domingo, 22 de maio de 2016

Somos o que somos no momento em que somos



Entro na sala de estar comum e solto um altissonante bom-dia que desejo que soe alegre e festivo. A maioria dos idosos já se encontra vestida e lavada, pronta a aconchegar-se a um novo dia. Alguns respondem-me com simpatia, levantando os olhos do chão e endereçando-me o seu melhor sorriso. Outros, afundados em si mesmos, nem notam a minha presença. Já sei que é assim. Aprendi a interpretar o seu alheamento como um traço de vida intensa, por vezes de limite, revisitada e biografada na nudez da solidão dos dias que restam. A M., que se sentou hoje numa cadeira diferente, disse-me, um dia, numa voz semelhante ao grito inconsolável de um pássaro, que somos o que somos no momento em que somos. Hoje, decido começar por ela. Aproximo-me e sento-me na cadeira ao seu lado. Recetiva à minha presença, coloca a mão enclavinhada em redor da orelha e, com uns olhos aquosos, fita-me com um ar de concentração intensa. Pergunto-lhe se dormiu bem, se está bem-disposta e digo-lhe que o colar de pérolas que traz hoje à volta do pescoço lhe fica muito bem. Como que ardendo num tenro entusiasmo, conta-me que foi uma oferta do falecido marido e que, na altura, lhe tinha custado uns bons dinheiros. No início, a filha não queria que o levasse para o lar, com receio que este desaparecesse. Mas ela conseguira convencer a filha e, agora, usava-o todos os dias. Com um sorriso apaziguado, leva a mão trémula às pérolas, que ali fica inerte, como que ancorada numa vida. O J. entra vagarosamente na sala, contorcido e curvado, agarrado a uma bengala. Traz, no olhar, um véu que lhe fecha o rosto. Quando me vê, detém-se e pergunta quem sou, com a sua fala enrolada. Todos os dias faz as mesmas perguntas, como que despertando, por instantes, do seu tempo desabitado de referências. Quem é? Quem é você? Eu não sou exceção. Todos os sábados me faz a mesma pergunta. E embora todos saibam que há perguntas que não têm resposta, há sempre alguém que responde por mim. É a menina que nos vem visitar aos sábados! J. esboça um sorriso fugidio nos lábios pálidos e encaminha-se, depois, para uma cadeira, já desprendido do que acabou de acontecer, com a pergunta e a resposta a esfumarem-se tão rápido como um bando de pássaros depois do tiro de um caçador. Com um fio de baba a pender do seu lábio inferior, como uma teia de aranha à beira de um precipício, volta a mergulhar não se sabe onde. Sentado no meio do quadrado de sol que entra pela janela, V., lendo no meu olhar uma tristeza que ainda não aprendi a disfarçar, tenta distrair-me da seriedade das coisas. Com um sorriso a ornar-lhe o rosto benevolente, desdramatiza, sempre pronto a colher o lado positivo da vida que respira na terra. Não fique triste, menina. Pense que ele, todas as semanas, tem a sorte de conhecer uma nova rapariga bonita!
Cada pessoa é a sua história. Um mundo que se contém a si próprio. Impenetrável. Escandido num contínuo torvelinho de somas e subtrações intermitentes. Talvez a M. tenha razão. Talvez sejamos apenas o que somos, no momento em que somos.


40 comentários:

  1. És uma pessoa bonita, Miss Smile. :)

    O teu texto recordou-me a minha experiência num lar. Escrevi no blog, também. :)

    Deixo-te um beijo. :)

    ResponderEliminar
  2. Quem diz é quem é, doce Castiel :)
    Se quiseres, deixa aqui o link do que escreveste. Gostaria muito de o ler :)

    Um beijinho e um bom domingo :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Oh, obrigada. :)

      Eu alterei o link do blog e o reader não actualizou. De qualquer forma, também não tenho escrito. Eu e as palavras estamos de relações cortadas. :))

      Deixo-te, sim. :)

      http://wh3teblood.blogspot.co.uk/2015/11/o-turno-da-noite.html.

