domingo, 13 de março de 2016

A corda invisível




Sally Gall

A filha não comia como deve de ser. Andava nervosa e ansiosa e fugia às perguntas da mãe. Na escola, andava alguém a fazer-lhe mal? Deixavam-na de fora nos jogos? A tudo a criança respondia que não, abanando a cabeça com o olhar sempre pregado ao chão. A mãe, porém, sentia que algo se estava a passar. No seu coração de mãe, a angústia envolvia-a como um nevoeiro. Abraçava a filha, beijava-lhe as faces aveludadas, mas havia algo que lhe escorregava dos braços. Cada vez mais preocupada, foi à escola para abordar a questão com a professora. Esta garantiu que nada se passava e que se estava a preocupar sem necessidade. As crianças passavam por fases que os adultos nem sempre sabiam interpretar. A mãe voltou para casa mais descansada. No entanto, sempre que tentava olhar a filha por dentro, embatia num muro intransponível. Numa noite, quando foi ao quarto da filha para lhe dar um beijo de boas-noites, encontrou-a num sal de lágrimas. Receando que a criança se retraísse, conteve todas as perguntas, limitando-se a abraçá-la, com o coração pesado como chumbo. Permaneceu imóvel, apenas sentindo aquele corpo macio de passarinho ferido a tremer-lhe nos braços. Para não chorar também, começou a pronunciar, de lábios fechados e em silêncio, o nome da filha. Repetiu o seu nome vezes sem fim para não enlouquecer de impotência. Por fim, na interminável quietude daquele abraço, a filha, depois de verter a última lágrima, contou-lhe tudo. Andava a ser perseguida por um rapaz da turma que lhe chamava nomes e a humilhava em frente dos outros colegas, tendo conseguido influenciar algumas raparigas para não brincarem mais com ela. Inventava histórias sobre ela e roubava-lhe o lanche. Prometendo que tudo se iria resolver, a mãe acalmou-a, conseguindo que adormecesse. Na manhã seguinte, depois de levar a filha à escola e marcar uma reunião urgente com a professora, cruza-se, na rua, com a mãe do rapaz, que a aborda cordialmente. Sem se conter, começa a desenrolar os dramas dos últimos dias. A mãe do rapaz ouve-a com um olhar silencioso. Com o rosto cada vez mais vermelho, como que consumido por um fogo mordente e lento, pede-lhe humildemente desculpa e pergunta se será possível prosseguirem com a conversa no fim das aulas, na presença dos respetivos filhos. E assim acontece. Mais tarde, no portão da escola, a mãe, com o rapaz pela mão, sugere o pequeno café, que se situa a poucos metros da escola, para conversarem. Sentadas a uma mesa junto à janela, a mãe da rapariga e esta relatam os acontecimentos. O rapaz ouve de cabeça baixa, ombros encolhidos e mãos irrequietas. A mãe é um destroço. Os olhos claros, rasos de lágrimas, já não conseguem ver o mundo com a mesma transparência. Sofre pela menina que passou por todas aquelas humilhações e pela mãe desta, sofre pelo filho e sofre por ela. Nunca pensou que o filho fosse capaz de tais comportamentos. O filho começa a torcer as mãos, cada vez mais nervoso. Ver a mãe naquele estado fá-lo ter consciência do mal que fez. Nunca imaginou que as coisas tomassem estas proporções. Nunca imaginou que o que fizera fosse tão grave. Era uma brincadeira que o fazia sentir-se poderoso e popular. Agora, era como uma tempestade no mar que se deslocava para terra, para a sua casa, para a sua família. Tentando manter a voz firme, pede desculpa à rapariga e à mãe desta, prometendo que não voltará a comportar-se dessa maneira. A mãe continua inconsolável perante aquele inesperado náufrago no seu mar tão sonhado. Às vezes, é tão difícil dar sentido às coisas, desabafa. A mãe da rapariga não diz nada. A empatia é uma corda que se nos enrola no coração e nos puxa. Por isso, levanta-se e abraça a mãe do rapaz. E é nesse momento que o rapaz, ao ver as duas mães abraçadas, não consegue, ele também, reprimir as lágrimas, deixando-se enrolar pela mesma corda que o salva.


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