segunda-feira, 30 de maio de 2016

Fazer de um passo em falso um passo de dança



O meu filho e mais dois colegas foram repreendidos por um professor por estarem a ter um comportamento menos próprio na sala de aula. Não sendo um desvio grave, é um comportamento que exige uma conversa, uma chamada de atenção, um repensar de atitudes. Quando lhe pedi explicações sobre o sucedido, respondeu-me, qual personagem shakespeariana apanhada num enredo que não compreende: Mãe, eu não fui o único! Tive foi azar! Houve outros que não foram apanhados. Claro que com os filhos dos outros posso eu bem, aliás, aposto que, à distância, sou até capaz de os educar melhor do que os próprios pais, já com os meus… a tarefa afigura-se mais difícil!
Bom, perante a leve névoa mental do meu rapaz no que concerne às suas responsabilidades, pedi-lhe que se sentasse. E ele sabe que quando conversamos sentados o assunto é mais sério. Passados alguns dias, encontrei, por acaso, a mãe de um colega do meu filho, que faz também parte do referido grupo dos “prevaricadores azarentos”. Num tom sério, que me surpreendeu, esta mãe soltou o desabafo: Coitados! Os nossos filhos tiveram azar em ter sido apanhados! 
Pois, eu penso de uma forma diferente. Não se trata de uma questão de sorte. O certo e o errado não podem resumir-se a um mero jogo da sorte. Somos sempre responsáveis pelos nossos atos e pelo efeito que estes têm nos outros, independentemente de sermos “apanhados”, ou não. O que é importante é a nossa consciência, porque é a nós mesmos que temos de prestar contas. Para mim, o que aconteceu não foi azar. Foi uma oportunidade. Serviu para uma conversa importante, para reajustar comportamentos, para reforçar a importância de assumir a responsabilidade e as consequências dos próprios atos e escolhas. Nem sempre conseguimos acertar o passo. Todos falhamos. Mas o que importa é aprender a fazer uma dança de cada passo em falso. Para tal, temos de querer dançar bem. Podemos ser desajeitados, tropeçar, confundir o pé direito com o esquerdo, mas não podemos fingir que dançamos, sempre que julgamos que a plateia está vazia e nós somos os únicos espectadores.
Mas como isto de ser mãe também tem coisas boas, estou, agora, incumbida de coordenar os ensaios de dança do grupo do meu filho para a festa de final de ano. Confesso que quando vejo este vídeo, sou logo assaltada por um cardume de dúvidas. Seremos nós capazes de mergulhar no mesmo ritmo? De imprimir a mesma graça de movimentos ao nosso corpo? O que importa é que daremos o nosso melhor ou eu não me chame Smile :)





22 comentários:

  1. Querida Miss Smile,
    Essa cultura do "tive azar" está muito enraizada e serve para escamotear responsabilidades. Ainda não conheci quem, sendo apanhado a conduzir com álcool, não dissesse "tive azar, fui apanhado".
    Boa sorte para os ensaios.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. A cultura da desresponsabilização ou a arte da fuga é uma forma de vida, quase um desporto nacional. Com tanto azar proclamado, devemos de estar no primeiro lugar do ranking dos países mais azarados do mundo :)

      Um beijinho, querido Outro Ente

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  2. Texto tão inteligente e tão cheio de humor! Já tinha saudades de a ler, tenho andado arredada destas lides. Educar é difícil, mas penso que é uma das tarefas mais bonitas que se pode ter na vida....
    Bjinhos

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    1. Sei que tem andado afastada da blogosfera por excelentes razões :)
      Educar é uma tarefa bonita, mas complexa. Na minha opinião, educar, mais do que ensinar, é despertar consciências.

      Um beijinho, Virginia

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  3. O MEU FILHO ESCREVEU (E EU GOSTEI): "Duas vezes por ano vou a uma reunião na escola do meu filho ("estatisticamente" uma boa escola pública) onde pais e professores de cada cadeira têm a oportunidades de trocar ideias.
    Invariavelmente o foco dos professores está no comportamento disciplinar do meu puto, cheios de boas intenções passam largos minutos a “informar-me” que ele é um bom menino, está muito atento e não disturba a aula. Falam mesmo dos alunos que estão à sua volta e do tempo que perdem a mandar calar os alunos e a provocar o silêncio na sala. Depois disto falam-me das notas.
    Eu ouço estas informações que já sei há muito e pouco me interessam para este efeito (o comportamento dele na escola é o mesmo em muitos outros contextos e os professores com que tenho falado não imaginam que isso possa ser assim…) e pergunto sobre as suas capacidades e competências para a cadeira em causa, sobre se ele se está a divertir à cadeira e se o veem entusiasmado com os temas. A resposta típica é:
    - Hããã … ?!?! Ele é um bom menino e porta-se muito bem !!!"
    ................................................
    NÃO SERÁ QUE "O FOCO" DOS PROFESSORES DEVERIA SER, MAIS O RELACIONADO COM ESTA QUESTÃO, DO PRAZER E DO GOSTO QUE O ESTUDO POSSA TRANSMITIR AOS ALUNOS, E MENOS O DO COMPORTAMENTO ? ...


