sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Ostra feliz não faz pérola


Michael Kenna

Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos –, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão...”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas asperezas, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa...

Rubem Alves, Ostra feliz não faz pérola


19 comentários:

  1. Há quem diga que a melhor arte é sofrimento transformado em beleza!

    :)

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    1. O sofrimento pode trazer à tona o que temos de melhor e de pior. O mérito está em quem consegue extrair o melhor do sofrimento – na arte e na vida.

      Bem-vindo, C.N. Gil :)

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  2. Querida Miss Smile, acho que por aqui se arranjavam, já num instante, pérolas suficientes pelo menos para uma gargantilha, daquelas que se põem ao Domingo...o Manuel Hilário acabou de "roubar" ao Rui Veloso uma, para si :)

    Um beijinho, Miss Pearl.

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    1. Obrigada, querida Teresa. Ainda bem que estás de volta! Nem imaginas como fico feliz :)
      A gargantilha de que falas, uso-a sempre. Todos os dias me apresento aqui no Salão de Chá em traje domingueiro. Noblesse oblige!
      Quanto ao Manuel Hilário, não me digas que, agora, trocou a sua bic-hic por um colar de pérolas! Depois da história das unhas pintadas, já nada me surpreende…

      Um beijinho, Miss Diamante

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    2. Que troca tão bela de...gargantilhas...
      Quanto ao Manuel Hilário, nem te digo, hoje fartou-se de limpar o pó, agora está a passar a ferro, e a seguir, vai dar banho ao cão. :) Confisquei-lhe a bi-hic, teve que ser. Agora há horários, (das nove às cinco). Amanhã varre as folhas do caminho.
      Faltou-me dizer uma coisa: este texto é absolutamente maravilhoso, já o conhecia de "outros carnavais", mas ainda não tenho o livro. Rubem Alves também fez ostra :)

      Um beijinho, Lady Smile.

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    3. pérola, queria dizer...a ostra sou eu!
      :)

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    4. É nestas situações que uma bic-hic azulinha dava jeito para riscar, não era? Se calhar, confiscaste-a cedo demais ao Manuel Hilário :)
      Pois, faço-te companhia. Também eu me sinto uma ostra, a anos-luz de chegar ao estado de pérola – o Nirvana das ostras. E não sei se o facto de ser considerada uma iguaria ou um molusco manso me deve consolar ou preocupar :)

      Um beijinho, Baronesa do Canto

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    5. Com limão e pimenta isso passa :)
      baronesa, (com canto esfolado...)

      Noite feliz com pérolas, Miss Iguaria.

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    6. Bom, pimenta já eu tenho no feitio...
      É melhor usar apenas o limão para a iguaria não ficar demasiado explosiva.

      Noite feliz, Miss Pitéu 2015 :)

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    7. Ah,Ah,Ah,Ah....
      Sem palavras, Miss Genial 2016!

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  3. Do sofrimento à beleza uma transformação que nos deixa sem respiração...

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    1. Uma metamorfose que toca a realidade e levanta voo como uma bailarina...

      Um beijinho, M Campos

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  4. Venho só dizer que, perante comentários tão elevados, eu me retiro para o meu canto, onde o brilho de uma pérola dava jeito, pois de ostra,tenho eu muito.

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    1. Querida Mia, bem-vinda ao clube das ostras :)
      Deixe lá o canto e junte-se a nós que gostamos de conversar. Afinal, não são só as pérolas que ajudam a curar as feridas. Conversar também ajuda :)

      Um beijinho

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  5. Parece-me que afinal o colar de pérolas (belas palavras) já dá duas voltas ao pescoço. É por isso que gosto tanto de vir aqui :)
    Beijinho MS

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    1. Oh, obrigada, GM!
      É um texto bonito, escrito por alguém que aprendeu a converter desgostos em pérolas.

      Um beijinho

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  6. Uma forma positiva de se olhar para o sofrimento, como alimento para a criação, quando muitas vezes, não me parece que será assim, mas que por outro lado, poderá haver ostras felizes a fazerem pérolas.

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    1. Acho que há um fundo de verdade neste texto. Quem sofre, busca consolação na beleza. Para criar, é preciso sair da zona de conforto.

      Um beijinho, Gábi

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