sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Esperar a chegada da manhã



Sabia que nos reencontraríamos na festa organizada pela E. Eu estava preparada. E confiante. Assim que me viste, acenaste e eu avancei para ti. E embora eu quisesse parecer leve como uma pena, as minhas pernas tornaram-se pesadas e desobedientes. Quando te olhei de perto, voltei a engolir água salgada. Vi nos teus olhos cinzentos a âncora dos sonhos que sonhei um dia. Sonhos de que já não me lembro. Já passou tanto tempo. Mas nunca esqueci a voz que os despertou. Ainda me sorris da mesma maneira. Não sei explicar. Parece um misto de mistério e desejo, um cocktail absolutamente irresistível que me queima a garganta e desce vagarosamente, como que se o coração me estivesse a ser aberto suavemente. Passaram já muitos anos, mas o sal não me endureceu o coração. Não esqueci os arranhões na alma, as silvas que me fizeste pisar. Confiava em ti e, por isso, caminhava descalça. Mas sobrevivi e não posso deixar de me congratular, não sem algum sentido de humor, pelo bom gosto que tive na altura. Na verdade, continuas muito desejável. A tua voz, que eu vim a conhecer em todos os seus tons, amor, fúria, paixão e tristeza, revela que me adivinhaste os pensamentos. Ou talvez tenhas também sido assaltado pelo mesmo desejo. Mas, sabes, lido bem com isso. Este desejo já não me pesa. Depois, ficamos em silêncio. Eu não sei o que dizer mais. Não tenho mais palavras, como se o alemão não fosse suficiente para nós. O problema no alemão – e em qualquer outra língua estrangeira – é que não podemos abrir a boca e deixar as palavras saírem em estado selvagem. Primeiro, temos de pensar no que vamos dizer. Depois, temos de encontrar as palavras certas e, antes de soltá-las – porque elas podem voar para lugares tão longínquos que ficam completamente fora do nosso alcance – temos de dizê-las em voz baixa para ter a certeza que são as certas. Só depois é que podemos dizê-las em voz alta, esperando que pareçam corretas. Estendes-me um copo. Brindamos e eu bebo um pouco de Sekt que me sabe a recomeços auspiciosos. Queres dançar?, perguntas-me. Olho à minha volta. Vejo corpos bamboleantes, cabeças a abanarem ao ritmo da música, prontos a mergulhar no oceano de mais um ano. Há um fogo quente no ar. Falta uma hora para a meia-noite e 2015 é já um monte de cinzas. Com os ouvidos cheios da nossa música em conjunto, dançamos até à chegada da manhã. Dois destinos separados, mas apaziguados.


27 comentários:

  1. ~~~
    Muito interessante, Smile.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ~ Bom fim de semana. ~
    ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

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    1. Bem-vinda, Majo!
      Apenas revisitações e revisões de significados.

      Um beijinho e bom fim de semana :)

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  2. Encontros que são desencontros.

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    1. Já foi um desencontro, um dia. Agora, foi apenas um reencontro.

      Um beijinho, Benó :)

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  3. Renascer das cinzas...
    Happy New Year Miss Fénix Smile :)
    Beijinho dos grandes

    https://www.youtube.com/watch?v=3Uo0JAUWijM

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    1. “Sometimes I see
      How the brave new world arrives
      And I see how it thrives
      In the ashes of our lives”

      Querida Té, todos os dias renascemos um pouco das cinzas. Gostei do epíteto Miss Fénix Smile :)

      Beijinhos XXL :)

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  4. "O mundo talvez esteja fora do mundo, aí nos encontramos.
    Dispomos os pertences, esperamos tranquilidade,
    a nossa viuvez que se esconde no seu negrume.
    A casa está no entanto assombrada,
    como se isso importasse. O fantasma sou apenas
    eu quem o vejo e ouço, menos medo que altercações,
    com o soalho que estala nas noites ou as vagas assustadiças.
    Com o tempo o intruso, que é também o dono antigo,
    é apenas mais um de nós, mais um fantasma apaixonado.
    Um fantasma com piedade, que não nos expulsa
    mas que vai ditando, com todas as letras, a sua narrativa,
    feita nossa, e que talvez, como um espectro, nos salve."

