mais larga, presa por um fio transparente à dela para não se perder - continua a puxar a saia, incansável, num compasso afinado com a mão direita, como se quisesse esticar as memórias.
- Não me foi dada outra escolha. E eu fiz o melhor que pude…
Olha-me com os seus olhos baços, como que cobertos por uma fina película de humidade. Depois, num pio ténue de ave, solta um resignado “É a vida”. Tento dizer alguma coisa, mas não encontro nenhuma palavra que sirva de consolo. Um sorriso doce amenina-lhe, agora, o rosto. De cabeça curvada, fita novamente a planície verde da saia, onde, certamente, uma flor de amor grande sobrevive numa interminável quietude. Há verdes que duram uma vida inteira.



[Para quem quiser conhecer melhor a história da D. Adosinda por ordem cronológica: 
A grandeza das pequenas coisas 

 


18 comentários:

  1. Miss Smile, obrigada. Isto foi lindo de se ler.
    É muito bom tomar chá consigo.
    Um beijinho, minha querida Miss Simle.

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    1. Para mim foi também um prazer tê-la hoje aqui a tomar chá comigo. Obrigada :)

      Um beijinho, querida Susaninha

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  2. E eu só agora vejo o (delicioso) post.
    Não me tinha aparecido antes.
    Este Blogger anda outra vez maio tonto.
    Beijinhos

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    1. O blogger está sempre a pregar-nos partidas e a brincar às escondidas:)

      Um beijinho, Pedro

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  3. Era assim, antigamente. Algumas chegavam a ser felizes, outras não. Gostei desta leitura pela manhã cinzenta e chuvosa, aqui pelo barlavento algarvio

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    1. Os casamentos combinados eram muito comuns naquela época e é como diz, umas conseguiam ser felizes, outras não.

      Um beijinho, Benó

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  4. Aqui me tem Miss Smile, a fazer-lhe uma vénia com a planície, essa saia comprida com saudades deste seu verde, onde coloca primorosamente aromáticas flores de chá. :)
    Que maravilha.
    Um beijinho à dona Adosinda.

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    1. Obrigada pelo belo poema que é o seu comentário :)
      O beijinho será entregue à D. Adosinda por altura da próxima visita.

      Um beijinho, Teresa

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  5. Simpatizo com essa "sua" D. Adosinda:)

    Beijinhos e continuação de boa semana:)

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    1. Também eu! É impossível não simpatizar com a D. Adosinda, não é? :)

      Um beijinho, Isabel, e uma boa semana

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  6. Gostei muito das histórias da Adosinda e também não posso deixar de falar na tela, adoro esse pintor a primeira vez que vi um quadro dele fiquei fascinada nem sei explicar porquê...
    bjs

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    1. Eu também gosto muito de Mark Rothko :)
      E a D. Adosinda é uma pessoa que me inspira...

      Um beijinho, papoila

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  7. creio que não há melhor elogio para dar a quem escreve, do que dizer-lhe que as suas palavras se sentem.

    as suas palavras, miss smile, sentem-se. obrigada.

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    1. Obrigada, querida flor. Também senti as suas que me tocaram.

      Um beijinho

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  8. Encontrei seu blog e é uma honra estar a ver e ler o que escreveu, quero felicitar-vos, pois é um bom blog, sei que irá sempre fazer o melhor, dando-nos boas noticias, e bons temas.
    Quero aproveitar a oportunidade para partilhar o meu blog : Peregrino E Servo.
    Vou ficar muito feliz se tiver a gentileza de fazer uma visita ao meu blog.
    PS. Se seguir, fique a saber que irei seguir também seu blog, se o conseguir encontrar.
    António Batalha.
    Parabéns e muitas felicidades.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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    1. Obrigada. Felicidades para si também

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  9. Aiii que saudades que eu tinha de ler as histórias da D. Adosinda!!:)
    Boas leituras! :)

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    1. E eu já tinha saudades de escrever sobre ela :)
      E já agora, também já tinha saudades suas :)

      Um beijinho, Luísa

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