sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Amores de verão




Sempre que ouço esta música de Michel Fugain não consigo deixar de pensar nos meus amores de verão. E ainda foram alguns, acreditem. Na maioria dos casos, foram paixonetas inconsequentes e fugidias, como a brisa leve do verão. Numa época em que as férias se prolongavam por três intermináveis meses, a vida fluía placidamente, apenas agitada pelo despontar de alguma tenra paixão. Claro que, com treze, catorze anos, não se pode falar de amor. Seria talvez mais o apelo do desejo, a mera curiosidade pelo sexo oposto.
Assim que chegávamos ao Algarve, onde passávamos os três meses de verão, eu e as minhas primas desfrutávamos de uma liberdade inaudita. Íamos à praia, jogávamos minigolfe, comíamos gelados e, alegria das alegrias, saíamos à noite. Claro que tamanha condescendência por parte dos nossos pais não era inocente. Na verdade, esta estranha infusão de hábitos noctívagos nos mais novos tinha uma função, a de vigiar as irmãs e primas mais velhas e de, eventualmente, servir de “empecilho” a alguns admiradores mais audazes. Encantadas com a assunção de tão aprazível tarefa, acompanhávamo-las nos seus passeios noturnos, dois ou três metros atrás, para não perturbar as suas conversas privadas. E nós, as primas mais novas, fora do controlo visual das mais velhas, regalávamos a vista com o desfilar de rapazinhos que se cruzavam connosco na marginal. Retínhamos os rostos mais bonitos e bronzeados, trocávamos olhares furtivos e, num exercício de pura criatividade, dávamos nomes aos rostos, que perduravam até ao fim da temporada. Depois de passar a noite a calcorrear a marginal, no dia seguinte, logo pela manhã, rumávamos em bando até à praia. A pretexto de uma caminhada, percorríamos, expectantes, o extenso braço de areia, olhando de soslaio os corpos estendidos nas toalhas, à procura dos “belos objetos de estudo”, chamemos-lhes assim, que víramos na noite anterior.
Lembro-me de que, num ano, tive um fraquinho por um rapaz que batizara com o nome de “Palhinhas” pelo facto de usar sempre um chapéu de palha na praia. Era um rapazinho moreno, bem-parecido - pelo menos, eu assim o julgava na altura - que frequentava a missa aos domingos à tarde, acompanhado pelos pais. E enquanto estes, sentados no primeiro banco, celebravam a Eucaristia com ar solene, entoando cânticos com devoção e fervor cristãos, o filho virava-se frequentemente para trás, fitando-me com os seus expressivos olhos castanhos. As minhas primas, indiscretas, acotovelavam-se e soltavam risadinhas abafadas. E eu afundava-me no banco, sentindo mil borboletas a brincar no estômago.
Num domingo, no fim da missa, quando aguardava no adro que as minhas primas saíssem da igreja, o “Palhinhas” começou a caminhar na minha direção, assim, sem mais nem menos, como se fosse entabular conversa. E eu, sem saber o que fazer, petrificada, colada ao chão, com o coração a bater tresloucadamente, a boca muda, sem fala, e o rosto a arder, como uma tocha incandescente, desatei a correr dali para fora, quase tropeçando nas minhas próprias pernas, como se fugisse da minha sombra. Só parei em casa, onde fiquei dois dias a engolir a vergonha e o arrependimento da minha cobardia. À noite, antes de adormecer, pedia um desejo, como se faz com as estrelas. Fechava os olhos e pedia que ele voltasse. Achei que seria assim que aconteceria. Mas não foi assim que aconteceu. Dias depois, voltei a vê-lo. Caminhava pela praia, de chapéu de palha na cabeça e calções azuis e brancos, ao lado de uma rapariga. Passou por mim e ignorou-me. Ou não me viu. Não sei ao certo. Mas o que sei é que, no meio de toda aquela luz que me queimava os olhos, o meu mundo escureceu. Ele era o único rapaz. Aos catorze anos, o único amor possível. Poucos dias depois, chegavam as trovoadas e o vento de sueste que punha o mar revolto, dando sinal que as férias tinham terminado e que era hora de regressar a casa.
Este é um segredo que mantive durante décadas. E vocês são as únicas pessoas do mundo a quem contei isto.

(Texto reeditado)


14 comentários:

  1. O Palhinhas era uma palerma, certamente! Onde é que se viu arranjar logo uma rapariga para passear? Um palerma, é o que lhe digo!


    Beijos, Miss Smile, e um dia com luz. :)

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    1. Só podia mesmo ser. Não existe outra explicação :)

      Um beijinho, Maria, e uma noite feliz :)

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  2. Perdi anos da adolescência a gostar de um único rapaz que nunca chegou a saber a dimensão dos meus sentimentos. Que desperdício não acha? :)

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    1. Só que nesse tempo não sabia o que sabe hoje. Tive uma situação semelhante - uma espécie de amor platónico que durou algum tempo. Curiosamente, não acho que tenha sido desperdício. Acho que foi um processo necessário, pois eu não estava preparada para qualquer aproximação. Bastavam-me os olhares e os sorrisos.

      Um beijinho, Mãe Sabichona

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  3. Veja, Miss Smile, quão inverdade é que "Os amores de Verão ficam enterrados na areia". Ou então, há uma brisa suave que, de vez em quando, os desenterram, no-los devolvendo durante os instantes que dura esse sopro.
    :)
    Bom fim-de-semana e um beijinho :)

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    1. Ah, mas foram muito importantes. Foram uma espécie de laboratório do amor :)
      E nada ficou esquecido. Às vezes, divirto-me imenso com as minhas primas quando começamos a lembrar esses verões. E há sempre alguém que se recorda de algum pormenor esquecido :)

      Um beijinho, Linda, e um bom fim de semana

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  4. Que giro, vivi as mesmas emoções e adorei recordá-las.
    As saídas nocturnas com as minhas primas mais velhas, os olhares as manhas na praia...optimo!
    Bjs e bom fim de semana

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    1. Então, sabe do que falo. Tempos de descoberta, esses. E a emoção de sair à noite? Inesquecível!

      Um beijinho, Papoila, e bom fim de semana

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  5. Querida Miss Smile,
    Então foi por isso que fugiu?!... Deveria ter arranjado coragem para a abordar mais cedo...
    Boa noite,
    Outro Ente.

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    1. Querido outro Ente, deixe-me que lhe diga que o seu comportamento na missa deixava muito a desejar. Mas era por uma boa causa :)
      Talvez um bilhetinho depositado com discrição no cesto das oferendas (e que eu recolheria disfarçadamente quando lá depositasse a minha moeda) tivesse surtido mais efeito :)
      E o chapéu, ainda o tem?

      Um beijinho e um bom fim de semana

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    2. Na verdade, Miss Smile, nunca teria desistido à primeira.

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    3. O que me leva a concluir que "Palhinhas" há muitos! Já homens a sério..

      Um beijinho :)

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  6. Querida Miss Smile, não tive esta sorte, não tenho irmãos e as primas estavam distantes, os meus amores platónicos foram de actores de cinema :)
    Mas casei, muitos anos depois da adolescência, com um algarvio e agora tenho uma praia mesmo ao pé de casa, mas já é tarde para amores de verão :)

    Um beijinho

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    1. Querida Fê, casada com um algarvio, com uma casa ao pé da praia, deixe-me que lhe diga que reúne os requisitos indispensáveis para viver o mesmo amor todos os verões e invernos. E estes são os melhores :) aqueles que duram todas as estações do ano.

      Um beijinho :)

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