sábado, 12 de dezembro de 2015

Tão cedo passa tudo quanto passa!*





Ficamos ali a olhar uma para a outra, com um sorriso comprido e surpreendido, varrendo os corpos, centímetro a centímetro. Ficamos ali, como se olhássemos o nosso reflexo no espelho. Quanto tempo passou? Tu balouças os braços. Eu encolho os ombros. Já foi há tanto tempo. Um homem passa por nós e faz-nos um breve sorriso como se conhecesse a nossa história. Como é que passaram tantos anos, torno a perguntar. Ainda ontem, entoávamos canções juntas, costurávamos brincadeiras e chorávamos desgostos de amor como sementes de romã. Nem sei bem como foi que perdemos o rasto uma da outra. É como se aquela rapariga de faces rosadas, macias como seda, tivesse desaparecido atrás de um biombo para, como num truque de magia, aparecer transformada neste rosto estranho, de olhos cansados e lábios finos, à volta do qual gravitam memórias difusas, num zumbido semelhante ao dos fios elétricos. Às vezes, pergunto-me se a realidade existe. Se existe uma realidade objetiva e intacta, independente da nossa perceção. Sorrateiro, o tempo passa sempre cedo demais. Corrói-nos as vidas e esboroa-se por baixo da sola dos nossos pés. Trocamos pedaços de conversa, tentando colmatar os espaços brancos da nossa existência. Um bocadinho de passado paira ali, acima das nossas cabeças. Duas rapariguinhas que, embora já não o sejam, se avaliam mutuamente, contabilizando os estragos do tempo num rosto que já não lhes devolve a amiga de outrora. Por fim, abraçamo-nos e, embora os nossos braços sejam ternos, as almas já não são as mesmas. Já não são quentes e palpitantes. Há muitos anos atrás, quando tínhamos ainda o mundo inteiro nos olhos, não sabíamos ainda que tudo se esquece. Quando a noite começa a cair como uma rede, despedimo-nos, apressadas. Os dias escurecem mais cedo.

* Ricardo Reis


16 comentários:

  1. A vida encaminha-nos para percursos diferentes e as almas, inevitavelmente, também deixam de estar em sintonia. Ficam as boas memórias e a ternura de um passado em comum. Mas não, nada é igual.

    Beijos, Miss Smile, e um dia feliz. :)

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    1. A partir de uma determinada altura da nossa vida, o percurso interior que partilhávamos com a família e alguns amigos de infância divide-se, bifurca-se, separa-se. E isso acontece sem que saibamos dizer precisamente quando. O percurso que foi uno e indiviso transforma-se em caminhos paralelos, perpendiculares. Talvez isso seja perder a inocência.

      Um beijinho, Maria, e um domingo feliz :)

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  2. também me pergunto se a realidade é real :) muito bom, tive um encontro semelhante com colegas da escola primária, nã os via à mais de 25 anos, foi quase decepcionante...

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    1. É sempre dececionante quando contamos com a impossível possibilidade de reencontrar o que se perdeu irremediavelmente na voragem do tempo. Penso que, para esses encontros, temos de ir preparados para conhecer novas pessoas.

      Um beijinho, Manel, e um bom domingo :)

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  3. "Voltar ali onde
    A verde rebentação da vaga
    A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
    Guardam intacta a impetuosa
    Juventude antiga -
    Mas como sem os amigos
    Sem a partilha o abraço a comunhão
    Respirar o cheiro a alga da maresia
    E colher a estrela do mar em minha mão"

    Sophia de Mello Breyner Andresen/ Os Amigos

    O tempo, esse implacável amigo.
    Um beijinho, Miss Memory; mais uma pérola :)

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    1. “Há nos silvos que as manhãs me trazem
      chaminés que se desmoronam:
      são a infância e a praia os sonhos de partida

      Abrir esse portão junto ao vento que a vida
      aquém ou além desta me abre?
      Em que outro mundo ouvi o rouxinol
      tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
      Onde adiava ele a morte contra os dias
      essa primeira morte?
      Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
      Que plenitude aquela: cantar
      como quem não tivesse nenhum pensamento.

      Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
      deste mês de junho? Como te chamas tu
      que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez...»?

      Quando aonde foi em que país?
      Que vento faz quebrar nas costas destes dias
      as ondas de uma antiga música que ouvida
      obriga a recuar a noite prometida
      em círculos quebrados para além das dunas
      fazendo regressar rebanhos de alegrias
      abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
      Que morte vem matar a lábil curva da dor?
      Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?

      E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
      chegar à boca da noite e responder”

      Ruy Belo / As velas da memória


      O tempo, esse amigo travesso que, balouçando-se indolentemente nos ponteiros do relógio, nos deita a língua de fora ou nos aponta o dedo médio…

      Um beijinho, Miss Estrela do Mar, e um domingo feliz :)

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  4. No entanto há coisas em que o tempo não parece tocar: o passado. O passado que passou não passa mais, passe o tempo que passar, fica intacto debaixo de todo o tempo que passa, que passou. É passado, já o tempo não lhe toca, o tempo não pára nem volta atrás. As vezes esbarramos com o passado, e hoje ainda o vemos, só o agora está diferente, os olhos cansados, os sorrisos esbatidos, as almas crescidas - de repente afastam o biombo e vemos tudo como era, mas que já não é. O que passa não chega a ser passado, passa cedo, e o que não passa? Muda?
    Bom dia, Miss Smile (desculpe-me as longas divagações partilhadas fruto do seu texto)

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    1. O tempo não para nem volta atrás. E passa sempre demasiado cedo, é verdade. Mas o que é realmente volátil é o presente. Esse instante fugidio que, mal tomamos consciência dele, já é passado. É por isso que a realidade precisa de tempos passados, sem os quais o presente não teria densidade. E o passado, embora irremediavelmente passado, muda e transforma-se com o nosso olhar que não é sempre o mesmo. Ao recuperá-las, o nosso olhar reveste as coisas passadas com as circunstâncias do presente. Neste processo constante de decantação da memória, o passado cresce e muda connosco. Não somos o que aconteceu, mas o que guardamos do que aconteceu.

      Foi um prazer ler as suas divagações e eu é que agradeço o seu comentário pertinente.

      Um beijinho, Eva, e um domingo feliz :)

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  5. 'Os dias escurecem mais cedo', porventura, com aquela pérfida dor de quem 'tem desgostos de amor como sementes de romã'...
    É um prazer ler as suas palavras!
    jorge

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    1. Obrigada, Jorge.
      Quando temos a melancolia como colega de carteira, achamos sempre que os dias escurecem cedo demais. A melancolia faz-nos amar ainda mais a vida em todos os seus sobressaltos e desilusões com todas as forças.

      Um abraço, Jorge, e um domingo feliz :)

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  6. Não existem bons amanhãs
    sem boas memórias

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    1. O presente é uma ponte entre as duas margens que o suportam – passado e futuro. Se os alicerces forem bons – o que se depura do passado e o que se projeta no futuro – a ponte suporta tudo.

      Um abraço, MA, e um domingo feliz :)

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  7. É verdade que por vezes o tempo transforma a alma. Amadurece-a e muitas vezes amacia-a, na maioria das vezes endurece-a. Mas não nos foquemos no passado. Nem no futuro... O foco é no presente.
    Beijinho MS :)

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    1. É importante estarmos focados e presentes no momento.

      Um beijinho, GM

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  8. Gostei muito deste texto Miss Smile.
    um beijinho

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