quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Floresta



Numa caminhada, dirigimo-nos naturalmente para os campos e para os bosques: o que seria de nós se passeássemos somente em jardins ou em ruas ladeadas de árvores? 

Henry David Thoreau, Caminhada


Nos meus primeiros tempos na Alemanha, não compreendia o hábito tão germânico de calçar uns sapatos confortáveis para os ir logo atascar nos trilhos pejados de lama da floresta, calcorreando, sem norte, caminhos sombrios e intermináveis sobre os vertiginosos andaimes de sedimentos terrosos que se colavam às solas. Na altura, não entendia aquela necessidade de ir a lugar nenhum, aquele caminhar sem destino que os alemães apelidavam de wandern. Que desporto nacional era aquele que levava novos e velhos a equilibrarem-se sobre pesados tacões de lama peganhenta, como se desfilassem com sapatos de plataforma dos anos setenta? Para ser sincera, eu, uma bem-intencionada rapariga da cidade, nem sequer possuía uns sapatos categoricamente confortáveis. Ou, talvez, o meu conceito de sapatos robustos divergisse dos porta-aviões que os alemães colocavam nos pés, como viria a constatar dramaticamente - shakespearianiamente, acrescentaria – numa invernosa tarde de domingo em que, finalmente, cedi aos veementes apelos dos meus amigos. Nesse dia, calcei uns sapatinhos esteticamente robustos e lá fui, formosa mas não segura. Regressei a casa descomposta, enlameada até às rótulas dos joelhos, como se tivesse sido vergonhosamente derrotada numa enérgica luta na lama. A verdade é que não só deixara a minha reputação maculada, qual uma meia amarfanhada e perdida no meio de um caminho solitário, como correra ainda o risco de voltar descalça por, incautamente, ter enfiado um pé na lama pegadiça que quase me engolira o sapato. Felizmente que, para gáudio dos meus amigos, para os quais a floresta era uma instituição, eu não era um caso perdido. É certo que vacilei, hesitei, passei noites em branco, roguei pragas, mas lá acedi a comprar o material bélico recomendado para os pés. Assim, convenientemente apetrechada, fui aprendendo a apreciar esses passeios como se mergulhasse na floresta densa dos contos dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, que foram também professores na Universidade de Göttingen. Com o passar do tempo, compreendi que caminhar na floresta era mais do que calcar lama ou passear entre castanheiros, faias, abetos e pinheiros bravos. Era, antes de demais, satisfazer o desejo de partir em direção ao desconhecido. E embora o objetivo não fosse chegar, não se sabendo verdadeiramente para onde se ia, regressava-se sempre ao ponto de partida. O espaço da caminhada é sempre circular. O prazer residia na própria caminhada, no simples prazer de ser na natureza. Embrenharmo-nos na floresta labiríntica pode ser, metaforicamente, fazer uma viagem ao fundo de nós mesmos, porque a floresta é um espaço de liberdade. Nela, fazemos uma busca que só faz sentido se nos perdermos primeiro. A temperatura desce e a luz apaga-se lentamente sob a copa das árvores. A floresta tira-nos do tempo, incitando-nos ao mistério e a encontros inesperados – o vulto de um cervo ou de um texugo ao longe, grutas sombrias, o rumor de um riacho, gritos misteriosos, finos e subtis, como galhos quebradiços… A floresta é, na sua essência, um tempo para ser e não para estar. Vivemos dimensões paralelas – a nossa e a das histórias que rompem do nosso imaginário. Bruxas, gnomos e lobisomens formam mundos divergentes e convergentes que se bifurcam nos múltiplos sentidos do que somos. Quando, recentemente, voltei a entrar na floresta que aprendi a amar e que, à distância, tanto tenho sonhado, foi como se tivesse regressado a um tempo que é anterior à consciência das coisas e a um lugar que fica entre as palavras e o silêncio.


