domingo, 10 de janeiro de 2016

Ouvi dizer



Eu vi o meu choupo descer à água,
vi como o seu braço mergulhava na profundeza,
vi as suas raízes viradas para o céu, implorando pela noite.

Paul Celan / Ouvi dizer


Marcámos encontro num desses bares de cores berrantes e música alta, muito apreciado por estudantes. Assim que os meus olhos se habituam à penumbra, constato que o local se mantém igual, indiferente aos tempos, às modas e às novas gerações de estudantes que por ali passam. Numa mesa, junto à janela, K. acena-me com prontidão. Cheguei cedo, mas, mesmo assim, depois. Não consigo bater a sua pontualidade germânica, imperturbável perante os contratempos do dia-a-dia. Cumprimenta-me, tentando infundir alguma espontaneidade na voz e encobrir o nervosismo causado pelo hiato de tempo que nos afastou. Não posso dizer que tenha mudado muito. Com exceção das finas linhas de expressão à volta dos olhos, continua o mesmo. O cabelo sempre alinhado, agora, pontilhado de fios brancos, os olhos escuros e perspicazes atrás dos óculos de aros redondos, o rosto macilento, as mãos compridas e irrequietas. Mantém o mesmo gosto por camisolas de gola alta, o que lhe dá um certo ar démodé de representante do existencialismo. Depois de satisfeita a curiosidade das primeiras perguntas, ficamos sentados num silêncio algo embaraçado. Agora, reflito no que me levou a ligar-lhe para nos encontrarmos. Fomos colegas no mesmo departamento da universidade. Simpatizava com a sua timidez, os seus gestos abafados e contidos, a sua permanente disponibilidade em partilhar bibliografia. Era um bom colega. Respeitador, prestável, delicado. E enquanto enumero mentalmente as suas qualidades, ele dá-me a notícia, inesperada e abruptamente. Uma notícia destas é sempre brusca. O professor I. morreu. Suicidou-se. O sorriso esmorece-me no rosto. Controlo-me para não tropeçar em todas as perguntas que me ocorrem. Mas como? Porquê? Eu sei que o sofrimento é, muitas vezes, mudo e inexplicável, mas, mesmo assim, não consigo deixar de perguntar, de indagar. Preciso de compreender. K. pousa os olhos na chávena que tem à sua frente. Parece observar o vapor a sair do café quente. Não se sabe ao certo, responde-me, finalmente. O professor não deixara uma carta de despedida. Reformara-se há anos atrás, curara-se de um cancro, enterrara a mulher, escrevera mais um livro e, ouvia-se dizer, vivera um caso com uma aluna que, entretanto, o deixara. É o que se ouve dizer, sublinha. As pessoas especulam, falam, cavam, na sua qualidade de devotos arqueólogos da vida alheia. Mas eu compreendo-as. É compreensível querer impor um sentido a algo absolutamente incompreensível. Tento recompor-me. K. continua a olhar para a sua chávena de café, agora, vazia e fria. Lá fora, o sol, velado por nuvens, incide sobre os cabelos claros dos jovens que ocupam as mesas da esplanada. Uma jovem de cabelo azul e mochila às costas estaciona a bicicleta. Curva-se agilmente e prende a bicicleta a um poste com um cadeado. Sorrindo, entra no bar. Reconhece o K. e dirige-se à nossa mesa. É uma aluna que lhe pede para adiar a entrega de um trabalho. Bebo o chá que, entretanto, arrefeceu e aproveito a oportunidade para me despedir. Preciso de apanhar ar. Enquanto caminho na zona pedonal, por entre pessoas de rostos macambúzios, cansados ou indiferentes, penso no professor I. e na sua devoção pela poesia de Paul Celan. Paul Celan que sobreviveu a tanta coisa, que sobreviveu ao Mal absoluto, ao holocausto dos Judeus para, passados anos, numa noite sem luar, procurar a morte nas águas escuras do Sena. Também o professor I., um homem enérgico que, com a sua paixão pela literatura, enchia anfiteatros com centenas de alunos, resistira a uma doença penosa, que quase o levara, à morte da mulher, de quem era muito chegado, e a tantos outros atropelos que a vida nos prepara, mas que a nossa dignidade cala. E, agora, deixara-se derrotar por uma deceção sentimental, como um aluno de liceu? Ou será que esta infelicidade amorosa servira apenas de impulso final, de uma espécie de grande nada de que precisava para pôr fim a um cansaço insuportável? Não consigo deixar de pensar nele. É como se tentasse terminar o seu retrato com traços vacilantes. Mas não serão todas as vidas, independentemente da forma como terminam, uma pintura sempre inacabada?


