quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Voltar a esticar as asas


Gilbert Garcin

Por que desordem começar? Anestesio-me com arrumações, impondo uma ordem exterior que estou longe de sentir dentro de mim. Ordeno toalhas por cores, disponho livros por épocas, deito fora chocolates fora do prazo. Esmero-me. Esforço-me. Mudo os lugares às coisas, porque dentro de mim algo mudou de lugar, como se tivesse mudado de casa. A nova ordem aquieta-me as angústias e preenche ninhos vazios. Incansável, dirijo-me para um louceiro, pronta a libertar do caos, terrinas, pratos, bules e chávenas. Começo a esvaziar o seu conteúdo, colocando cuidadosamente cada peça sobre a mesa. E é nesse momento que descubro uma chávena branca encostada ao fundo do armário. Sentindo uma súbita queimadura no coração, tão doce que não quero que pare, pego nela. Tem uma borboleta branca pintada na frente, com “olhos” escuros nas asas. A asa da chávena, essa, apresenta uma serpenteante linha quase transparente, como um fino fio de mel, indicando que já foi colada. Acreditas que já não me lembrava dela? E, porém, foste tu que ma ofereceste. Com uma coisa a retorcer-se cá dentro, sento-me numa cadeira. Recordo esse dia. Assim que a viste, achaste logo que combinava comigo. Conhecias o meu encanto por borboletas e o meu gosto por chá. Dentro de mim, abre-se uma brecha, como se uma costura suturada com linha forte começasse a abrir. Então percebo. Saber-me merecedora desta chávena inunda-me com a forma das coisas que estão para vir. Como por milagre, é esta chávena de asa partida que me cura. Com ela, volto a sentir-me inteira. Ainda que continue a ouvir o ruído da chuva, ou serão as lágrimas que ainda não secaram, sinto-me inteira, reconciliada. Volto a arrumar a louça. Coloco, agora, a chávena na frente da vitrina. Afinal, ela é uma das peças mais valiosas que possuo. É ela que me mostra que não é preciso mudar de casa. Por vezes, basta mudar o lugar das coisas, conferir-lhes a perspetiva certa. Ela relembra-me que a vida é feita de ganhos e perdas. Que cada chegada é sempre uma nova partida. E cada partida, um novo caminho. Um caminho que podemos escolher. Todas as manhãs, olharei para ela e murmurarei um agradecimento por teres feito parte da minha vida. Não será este um motivo suficiente para me confortar? Eu sei que é assim que gostavas que eu pensasse. A partir de hoje, vou voltar a esticar as asas.