38 comentários:

  1. Maravilha de texto, Miss :), cada vez gosto mais de aqui estar. Quando tirei o meu curso de Germânicas, também aprendi esses conceitos, como o que é explícito em Das Wandern ist des Mullers Lust...
    Depois quando fui à Alemanha para ver o meu filho experimentei in loco - e também com botas - o que era andar em campos, florestas, lagos. Uma vez fiquei enterrada na neve com dificuldade em sair de lá. O imprevisto é espectacular!! Bjinho

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    1. Sim, o poema “Wanderschaft” de Wilhelm Müller, para o qual Schubert compôs “Das Wandern”. A floresta faz parte do imaginário alemão e é um tema recorrente na literatura e na música alemãs.
      A floresta é profícua em aventuras :)

      Um beijinho, Virginia :)

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  2. Gosto da tua floresta, do teu jardim, da tua casa...
    Mas gosto muito, mas muito da tua Áurea. Ela detém todas as cores do arco-íris.
    Fica um beijo com carinho.

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    1. Oh, muito obrigada, querida Sandra, mas é a tua generosidade e bondade que me pintam de tons vivos.

      Um beijinho com carinho :)

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  3. Que lindo, Miss Smile! Por momentos voltei às minhas aulas de Literatura Alemã, de Cultura e Instituições Alemãs!

    De facto, cada povo tem a sua cultura específica e especial.

    Belo texto, mesmo!!

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    1. E podemos aprender tanto uns com os outros. É só deixar que os países nos visitem.

      Um beijinho, Graça :)

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  4. aprendi que na eventualidade de deixarmos um sapato na lama, o devemos marcar com um pau e depois mais tarde, se possível, lá ir resgatá-lo :)

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    1. Esses sábios ensinamentos constam do “Manuel” de Sobrevivência na Floresta Alemã, à venda em todos os quiosques situados na orla da floresta. O mesmo inclui já o referido pau e um sapato extra.

      Um beijinho, Manelito :)

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  5. ~~~
    Lamento nunca ter passeado por uma floresta a sério.
    A mata nacional da minha zona - em Barão de São João
    - não tem lama, nem graça especial, porém, no verão
    possibilita passeios frescos e agradáveis.

    Apenas tenho a grata memória de passeios solitários
    que dou na minha imensa propriedade meio selvagem e
    que são fantásticos encontros com a natureza, com o
    universo terrestre e com o cosmo.

    ~ Gostei muito do tema, querida Smile...

    ~~~ Beijinhos amigos. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. E a relação com a natureza é tão importante. Sem ela, perdemos também a relação com os outros.

      Um beijinho, Majo :)

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  6. Que fantástica descrição. Eis como me sinto quando vou pedalar pelas plorestas e pelas serras...
    Beijinho

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    1. A natureza é, sobretudo, um espaço mental onde se gosta de estar.

      Um beijinho, GM :)

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  7. Precisava de caminhar muito mais do que caminho.
    Mas, verdade seja dita, não gosto nada de caminhadas.
    Vamos ver se consigo mudar.
    Bjs

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    1. É verdade, Pedro, o problema não eram os sapatos, mas a disposição mental para o fazer. É preciso questionar hábitos e abalar preconceitos.

      Um beijinho :)

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  8. Que lindo, Miss Smile!
    Para mim, tudo o que descre eu foi uma enorme revelação. Não conhecia a tradição, nem alguma vez fiz uma caminhada semelhante, sequer. Nunca estamos verdadeiramente completos e acabados.
    :)
    Um dia feliz e obrigada.
    E também um grande beijinho :)

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    1. Exatamente. E o caminho inacabado é a condição essencial do ser. Por isso é que eu gosto da floresta que me parece sempre infinita.

      Um grande beijinho, Blue :)

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  9. Esse ir sem destino e mergulhar na natureza é demasiado tentador. Já tenho feito passeios assim e são sempre uma deliciosa surpresa.
    Bom dia, Miss Smile, por aqui cinzento e com chuva.

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    1. Caminhar sem destino é ter diante de si o desconhecido, é ver-se a si próprio numa outra perspetiva e olhar o mundo de outro ângulo. A vida quotidiana precisa destas intermitências.

      Um beijinho, Ava :)

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  10. do melhor que guardo, as caminhadas com a minha mãe.

    é tão bom lê-la. um forte abraço.

