quinta-feira, 30 de abril de 2015

Diz-se que se amavam


Edvard Munch, Separação, 1896

Diz-se que se terão conhecido num jardim, com mar ao fundo. Que o chilrear doce dos pássaros nas árvores terá aberto os corações ao primeiro instante do amor. O canto, que pode ser um modo de silêncio, susteve o seu desejo até este se confundir na paisagem do amanhecer. Nos olhos dele, ela viu o encanto dos céus limpos. E ele, a claridade frontal do sol inclinado no cabelo dela. Escutaram-se, amaram-se, deram-se. Consta que não se separaram mais. Era um amor constelado e auspicioso, dizia-se. Ritmado pelas estações, prosperava, perfumado de paixão. Num dia de chuva abençoada, trocaram alianças e respiraram desejos de sempre. Foram felizes naquele princípio que não concebia fim. E na dança dos dias, foram desperdiçando beijos, alegrias, esperanças e cansaços. Aos poucos, ela foi deixando de medir o mundo pelas mãos dele. E ele foi esquecendo de se dar nos braços dela. Uma noite, caiu o silêncio. A luz que alimentava o desejo apagou-se uma primeira vez, avisando que há afãs que não duram para sempre. Comentava-se que, a partir desse dia, nascera uma tristeza desoladora dentro deles, idêntica aos antigos males de amor que já tinham esquecido. Por vezes, não restava mais nada do que dormir. No dia seguinte, escutavam-se, amavam-se, davam-se. Mas os braços permaneciam descaídos como malmequeres sem pétalas, reféns da poeira do desencontro. Comenta-se que se aninhavam cada vez mais na solidão. E assim se arrastavam os dias, feitos de silêncios e palavras que caíam como pedras no fundo da alma. A atenção concentrava-se no jantar, na conta da lavandaria, na reparação do carro. Coisas supérfluas, mas ainda assim, coisas deles. Até que um dia, ao virar do sol, conta-se, o amor não soube mais amansar o pulsar solitário daqueles corações, domar a onda de vida que se queria inteira. Os olhos e a boca dela diluíram-se no rosto como uma aguarela e o desejo morreu de vez. O mar, ao fundo, ficou lilás de desgosto. E ele, com a mão na gruta vazia do coração, partiu não se sabe para onde, deixando os cabelos dela a esvoaçar ao vento como os pássaros que partem cedo e não voltam.