    Pedro Mexia/ The Ghost and Mrs Muir

    Um beijinho chuvoso, querida Miss Muir :)

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    1. É verdade que há reencontros que não se fazem apenas a dois, assombrados que são por um fantasma. Só não sabemos se é o nosso, se o do outro. Nunca sabemos ao certo. Talvez sejam os dois, ainda enlaçados no encanto dos dias antigos, pois diz-se que os fantasmas ficam eternamente apaixonados. Ou talvez seja apenas a benevolência da nossa memória piedosa. Nunca saberemos, aqui no mundo dentro do mundo onde vivemos.

      Um beijinho, querida Miss Capitão :)

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  5. texto cheio de personalidade, e um coração sereno num mar de antigas tempestades.
    revisitações e memórias tranquilas...
    Um beijinho, Miss Smile.

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    1. Já me disseram que sou uma pessoa escandalosamente serena. Tomo-o como um elogio :)

      Um beijinho, Mia

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  6. Ao contrário do provérbio, muitas vezes num reencontro, constatamos que: longe da vista, perto do coração.
    Gostei deste seu novo registo :)
    Beijinho

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    1. (…)
      “astros cruzam-se numa velocidade que apavora
      inamovíveis glaciares por fim se deslocam
      e na única forma que tem de acompanhar-te
      o meu coração bate”

      José Tolentino Mendonça / A estrada branca

      Embora possa já não palpitar desenfreadamente como noutros tempos, o meu coração continua a bater por todas as pessoas que fizeram parte da minha vida. As relações terminam, as coisas resolvem-se e a vida continua, mas não me esqueço nunca que trago comigo pedaços de outras pessoas. Continuar a sentir carinho por elas é também uma forma de continuar a gostar de mim.

      Um beijinho, Paulo :)

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  7. Admiro a tranquilidade com que esta história é contada.
    Apreciei particularmente a cadência do discurso e o registo utilizado.
    Bom fim-de-semana.
    Beijo, Miss Smile

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    1. O tempo ajuda a aplanar emoções e a amaciar turbulências. Conseguimos a tranquilidade perdoando e recomeçando sem ressentimentos. Nem sempre é fácil e leva o seu tempo, mas é possível.

      Um beijinho, Isabel

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  8. Há reencontros que continuarão a mexer connosco independentemente de sabermos que não passarão disso. O tempo até pode parar durante uns escassos minutos ou horas mas de volta à nossa vida, sabemos que estão devidamente arrumados.
    Bom fim de semana, Miss Smile.

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    1. Análise certeira, Ava Pain. Há cinzas que se reacendem por breves momentos para, depois, serem novamente levadas pelo vento. Sem mágoas.

      Um beijinho e bom fim de semana

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  9. Nada como saber viver os reencontros com o coração sem perder a razão.

    Beijos, Miss Smile, e um dia feliz. :)

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    1. E razão rima com coração:)

      Um beijinho, Maria, e um bom fim de semana

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  10. E então? Como ficou?
    Reencontro tão auspicioso espero que tenha sido inesquecível.
    Bjs

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    1. Foi inesquecível, mas não convulsível :)

      Um beijinho, Papoila

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    2. :))) Ficou tudo bem é o que interessa!
      bjs

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  11. Ainda bem, deduzo, que não dançaram ao som duma música alemã. :)
    Uma excelente prosa, algo a que me vou habituando com deveras satisfação.

    Um beijinho :)

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    1. No contexto em que me encontrava, claro que tinha de haver música alemã. Mas era perfeitamente dançável, asseguro-lhe :)

      Um beijinho, AC, e obrigada pela generosidade das suas palavras

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  12. Um reencontro contado na primeira pessoa, um passado bem resolvido, um presente inesperado? Coração rima com razão. Como sempre, gostei. Beijinho MS

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    1. Passeio muitas vezes de mão dada com o coração, mas levo a cabeça sempre comigo :)

      Um beijinho, GM

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  13. desconfio que se perde muito nas traduções, mas às vezes é uma bênção :D

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    1. Traduzir é escrever de novo. E porque é difícil manter tudo intacto, é isso que a memória faz com os nossos punhados de vida.

      Um beijinho, Manelito, e obrigada

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