    Beijinhos Miss Smile

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    1. Percebo perfeitamente o que o seu filho quis dizer. Eu vou a todas as reuniões da escola dos meus filhos e também acho que a temática principal gira sempre em redor de observações, reparos e queixas relacionados com o comportamento dos alunos. À semelhança do que sucede em todas as profissões, os professores não são todos iguais. Há professores que conseguem cativar, motivar e entusiasmar a maioria dos alunos. E há outros que não têm essa capacidade, não conseguindo captar a atenção e o interesse dos alunos para a matéria lecionada. Todos tivemos professores que nos inspiraram, que nos deram asas, que recordamos com saudade, e outros, que nos enfiaram em “gaiolas” e cujo rosto esquecemos ou recordamos por razões pouco abonatórias. Ainda assim, considero que o comportamento dos alunos é importante. Se o desculparmos com a falta de habilidade de alguns professores, não estaremos a educar para a responsabilização. O respeito e o “saber estar numa sala de aula” são aprendizagens tão importantes como saber interpretar um soneto de Camões ou resolver uma equação de 1º grau. Na minha opinião, o nosso sistema educativo está desfasado da realidade e não corresponde às características específicas das novas gerações. Está longe da perfeição, assim como a sociedade e o mundo em geral. As condições de que dispomos não são ideais e, provavelmente, nunca o serão, mas não gostava que elas servissem de bode expiatório aos meus filhos para não darem o seu melhor.

      Um beijinho, Rui

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  4. Minha querida Amiga, subcrevo todas as tuas palavras. O papel de mãe é mais dificil de desempenhar. E o desculpabilizar, passando a mão pelo pelo, não é educar.
    Desejo te uns bons ensaios, deduzo que estjam a preparar a festa de final de ano.

    Agora que ninguém nos ouve. Faz parte de um crescer saudável as prevericações leves dos nossos filhos. Só assim aprendem a ser responsáveis pelos seua actos.

    Beijo enorme para ti e toda a família.


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    1. Crescer é testar e descobrir limites. Educar é mostrar que o limite é onde começa a liberdade e o respeito pelo outro. Educar é uma longa maratona que exige paciência e persistência. Nós, que educamos, também damos passos em falso, também erramos e também testamos limites. Quando educamos os nossos filhos, estamos também a educar-nos como mães ou como pais. Estamos a aprender. Por isso, não entendi este pequeno incidente como um azar, mas como uma oportunidade para mim e para o meu filho. Se não percebermos que evitar certos comportamentos menos corretos está nas nossas mãos, que interesse teremos em querer aprender com eles? Para mim, esta questão é a base da responsabilização.

      Um beijinho com amizade, querida Sandra

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  5. sabes Miss, tenho três filhos homens, tão próximos em idades e tão diferentes...
    reconheço que não tenho mão neles. tenho tido sorte.
    estás de parabéns pela mãe e educadora que és.
    beijo :)

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    1. Sabes, às vezes, penso que despertamos mais a consciência dos nossos filhos por gestos, expressões, atos e exemplos do que por palavras. Por isso, tendo em conta o que conheço de ti e a essência dos teus escritos, atrevo-me a dizer que aquilo a que tu designas de sorte deve-se sobretudo à tua postura e ao exemplo que representas para os teus filhos.
      Obrigada pelas tuas palavras generosas. Gostei de as ler, mas, acredita que, às vezes, tenho dúvidas se estarei a proceder bem. Dúvidas existenciais de mãe! :)

      Um beijinho, ana :)

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  6. Não gostaria de fazer um juízo demasiado severo sobre esse tipo de comportamento dos garotos que, tendo consciência de que as acções que praticam são "travessuras proibidas", não deixam de as praticar a coberto do facto de não serem vistos ou apanhados em flagrante.
    Penso ser de suma importância incutir na criança o sentido do certo e errado, independentemente de serem 'apanhados' ou não.
    Será que os pais que fecham os olhos a esse tipo de comportamento dos filhos, não estarão a ser 'cúmplices'?
    Não começará por aí o comportamento futuro de atirar a pedra e esconder a mão?
    Peço desculpa por usar tantas frases feitas, mas foi a forma que encontrei de expôr o que penso.
    Sempre tentei que os meus filhos fossem responsáveis e responsabilizados, pelos actos que praticavam e nunca me arrependi disso.

    Já o meu neto, quando era criança e vinha passar as férias escolares comigo, nos nossos jogos de cartas - que ele adorava - sempre que tinha oportunidade fazia batota para me ganhar. Quando descobri a marosca, bem que lhe tentei transmitir a ideia que essas vitórias eram imerecidas e me espantava como poderia ele sentir alegria com isso. Sorria, creio que se fingia compungido, mas sempre que podia lá estava ele a fazer o mesmo.
    O pior é que as gargalhadas que ele soltava me faziam crer que, na sua ideia, conseguir ganhar 'trapaceando', sem que eu soubesse, eram mais importantes do que ganhar com lisura.