36 comentários:

  1. é o direito de partir mais cedo, Miss, e a necessidade de entender, de quem fica, como se viver seja mais natural do que morrer...
    bom domingo :)
    (eu entendo, se entendo...)

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    1. Querida ana, eu não julgo, mas, e será certamente uma limitação da minha parte, não sei se consigo entender.

      Um beijinho

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    2. demorei vinte anos a aceitar :)
      beijinho

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    3. Querida ana, e ainda bem que aceitou. A reconciliação é libertadora.

      Um abraço apertado :)

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  2. Aquilo a que se costuma chamar a gota de água? Pode ser a falência, a derrota ou a doença, pode ser uma grande perda, mas há sempre um detonador, que só é incompreensível aos olhos de quem não o vive.
    Excelente texto, minha querida. Como sempre.
    Um grande beijinho e um domingo feliz.
    :)

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    1. Sim, o sofrimento – físico ou emocional – pode ser sentido como um fardo demasiado pesado e angustiante, que é sempre incompreensível para quem está de fora. A decisão de pôr um fim voluntário à vida ocorre normalmente na orla do silêncio.

      Um beijinho, Blue

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  3. It's the last straw that breaks the camel's back.

    ( é a última gota que faz transbordar o cálice )

    Bom domingo, Miss Smile.

    Beijinhos

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    1. Será certamente uma concentração e uma sobreposição de razões e desesperos.

      Um beijinho, Ava Pain

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  4. «Com o vento pelas costas morro e apago-me na grande monção - é então que verdadeiramente vivo.»

    Do livro/espólio: A Morte É Uma Flor

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    1. "A morte é uma flor que só abre uma vez.
      Mas quando abre, nada se abre com ela.
      Abre sempre que quer, e fora de estação."
      (...)

      Paul Celan / A morte, in A Morte É Uma Flor

      Um beijinho, flor

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  5. A morte pode ser encarada como uma libertação. Cansaço infinito da vida leva à busca do seu fim.

    Um abraço apertado, Miss Smile. :)

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    1. O cansaço da vida poderá levar a escolher meios indiretos e inconscientes ou meios diretos e conscientes.

      Um abraço apertado, Maria

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  6. Talvez seja apenas o cansaço de quem já viveu muito e não espera já nada da vida. Esse cansaço, de viver, não é exclusivo de pessoas mais idosas, assim como a vontade de viver não o é de jovens.

    Não podemos saber a razão de cada um.

    Um beijinho e continuação de bom domingo:)

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    1. Talvez mais do que um insuportável cansaço seja uma irremediável perda de sentido da vida.

      Um beijinho, Isabel

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  7. A forma como alguém morre não pode ser a sua definição. A sua vida, os seus atos, as suas decisões dizem-nos muito mais. Nunca podemos dizer que conhecemos bem alguém, as pessoas são sempre pinturas inacabadas. Mesmo depois de partirem, podemos ainda (tentar) decifrar algumas pinceladas.


    Um beijo, Mis Smile.



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    1. A vida dos outros é quase sempre opaca para a nossa compreensão. Só quem escolhe um fim assim saberá fornecer justificações para a sua morte. Mas concordo que a forma como se morre não pode servir de definição para a forma como se viveu. Seria demasiado redutor.

      Um beijinho, Miss Me

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  8. É tão difícil avaliar ou tentar perceber o estado emocional de alguém que por opção atenta contra a sua própria vida!
    Admito que é depreendo que o professor terá tido uma vida rica e bem preenchida. Talvez ainda tivesse muito para dar ao mundo, mas se calhar achou que o mundo já nada tinha para lhe dar.
    Fica um beijo e um abraço solidário.

