terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

brincávamos a cair nos braços um do outro




brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as atrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade

Valter Hugo Mãe / brincávamos a cair nos braços um do outro



27 comentários:

  1. Lindo.
    Adorei o filme Pina Bausch, ainda hoje me maravilha.
    Veja este video do programa So you think you can dance. É um hino aos corpos que se deixam cair um no outro, com a certeza de que é ali que tem de estar.
    https://youtu.be/khvcCpoFszM

    bjinhos

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    1. O filme é maravilhoso, de uma beleza intensa. Gostei da subtileza de Wim Wenders que não fez o filme sobre Pina Bausch (na verdade, seria mais um entre tantos), mas um filme para Pina Bausch.
      Gostei muito do vídeo que me sugeriu. Movimentos muito sensuais e emotivos. Obrigada :)

      Um beijinho, Virginia

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  2. Num quase desabafo o depoimento de quem experimentou a queda do amor sustentado pelo próprio corpo.
    Cadinho RoCo

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    1. Sim, a repetição dos abraços e dos braços que não sustentam o corpo do outro pode servir de metáfora ao automatismo dos gestos quotidianos, por vezes, fracos de sentimento e de sentido, aos desencontros, à ausência de profundidade nas relações amorosas. Pode ser a inevitável distância, o tempo vazio a que nem o Marlon Brando / Walter do poema conseguiu escapar. “Amar é afeiçoar o corpo ao perigo” - amar pode ser um encontro com desencontros, pode ser um exercício perigoso. Pode-se partir a cabeça, uma perna e, mesmo quando o amor é correspondido, parte-se sempre um bocadinho do coração. Mas, mesmo assim, não passamos sem ele.

      Um abraço, Cadinho RoCo

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  3. ai Miss... acho que te vou roubar....

    beijo*

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    1. Oh, Ana, entras aqui pelo Salão a dentro com esses modos de olhar e brindas-me com esse olhar doce e suplicante à La Gato das Botas (https://www.youtube.com/watch?v=AzeD_2yZV58) ao qual eu não consigo dizer não. Leva, leva, leva tudo. Se quiseres, leva também a fronha de croché e as laranjas. Depois, volta cá para levares também a vizinha :)

      Um beijinho, miúdas das botas :)

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    2. dispenso a vizinha, estou muito bem com a minha, de resto levo tudo, almofada, laranjas, poemas, filmes, músicas, textos, lições, sorrisos e até com as lágrimas eu fico.
      beijinho e grata pelas botas :)

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  4. Gostei imenso da escolha!
    Beijinhos

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    1. Eu também gostei de cá ter a Pina e o Walter :)

      Bem-vinda, Chic'Ana!

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  5. ~~~
    ~ Um poema divertido e belíssimo!

    Tal como as admiráveis coreografias

    de Pina Bausch, é quase uma história!

    Neste caso, de um inesquecível amor...

    Gostei de admirar o talento de whugo

    neste poema de 2010...

    ~~ Beijinhos, Smile.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Querida Majo, já que gostou dos meus dois convidados, trago-lhe aqui um terceiro, também de peso:

      https://www.youtube.com/watch?v=T1Gu1yS2_QU

      “Quem já passou por essa vida e não viveu,
      Pode ser mais mas sabe menos do que eu.
      Porque a vida só se dá pra quem se deu,
      Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.

      Quem nunca curtiu uma paixão
      Nunca vai ter nada, não.

      Não há mal pior do que a descrença,
      Mesmo o amor que não compensa
      É melhor que a solidão.

      Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair.
      Pra que somar se a gente pode dividir.
      Eu francamente já não quero nem saber
      De quem não vai porque tem medo de sofrer.

      Ai de quem não rasga o coração,
      Esse não vai ter perdão.
      Quem nunca curtiu uma paixão,
      Nunca vai ter nada, não..”

      Vinícius de Moraes e Toquinho, Como dizia o Poeta


      Um beijinho

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    2. ~~~
      ~ Vinicius foi um incansável cultor da paixão...
      Permanentemente aquecido pelos voláteis de Baco.

      ~ Ou não tivesse ele casado nove (9) vezes...

      Vale a pena procurar no Google,
      ~ 'as nove mulheres de vinicius'

      ~~~ Beijinhos sorridentes. ~~~

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    3. Li que a última mulher de Vinicius era 40 anos mais nova do que ele. Como era óbvio que ele seria o primeiro a partir, ele apresentava-a dizendo "Esta é minha viúva” :)

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    4. ~~~
      Muito grata pelo poema, querida amiga.

      O «poetinha» deixou-nos algumas pérolas belíssimas.

      ~~~ Abraço grande. ~~~

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  6. Miss Smile, que escolha feliz.
    Chegar a casa e ler de corridinha tão belas palavras...
    Um beijinho,
    Mia

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    1. O poema é lindíssimo, de uma candura desconcertante.
      Ainda bem que gostou :)

      Um beijinho, Mia

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  7. Querida Miss Smile, juntar o talento e a sensibilidade de Pina Bausch com a poesia sublime de Valter Hugo Mãe deixa-me sem palavras.
    Este seu poema é de uma intensidade de cortar a respiração, tal como o amor não é verdade ?!

    Obrigada por este momento minha amiga!
    Um beijinho

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    1. O amor arrebata-nos e rouba-nos as palavras. Conseguir descrevê-lo desta forma é sublime. Em Pina Bausch, os movimentos que se repetem até à exaustão criam uma sensação de abstração que nos leva a refletir sobre o desejo de encontro e de amor.

      Um beijinho, querida Fê

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  8. Gostei - do vídeo e do poema.

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  9. Quando, um dia, os braços não se abrem, estatelamo-nos, desamparados, no chão.

    Beijos, Miss Smile, e uma tarde feliz :)

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    1. Sem dúvida, Maria, estatelamo-nos, desamparados, no chão.

      Um beijinho e um dia feliz :)

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