sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Equações


John French

Em 81 disse à Drª Manuela Brazette, psiquiatra, “Eu sou feia.” Ela disse-me “Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atrativos sexuais.” Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego. Lembrei-me do homem, da cara do homem vagamente, mas lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim. Tinha-me dito “Lambia-te esse peitinho todo”. Lembrei-me também de meia-dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava “Coisinha boa” e “Borrachinho”. Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que eles estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Drª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.

Adília Lopes, Irmã Barata, Irmã Batata


31 comentários:

  1. As nossas pequenas "invejas" e coisas mal resolvidas connosco próprias resultam sempre em algum sabor amargo que insiste em permanecer, ao longo do tempo. Por vezes vem à superfície.

    Bom dia Miss Smile :)

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    1. A forma como nós, mulheres, falamos sobre outras revela mais sobre nós do que sobre aquelas de quem falamos.

      Um beijinho, Vizinha do Quarto Andar :)

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  2. Miss Smile, cuidado, está a tocar no ponto sensível do malvado piropo :)

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    1. A escolha do texto de Adília Lopes é uma provocação que levanta várias questões. Em relação ao ponto sensível que refere no seu comentário, é preciso distinguir piropo de assédio sexual. Todas já ouvimos palavras de desconhecidos que, num determinado momento, nos fizeram sorrir, abrilhantando-nos o ego, e todas já ouvimos, também, palavras invasivas e boçais, afiadas como lâminas, que, embora devessem envergonhar quem as profere, nos conspurcam e nos fazem sentir sujas. Há homens que sabem medir as palavras e há outros que ainda andam às voltas com uma qualquer linguagem do período das cavernas. Nenhuma mulher gostará de ser reduzida a um mero objeto sexual, mas penso que nenhuma mulher gostará também de se ver sem a sua dimensão sexual. Dizer a outra mulher que não tem atributos sexuais é cruel. É retirar-lhe uma parte essencial – a par com a inteligência, o caráter, etc. - que forma um todo.

      Um beijinho, Flor :)

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    2. sem dúvida, Miss Smile. palavras certeiras, as suas (como de costume).

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  3. Mulheres, conceitos, conselhos, piropos. Tudo junto, dá que pensar.
    Beijinho, Miss Smile.
    Bom fim de semana.

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    1. Na Alemanha, conheci algumas mulheres que gostavam de ter os homens alemães mudos e “mansos”, presos ao que elas consideravam ser politicamente correto. Estes homens eram incapazes até de olhar para as curvas de uma mulher. Credo! Mas, curiosamente, nos momentos mais expansivos, estas mulheres procuravam a companhia de homens de culturas mais dadas ao piropo. Não estou a julgar, mas apenas a constatar um facto que observei várias vezes e que me deu que pensar.

      Um beijinho, Mia :)

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  4. O barato é inimigo da barata.
    O barato sai caro.
    A barata é uma barata tonta
    Mas quando tem medo faz-se de morta.
    As baratas são más para as outras baratas,
    Ganha sempre a mais cara.
    Os baratos desbaratam.

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    1. As baratas são seres envernizados, de pernas finas e antenas sempre espetadas. São amigas, inteligentes, mas, às vezes, ficam atarantadas, sobretudo, quando um barato aparece a voar saído de um cano. Então, abrem as asas e transformam-se em baratas tontas. Aí, é vassourada, é chinelada, é gritaria, é novela das oito. O barato, que sai caro e que já foi Gregor Sansa antes de se começar a dedicar a questões menos existenciais e mais biológicas, esfrega as patas de júbilo, dá três piruetas no ar e decide voltar mais tarde quando a batatada acalmar e a seleção natural estiver concluída.

      Tratado de Psicologia Barata, Capítulo 104, pág. 998

      Teresa, você é um barato :)

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    2. Isso é o Manuel Hilário...
      eu sou apenas mais uma baratinha... :)

      Gostei do piropo, haja Deus, já somos dois (baratos).

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    3. Há piropos filantropos :)

      Bem-vinda ao clube, baratinha!

      Um beijinho

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  5. Olá smile,

    Recordando os piropos... se fosse hoje já não os ouvias.
    Beijo e bom fim de semana

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    1. Olá Cristina, pois, mas o que já cá cantam já ninguém mos tira :)

      Beijinho e bom fim de semana

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  6. Este thread está de morrer a rir...obrigada pelo tempo que empreguei a lê-la.
    Lembro-me duma frase que uma irmã minha escreveu ao namorado francês numa carta ( que eu li, não sei como) e que me marcou para sempre. Estava a descrever-nos ( 6 irmãs) e sobre mim disse : "Virginia n'est pas jolie, mais ele est sympa". Fiquei danada de não ser considerada bonita nos meus 15 anos, pois me achava digna desse epíteto. Traumatizada, só aos 19 anos me recompus quando o meu ex-marido me conheceu e afirmou ( cheio de paixão): "Tu és a mais bonita das tuas irmãs todas." . A minha sogra, então, deitou a água na fervura, dizendo: "A Virgínia tem uma cara linda, mas um corpo desgraçado."

    Quanto a mim,benza-a Deus, ela não tinha nem cara linda nem corpo de jeito, mas contive-me, felizmente! :)

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    1. A sua sogra tinha alma de "sogra barata" (tema também contemplado no Tratado de Psicologia Barata, capítulo 99, pág.765-876 - é o capítulo mais extenso do tratado:)
      Mas isso é lá coisa que se diga sobre uma futura nora?! Ainda bem que ele não lhe deu ouvidos.