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    1. Acreditar que já não se tem nada para dar ao mundo é uma irremediável falta de esperança.

      Um beijinho, Sandra

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  9. Ás vezes penso que gostaria de morrer naquele instante, quando tudo se conjuga harmoniosamente, a vida parece perfeita, a Natureza em conjugação com os meus sentimentos. Se não tivesse mais ninguém na vida, penso que não me importaria de morrer em qualquer altura feliz. O desgosto dos outros é que não me perdoaria....

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    1. Talvez isso seja o que se designa por uma “morte bonita” ou uma “morte santa”. Há quem a deseje enquanto dorme, faz amor, escuta um concerto… Mas penso que, nessas circunstâncias, a morte nunca será voluntária.

      Um beijinho, Virginia

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  10. Querida Miss Smile:
    Mais um texto envolvente e sensível, cujo tema eu respeito e até compreendo mas que me causa desconforto.

    Um beijinho e boa semana

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    1. É um tema tabu e difícil, mas real. Segundo um relatório da OMS, o suicídio é a 14ª causa de morte mundial, correspondendo a respetiva taxa a um suicídio a cada 40 segundos.

      Um beijinho, querida Fê

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  11. A escolha da morte é, para mim, sempre algo de muito perturbador.

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    1. Para mim também, luisa. Custa-me ver a vítima e o agressor na mesma pessoa.

      Um beijinho

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  12. ~~~
    ~ Muito interessante o seu relato e a reflexão sobre
    o suicídio..
    É difícil entender, mas de uma coisa temos a certeza,
    são atos de gente desesperada, porém, corajosa.

    ~ Uma semana ótima e muito risonha. ~

    ~~~ Beijinho, Smile. ~~~~~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. O desespero será insuportável, mas não sei se, nestes casos, utilizaria o adjetivo “corajoso”. Não sei. Existem tantas motivações quanto o número de pessoas que decidem partir.

      Um beijinho, Majo

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  13. Eu compreendo, mas fico sempre com esta interrogação se foi um acto de loucura ou um acto premeditado pois triste é pensar que a pessoa se arrepende e já não pode voltar a trás.
    Que fique em paz. Foi a sua escolha, foi a saída...é triste para quem fica. bjs

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    1. Penso que os vínculos sociais, familiares e afetivos devem de estar “desligados” nesse momento. Um fim assim é sempre demasiado trágico para quem fica. É insuportável. E sei do que falo. Conheço várias pessoas que passaram por isso e que, a cada novo dia, se vestem de culpa.

      Um beijinho, Papoila

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  14. Acima de tudo é um ato de desespero, a conjugação de vários fatores que unidos se traduzem numa vontade louca de fugir para sempre... Tão triste saber de alguém assim tão desesperado aesse ponto.. Beijinho

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    1. Às vezes, penso que, na verdade, as pessoas não querem morrer, mas apenas pôr fim a uma situação de desespero.

      Um beijinho, GM

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  15. Essas decisões, que todos pretendemos perceber, são muitas vezes pura e simplesmente inexplicáveis.
    Beijinhos, boa semana

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    1. O suicídio é sempre imperscrutável para quem está de fora. Mas, ainda assim, queremos tentar entender.

      Um beijinho, Pedro

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  16. "O pensamento do suicídio é um forte consolo: com ele atravessamos mais do que uma má noite."
    Nietzsche

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    1. “Não restará na noite uma só estrela.
      Não restará a noite.
      Morrerei e comigo irá a soma
      Do intolerável universo.
      Apagarei medalhas e pirâmides,
      Os continentes e os rostos.
      Apagarei a acumulação do passado.
      Farei da história pó, do pó o pó.
      Estou a olhar o último poente.
      Oiço o último pássaro.
      Lego o nada a ninguém.”

      Jorge Luis Borges / O suicida

      Um beijinho, Teresa

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  17. Sinto muito pelo seu amigo Miss Smile.
    Quando sei que alguém que eu conheço se poderá ter suicidado o que penso é se poderia ter feito alguma coisa para o impedir.
    um beijinho
    Gábi

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    1. É esse pensamento que persegue eternamente quem fica.

      Um beijinho, Gábi, e obrigada

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