domingo, 1 de maio de 2016

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!*



Quando estou perto da minha mãe, aqueço-me na luz que jorra à sua volta. A minha mãe desperta em mim uma ternura que me escorre pelo corpo, como mel quente. É como se tivesse sob os pés descalços uma alcatifa macia na qual me posso enterrar até aos tornozelos. E eu, que sempre desejei a perfeição, descobri ainda a tempo, que a perfeição está na fragilidade humana. A minha mãe é frágil. E eu nunca me importei de ter sido, também, um bocadinho mãe dela. Gosto de a ouvir contar as histórias da família, que me fazem recordar as histórias que me contava antes de adormecer. Ouço a sua voz dourada, o seu respirar lento, o ritmo do seu sangue que conheço de cor, porque é também meu. Gosto de me agarrar ao sorriso que há na sua voz quando recorda as suas peripécias de juventude. Rimo-nos juntas com as gargalhadas cúmplices de quem passou por coisas que levará uma vida inteira a tentar perceber. E embora eu nunca tenha conseguido habitar a ilha do oceano invisível que ela gosta de visitar, é a sua presença que alivia o meu coração carente e que me faz querer corresponder a algo que ficou em criança, como quando ela me punha a mão no ombro e me ouvia falar da escola, das brincadeiras, dos amigos. E isso era a coisa mais calma que eu sentia. Ainda hoje é assim. É a sua serenidade que me cobre como um cobertor quentinho. Agora que sou mãe, que sei como são os olhos das mães, apetece-me chorar de gratidão. 


Para a minha mãe, que é a melhor mãe do mundo, simplesmente porque é ela e porque sou eu.





* José de Almada Negreiros, Mãe!