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    1. “Nós não vemos a vida – vemos um instante da vida. Atrás de nós, a vida é infinita; adiante de nós, a vida é infinita. A primavera está aqui, mas, atrás deste ramo em flor, houve camadas de primaveras de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores desmedidas por trás desta flor minúscula.”

      Raul Brandão, Húmus

      Um abraço apertado, querida flor

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  11. Querida Miss Smile,
    E assim se começa bem o dia...
    Bom dia!
    Outro Ente.

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    1. Fico muito feliz se lhe fui uma boa companhia durante o pequeno almoço.

      Bom dia, querido Outro Ente :)

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  12. Excelente alegoria. Voltamos sempre ao mesmo lugar de onde nascemos e um dia morreremos. O resto foi caminho cumprido onde deixámos as nossas marcas intransmissíveis.
    Beijinho, Miss Smile.

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    1. E, no entanto, a vida impele-nos a tantos recomeços. Tantos. A partir de encontros, esperanças, mas também de perdas, feridas, deceções. Talvez, por isso, precisemos de voltar várias vezes ao lugar onde nascemos para perceber que todos os atalhos nos levam a nós.

      Um beijinho, Paulo :)

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  13. Bela viagem ao interior, mediada pela floresta.
    E tão bem contada, Miss Smile.
    Beijo

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    1. A floresta, como espaço isolado, é propícia a passeios interiores e espirituais. O inesperado aguarda-nos na sombra.

      Um beijinho Isabel :)

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  14. Um resto de bom dia. Na leitura deste texto é difícil não nos sentirmos transportados para o cenário descrito. Os alemães acabam por nos surpreender em cidades mais pequenas, como é o caso de Göttingen.
    Um beijinhos, Miss Smile.

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    1. A floresta é um espaço mítico para a maioria dos alemães. É respeitada e cuidada pela maioria. Nos inúmeros passeios que dei nunca me deparei com restos de piqueniques ou vestígios de outras necessidades fisiológicas. Infelizmente, já o mesmo não se pode afirmar das nossas matas.

      Um beijinho, Mia

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  15. Há lugares e momentos mágicos. Algumas revelações chegam-nos aos poucos. Outras nem por isso. Não podemos perceber tudo ao mesmo tempo, nem quando o desejamos.

    Um dia posso ir consigo a essa floresta? Gosto de lugares sem tempo.

    Um beijo, Miss Smile.

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    1. Claro que sim, querida Miss Me. Há florestas em todos os cantos da Alemanha. Todas parecem iguais e, no entanto, todas são diferentes, tal como cada caminhada que fazemos.

      Um beijinho :)

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  16. Querida Miss Smile, descreve tudo com tanto encanto que até eu "menina da cidade" me perdi nessas florestas.
    Agora fez-me lembrar a descrição que a minha filha me fazia, das longas caminhadas pela floresta da Amazónia, onde ela fez o mestrado de biologia.
    Actualmente ela está noutra floresta na Tailândia, tal é a magia que as florestas devem ter.

    Um beijinho

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    1. A floresta é fascinante pela sensação de libertação que oferece. É no desconhecido onde melhor aprendemos a encontrar-nos. A sua filha, como especialista da floresta, saberá isso melhor do que eu.

      Um beijinho, querida Fê :)