      E este: http://wh3teblood.blogspot.co.uk/2016/01/ainda-em-inglaterra.html. Sorri a noite toda com a pergunta desta senhora. :)

      Um beijo nesse teu coração, Miss Smile. Bom Domingo. :)

      Eliminar
    2. Obrigada :) Gostei muito de te ler e não pude deixar de sorrir perante a pergunta da senhora idosa. Há pessoas que, para escutar verdadeiramente, se tornam surdas. Parece ser o caso desta – parecia não escutar os teus pedidos e, afinal, estava mais atenta do que tu pensavas :) Eu também tenho uma A. que gosta de ficar de mão dada comigo :)

      Um beijo no teu coração, querida Castiel (é tão bonita esta tua expressão)

      Eliminar
  3. Respostas
    1. Olha, Polvo amigo, para mim é bom e acho que, para eles, também. Há dias em que saio de lá de coração apertado e há outros em que venho de lá a sorrir. Há dias e dias. Há horas e horas. Faz-se o que se pode, mas, em primeira linha, faço-o por mim.

      Um beijinho

      Eliminar
  4. Parabéns à pessoa que é . Sorte dos residentes no lar que visita aos sábados . Belas palavras que espelham sua sensibilidade . Abraços

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Na verdade, eu é que tenho muita sorte com eles, que são fantásticos. Gosto que me tratem por menina e gosto das coisas que me ensinam :)

      Um abraço, Marisa, e obrigada pela visita

      Eliminar
  5. Esses sábados são os meus sábados, Miss Smile. A tristeza é muito difícil de ser completamente disfarçada.
    Um grande beijinho e um domingo, esse sim, feliz :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu sei, querida Blue, eu sei.. A vida de todos nós é uma experiência única de vulnerabilidade, um encadeado de coisas que se perderam, de gestos e palavras que não aconteceram, de brilhos que se apagam, de mantos de tristeza que nos cobrem os dias. A tristeza é difícil de disfarçar. E é por isso que um sorriso pode ser, por vezes, uma ferida aberta.

      Um grande beijinho, Lindinha, e um domingo feliz :)

      Eliminar
  6. A M. tem razão. Estou convencida disso e de certa forma parece-me apaziguador que pense assim.
    Gostei de te ler.
    Beijo, Miss Smile!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu também acho que existe algo de apaziguador nesse pensamento. Ser o que se é e o que se pode ser no momento, é um ato de reconciliação com a própria existência. É desenvolver um sentido de proporção das coisas.

      Um beijinho, Isabel

      Eliminar
  7. "Somos o que somos no momento em que somos" e saber isso, num quadro como o que descreve, não deixa de me angustiar.

    Bom domingo, Miss Smile. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Angustia-nos a todos, luisa. Pensar que, um dia, perderemos autonomia, ficando irremediavelmente reféns das nossas limitações, é muito assustador. Mas é essa vulnerabilidade que nos une a todos, jovens e idosos. Na verdade, temos mais coisas que nos unem do que nos separam.

      Um beijinho

      Eliminar
  8. Muito bem escrito este texto e muito meritórias essas visitas de sábado ao lar !
    Os nossos "velhinhos" (tão queridos) bem precisam de ser alegrados , a todo o momento ! Calculo como eles se sentem com essas visitas, Miss Smile !
    Tal como a Castiel disse acima, também eu te acho uma pessoa bonita ! :)

    Obrigado e um beijinho em ti !

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Rui, pela gentileza :)
      Sou bonita nos dias em que domino o meu mau feitio :)
      Penso que todos temos esse potencial, o de nos tornarmos pessoas mais bonitas. Basta tratarmos os outros como gostaríamos de ser tratados, não esquecendo que todos precisamos de ser abraçados, reconhecidos, aceites.

      Um beijinho :)

      Eliminar
  9. Esse é um mundo no qual penso cada vez mais, que me entristece e me deprime.
    Esse véu que turva o olhar do J, a lucidez do V, mas que o corpo não acompanha, que sabe reconhecer o lado positivo daquele para quem tudo é sempre novo, já que quando vê a mesma pessoa vê sempre outra diferente.
    Vivi de perto essa tristeza e, que Deus me perdoe, não quero que os que amo e hoje me vêem envelhecer, lúcida e com vida no olhar, na vontade e na voz, me vejam com o olhar vazio de quem já partiu há muito.
    Seremos o que somos até quando o pudermos ser. Era assim que eu gostaria que fosse comigo. Mas este meu gostar não passa de um querer incerto.

    Um beijinho com carinho e um sorriso de amizade, Miss Smile. :)

    Janita

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Com o passar dos anos, tomamos consciência que a vida é uma travessia de alto risco que nos põe cada vez mais à prova à medida que a nossa fragilidade aumenta. Levamos anos a desbravar mato, a construir, de mangas arregaçadas, o nosso caminho, a torná-lo transitável e, quando pensamos que podemos descansar, felizes, descobrimos que não existe meta, que continuamos em terra estrangeira. Viver não é mais do que uma contínua preparação para a vida. Não é fácil. E não acaba bem. Acho que era Branquinho da Fonseca que dizia, com algum sentido de humor, que isto de estarmos vivos não acaba bem… :)
      Cultivemos, portanto, o pequeno jardim que é a nossa vida.