    Peço-lhe desculpa, Miss Smile, mas ocorreu-me isto e deixei-me empolgar. Talvez porque, ainda hoje, isso seja uma preocupação para mim. Saber até que ponto o meu neto terá entendido a diferença...

    Um beijinho e boa semana. :)

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    1. Não nos podemos esquecer que o caráter das crianças está em formação. Aprender o certo e o errado nas diferentes circunstâncias da vida é um trabalho longo, nem sempre linear. É um trabalho para uma vida. É por isso que, às vezes, me choca a forma como se rotula as crianças, como se elas fossem seres acabados e terminados, quando nem nós, adultos, o somos. Quando as crianças são apelidadas de “preguiçosas”, “trapalhonas”, whatever, por pais e educadores, elas tornam-se naquilo que ouvem.
      Tenho uma amiga que é professora de Ed. Física e que, no Desporto Escolar, leva sempre as equipas que treina à vitória. Ela diz que o “segredo” está na forma como ela vê os alunos, na forma como ela acredita nas suas capacidades. Ela acredita que eles são bons. E eles tornam-se ainda melhores.
      O seu neto entendeu certamente a diferença, embora possa não o ter demonstrado no momento. As crianças recorrem muitas vezes ao riso para disfarçar a vergonha e o embaraço.

      Um beijinho, Janita

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  7. Miss Smile, não me alongar em discursos sobre o certo o errado e valores que existem e se perderam. Tudo isso, está aqui muito bem fundamentado. A única coisa que me apraz dizer, é que chegámos a uma situação que há tanta necessidade de uma escola para crianças e jovens, como para os pais, principalmente para aqueles que perderam a noção do papel que desempenham. A Escola não pode ser o bide expiatório para tudo o que acontece. Ouvi eu num restaurante, de uma mãe para o filho: " senta-te direito. É isso que te ensinam na escola?"
    Boa semana.
    Um beijinho,
    Mia

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    1. A escola não pode servir de bode expiatório para tudo, da mesma forma que os pais não podem servir de bode expiatório para a escola. Infelizmente, nos últimos tempos assistimos a ambas as tendências. Nem a escola nem os pais se podem demitir das suas responsabilidades. Mas eu compreendo perfeitamente o que escreve, pois constato isso diariamente. Nem preciso de dar mais exemplos para além daquele que referi no post. A questão é que educar dá trabalho. E há pais que continuam empenhados em ser os melhores amigos dos filhos: a escola que faça o trabalho ingrato…

      Um beijinho, Mia

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  8. ~~~
    É preciso estarmos atentos e aproveitar bem todas as oportunidades de corrigir desvios, mesmo que pequenos.

    O caso que citaste, coloca os que foram admoestados
    em grande vantagem relacionada com os que não foram
    apanhados e, mesmo, em relação aos que não participaram
    no delito, pois foi uma grande oportunidade de ensino.

    O vídeo é comovente! Oxalá estes exímios dançarinos
    possam a vir a fazer algo para amparar as crianças do
    seu bairro.

    Muita sorte com a os ensaios de dança que, seguramente,
    será um sucesso.

    ~~~ Beijinhos, querida amiga.~~~

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    1. Eu também sou da mesma opinião. Se encararmos os erros como oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento, estou crente que aprenderemos também a acertar melhor. Afinal de contas, somos uma construção dinâmica de erros e acertos. E se tivermos consciência disso, tanto mais poderemos aprender.

      Um beijinho, querida Majo

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  9. Concordo em absoluto contigo e com a Janita.
    Há que ensinar e esperar que com o tempo tudo entre nos "eixos"...
    Ter ou não ter caracter faz toda a diferença :)
    Beijinhos e boa sorte a todos, mães, pais e filhos!!!

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    1. A construção do caráter precisa de tempo, empenho e responsabilidade. Faz-se de avanços e recuos, de desafios. Saber adaptar o caráter às diferentes circunstâncias, é uma aprendizagem que dura o tempo de uma vida.

      Um beijinho, Papoila

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  10. Pois não é fácil ser mãe e educadora mas desculpar azares não é de todo uma boa opção. Bom, desculpar desculpamos e alguns nem são graves mas não podemos deixar de chamar-lhes a atenção e falar sobre o assunto não é assim? Beijinho

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    1. Precisamente. Orientar, acompanhar, dialogar e chamar a atenção, mais do que castigar, é a nossa função de pais e educadores. Todas as situações podem servir de pretexto para despertar consciências.

      Um beijinho, GM

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  11. Essa da sorte e do azar também não me convence minimamente.
    Um óptima maneira de desresponsabilizar as crianças e de os deseducar.
    Beijinhos

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    1. Mas é uma desculpa muito recorrente na nossa cultura. Há adultos que a dominam com mestria e que, deste modo, incutem nos mais novos a ideia de que a vida é uma roleta russa e que nós mais não somos do que vítimas dessa poderosa “maquinaria” que não controlamos.

      Um beijinho, Pedro

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