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  17. Fräulein Smile,

    Bem me parecia que não estava devidamente apetrechado para a acompanhar à floresta, mas pôs-se com essas falinhas mansas e arrastou-me consigo. Vá andando, vá andando Hilário, e aqui o tó-tó foi-se atolando lá na floresta negra, e o que fez ao ouvir os meus pedidos de socorro, ouvidos de mercador, isso sim, pois que tive que me desenrascar sozinho, e deixei lá o sapato! Claro que aproveitei a ideia ali do Conde, e como na floresta não faltam paus, lá consegui sinalizar os meus sapatos de Domingo, achei melhor deixar lá os dois. Vá lá Hilário calce uns sapatinhos melhores, não vai sair comigo nessa figura, e é claro um homem, perante tal pedido faz o que pode para agradar, mal sabia eu que passado um bocadinho de caminhar pela estrada ela resolve entrar na floresta como se fosse ali o jardim da Estrela, e como se caminhasse em casa vai por ali fora, deixando para trás o desterrado, isso sim, foi o que eu me senti. Ora não querem lá ver, uma pessoa é enrolada em frases bonitas, escorregadias como a música de Bach, e o que ganha com isso é chegar descalço a Göttingen, e deitar as meias no lixo. E a Miss Risinho Trocista, já chegou Hilário, há três horas que estamos à sua espera, perdeu-se, não me diga, quer um chazinho? Ah, ah, sentadinha a ler o Der Spiegel! Pois isto que acabei de ler fez-me cantar de contentamento, afinal também já foi aos gambozinos, pois que faz alguém de juízo a deambular pela floresta cheia de gnomos e bruxas, o único lobisomem era eu, e cheio de medo? Nada. E lembrei-me de O Caminho da Floresta, de Jünger, lá da biblioteca, que já comentei com a bic, ó palerma vai masé andar na cidade que é a mesma solidão! E olhe que tão cedo não me apanha nesse "mistério dos encontros inesperados", granda lata, sabe o que é a senhora, um Gefahr, c hic!

    Manel Hilário

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    1. Sehr geehrter Herr Manuel Hilário, começámos a caminhar em Göttingen e o senhor já está na Floresta Negra? E diz que pelo caminho se tem vindo a atolar na lama? Faria se não tivesse! É certo que o seu caminhar claudicante confirma a perda de um sapato (pelos vistos não comprou o “Manuel” de Sobrevivência redigido pelo Conde, que vem com um sapato extra – ver comentário dirigido ao mesmo), mas, caramba! Ah, mas agora reparo que vem com um sapatinho de salto alto calçado que me faz lembrar aquele sapatinho esteticamente robusto que deixei perdido na floresta faz já alguns anos. Então, os seus sapatinhos de domingo, do renomado calçado Guimarães, ficaram atascados num trilho perdido da floresta alemã? Se isto não é uma excelente alegoria para o estado da nação, então, eu não me chamo Smile! Mas, voltemos ao que interessa. Já mandei a Proteção Civil Alemã no seu encalce. A própria Merkel até se prontificou para se embrenhar na floresta fria e sombria para ir à sua procura, alegando que nem precisava de trocar de sapatos. Aqui, entre nós, as cimeiras são lugares perigosos e a Ângela não dispensa o uso de porta-aviões nos pés. Quanto a mim, estou aqui sentadinha no sofá a bebericar um cházinho de camomila (para me acalmar das preocupações que o senhor me dá) e a ler Ernst Jünger. Quanto à minha pessoa ser um “Gefahr”, permita-me que o interprete como um elogio. Todas as mulheres que se prezam são perigosas, meu caro. Se tivesse sabido disso, não estaria na situação em que se encontra agora! Viel Spaß :)

      Miss Smile

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    2. negra, com letra "pequena", como eu, que tenho que andar de saltos altos para lhe chegar...consigo sou um caso perdido, um pobre homem. Olhe, seu perigo em andaimes, vou daqui dar um piropo à Angela, e vai ver como ainda sai uma nova lei sobre os perigos de andar por aí perdido, nas florestas negras desta vida!

      Passar bem,

      Pau Mandado.

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    3. Então, se eu, Miss Smile, o faço sentir-se pequeno, o senhor vai agora meter-se nos meandros das altas esferas? Quer acabar feito num bolo Floresta Negra (Schwarzwälder Kirschtorte)? Veja lá a cilindrada, que aquilo é muito cavalo! E há motores que não aguentam tudo, e quem o avisa, sua amiga é. Olhe que, na Alemanha, não se contam os centímetros cúbicos como quem conta sardinhas. Tudo é levado muito a sério! E veja lá se quer regressar a Portugal com um olho negro.

      Aconselho-o a refrear esses seus ímpetos de Hilário arrivista

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  18. Gostei muito deste texto Miss Smile, fez-me pensar em magia e mundos paralelos.

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    1. A floresta é mesmo um mundo mágico :)

      Um beijinho, Gábi

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