domingo, 17 de janeiro de 2016

“Vem ajudar-me a construir uma casa”



Quando era muito pequena ainda, lembro-me de, às vezes, a minha mãe ficar diferente. Era como se qualquer coisa a abandonasse, um certo alento, uma certa convicção. Ficava longe do presente. Longe de mim. O seu olhar escurecia como nuvens de chumbo e a minha mãe mergulhava num mundo silencioso e submarino. Parecia um peixe que dormitava em águas profundas. E as suas mãos paradas eram peneiras através das quais se escoava o desejo de viver. A minha mãe ficava triste, de uma tristeza tão grande que eu podia afogar-me nela. A sua tristeza tocava-me a pele. Mas eu enxotava-a com as mãos para ficar a vê-la flutuar levemente na poeira dourada dos raios de sol que entravam pela janela. Nesses momentos, fazia uma promessa para mim mesma. De amanhã em diante, iria ser obediente, iria portar-me melhor. Depois, abraçava a minha mãe, acariciava-lhe os cabelos claros, beijava-lhe o pescoço frágil, que cheirava a mãe, e, de ar suplicante, estendia-lhe a mão, puxava-lhe a saia, como querendo arrancá-la ao desgosto, mãe, aperte-me os atacadores, mãe, leia-me esta história, mãe, quero lanchar. Outras vezes, eram as minhas palhaçadas e as minhas gargalhadas roufenhas que devolviam a minha mãe ao presente. E ela ria-se com a boca, mas nos seus olhos cor de avelã eu via uma auréola de dor. Na altura, eu de nada sabia. Os adultos eram para mim janelas altas, de vidros baços, que eu não conseguia alcançar. E eu não sabia que a minha mãe, por vezes, via apenas uma estreita faixa de céu sem cor.
Muitos anos mais tarde, li uma entrevista com o Abbé Pierre, fundador da Comunidade Emaús. Nessa entrevista, ele contava que, um dia, o chamaram por causa de um homem que passara 20 anos na prisão por homicídio. Aquando da sua libertação, esse homem descobrira que a sua mulher vivia com outro homem, de quem tivera, entretanto, filhos. Desesperado e sem perspetivas de futuro, tentou suicidar-se. Falando com ele, o Abbé Pierre não o criticou, nem tentou demovê-lo do seu intuito. Pediu-lhe apenas que, antes de se matar, o ajudasse a construir uma casa para as mães sem-abrigo. E assim foi. George Legaey não só ajudou, como se veio a tornar num dos principais apoiantes dos projetos do Abbé Pierre. Ao sentir-se útil, este homem conseguiu também reconstruir alguma coisa que estava quebrada dentro de si. Depois de ter lido a entrevista, pensei que talvez tenha sido isso que fiz com a minha mãe, como que lhe dizendo - mãe, antes de ficar triste, venha-me ajudar. Hoje, sei que, mesmo sem o saber, na altura, ajudei a salvar a minha mãe.