      Um beijinho, Virginia :)

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  7. ~~~
    Todas gostamos de galanteios...

    Os piropos mais atrevidos,
    do género do homem do Arco do Cego irritam-nos
    e enojam na altura, mas mais tarde fazem-nos sorrir...

    Gostei muito do texto - uma opção muito pertinente.
    A conclusão está soberba!
    Nunca tinha pensado na força que o piropo pode ter
    a nível psicológico...

    Nunca acabarão, agora segredados pelas ruas das
    nossas grandes cidades... Esperemos que a lei torne
    os ''piropoqueiros'' mais gentis.

    ~~~ Beijinhos, Smile. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Subscrevo inteiramente o seu desejo - que os "piropoqueiros" - amadores e profissionais - se tornem mais gentis.É uma arte que pode ser refinada. Subtileza, delicadeza e um sorriso ficam sempre bem.

      Um beijinho, Majo :)

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  8. Tudo tem a sua utilidade!
    Quem precisará de uma doutora como essa??
    Palavras simpáticas quem não gostará de as ouvir?
    Bonitas palavras e bonito texto. bjs e bfs

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    1. Eu escolheria o meu cabeleireiro como doutor. Tem um ouvido excelente, mãozinhas de ouro e palavras delicadas e simpáticas. Trata-nos do cabelo com a mesma delicadeza com que nos trata da alma.

      Um beijinho, Papoila, e bom fim de semana

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  9. Este trecho do livro de Adília Lopes é perturbante. Algumas mulheres preferem ser desejadas e "mal amadas" (desculpe-me a expressão, que detesto) a serem ignoradas. Se calhar não só algumas. O ser humano não suporta, primeiro que tudo, a indiferença.

    Bom fim de semana, Miss Smile.

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    1. Este trecho de Adília Lopes é provocatório e desconcertante. Remete particularmente para a sua doença e para a sua própria história. No entanto, tem algo que pode ser aplicado a todas as mulheres, que é, designadamente, a necessidade natural de se sentir desejada. Não me refiro a ser amada, mas, precisamente, a sentir-se desejável. Aliás, tenho a certeza que todos nós, homens e mulheres, sentimos essa necessidade. Já o piropo não é absolutamente necessário. Pode, até, ser dispensável. Mas o que achei tão trágico no texto de Adília Lopes foi o facto de aqueles dois ou três piropos que ouviu, um dia, repescados nos confins da sua memória, lhe servirem de tanta consolação. Não deixa de ser triste constatar o forte impacto que tiveram na sua vida, como se não houvesse mais nada. Por outro lado, fez-me pensar que o piropo (educado) ou o sentirmo-nos subtilmente desejadas por um desconhecido – que não tem qualquer intenção adicional em relação a nós, nem nós em relação a ele – pode ter mais importância do que aquela que, à primeira vista, atribuímos. É a mais pura das verdades que a indiferença pode fazer muitos estragos.
      Quanto à expressão “mal amadas”, que eu também não aprecio, não a colocaria na temática do piropo, mas na das relações amorosas. Mulheres “mal amadas” são mulheres que vivem relações infelizes ou doentias, onde falta essencialmente respeito, e às quais não conseguem pôr termo. A expressão “mal amada” aponta diretamente para aquele que as ama, e que as ama “mal” e, embora isso seja verdade, o cerne da questão reside nelas que, sem conseguir romper com uma relação que lhes faz mal, se vão anulando e aceitando o que, em muitos casos, é inaceitável. Por isso, eu costumo dizer que, em primeira linha elas são “mal amadas” por si próprias e talvez tudo se resuma a um problema de autoestima, não sei. No meio académico, conheci algumas mulheres inteligentes, profissionalmente bem-sucedidas, determinadas e aparentemente seguras, mas que mantinham relações amorosas desequilibradas e insatisfatórias. Por medo de ficarem sozinhas, desculpavam o que, por vezes, era indesculpável e resignavam-se com aquele pouco que iam recebendo. Este tema dá pano para mangas e podíamos continuar aqui à conversa, mas o dia está bonito e vamos aproveitar o fim de semana :)

      Um beijinho, Paulo

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  10. isto acaba por explicar muita coisa... mas as mulheres são infinitamente complexas, morrerei a tentar compreender! :)
    bom dia Miss Smile, agradecido pela partilha.

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    1. Mas não precisa de entender todas. Basta que entenda a que ama :)

      Um beijinho, Manel

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  11. E este blogue é a prova de as (ou algumas...) flores também sabem escrever.

    Bjs, Miss Smile

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    1. Ah, querida Miss Me, finalmente! Estava a ver que ninguém me deixava aqui um piropo :)

      Um beijinho

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    2. Faltou um «que» aí pelo meio... :)




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    3. Não fez falta nenhuma. O piropo soube bem na mesma :)

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  12. Sabia que ela escrevia poesia, fiquei curiosa sobre esta obra Irmã Barata, Irmã Batata e a seguir vou "googlá-la" (lembrou-me de quando era adolescente e de quando não me assustavam, às vezes no depois, gostava de ouvir piropos)

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    1. O "Irmã Barata, Irmã Batata" consiste numa espécie de aforismos de Adília Lopes. É muito interessante e bastante desconcertante, como é também a sua poesia.
      Um piropo bem cozinhado deixa boas recordações.

      Um beijinho, Gábi :)

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  13. Provocatório (o texto e o piropo). Bom fim-de-semana :-)

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    1. Sim, ambos o são.

      Bom fim de semana :)

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