      Um beijinho, Janita, com carinho e amizade :)

      Eliminar
  10. "Talvez sejamos apenas o que somos, no momento em que somos." palavras sábias.
    Este seu testemunho é de uma riqueza extraordinária. Fico-me por aqui em silêncio, mas subscrevo que somos no momento em que somos.
    Fica um beijo com grande estima e admiração.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O que importa é avançar sempre, dar um passo cada dia, não esquecendo que, dentro de nós, há sempre um tesouro, independentemente das nossas capacidades.

      Um beijinho, Maria Flor, com estima

      Eliminar
  11. Que atitude bonita MS e que texto delicioso apesar de triste. COmpreendo muito bem essa tristeza, já visitei um lar muitas vezes por causa de um familiar, uma visita é como uma lufada de ar fresco para eles, alguns, porque outros, não conseguem sair da sua própria tristeza. Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O que eu acho muito interessante é que, mesmo os mais fechados, acabam por conversar e desabafar. Eu vou de manhã, porque as tardes estão reservadas às famílias. E sei que eles gostam das nossas visitas (eu não sou a única), porque se sentem mais à vontade para contar situações que, por pudor ou outros motivos, não querem contar à família. Faz-lhes bem romper o círculo familiar e conviver com outras pessoas que funcionam como um elo de ligação ao mundo exterior.

      Um beijinho, GM

      Eliminar
  12. A minha alma abraçou este momento com um sorriso e com um carinho acrescido.
    O meu pai sempre foi o meu ídolo (compensou sempre genuinamente a aspereza da minha mãe), e eu sempre lhe fui, e ainda hoje lhe sou a sua "Pequenina". Diz-me que sou a pessoa mais importante da sua vida.
    Ele padece de doença psiquiátrica Bipolar e de doenças neurológicas, Epilepsia e Demência de etiologia vascular degenerativa. Está institucionalizado por mim, enquanto sua curadora, num Centro Hospitalar Psiquiátrico.
    Vou visita-lo três vezes por semana, e cuido da sua vida como se fosse meu filho.
    Sabes Miss Smile, dói tanto ver a degradação do meu ídolo no tempo. Hoje é um ser frágil, indefeso, sem qualquer autonomia até para a execução das suas necessidades vitais primárias. Por muito que quisesse cuidar dele, não tenho conhecimento, capacidade, nem a casa adaptada, para fazer face aos cuidados especiais e especializados de que ele constantemente precisa.
    E com este meu desabafo reforço que o titulo do teu testemunho é uma verdade inequívoca.
    Obrigada minha Querida Amiga, fica um beijinho com aquele carinho especial.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Sandra, eu é que agradeço teres escrito este comentário de coração aberto. É muito duro assistir à crescente fragilidade dos nossos pais. Aceitar que aquela mão a que, outrora, nos agarrávamos para não cair, se estende, agora, na nossa direção, pedindo ajuda, é muito, muito difícil. Sabemos que é o ciclo da vida, mas, ainda assim, nunca estamos verdadeiramente preparados para o dia em que começamos a ser mães e pais dos nossos pais. Mas os heróis fazem nascer outros heróis. E o teu pai sabe certamente que tem em ti uma heroína. Muita força é o que eu te desejo.

      Um abraço apertado, querida amiga :)

      Eliminar
  13. Olá, Smile.
    Fizeste-me sorrir (ainda que um sorriso sem ponta de alegria): "ele, todas as semanas, tem a sorte de conhecer uma nova rapariga bonita!" - visto assim, sob esse prisma, até é "sorte". Mas não é sorte que se inveje. Nem se inveja esse mundo, desse tempo em que: ou se vive de memórias, ou se perdeu toda a memória.
    * tens um "smile" no coração ;)

    bj amg

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O V. procura sempre o lado do sol. Teve uma vida muito difícil, mas não hesita em afirmar, com convicção, que teve uma vida ativa que lhe deixou boas recordações. Talvez seja esse o seu segredo, o de saber escolher bem as recordações, como se faz com as companhias. Nessa perspetiva, ele é que tem um “smile” no coração :)

      Um beijinho, Carmem

      Eliminar
  14. ~~~
    Um texto - primorosamente escrito - sentido, tocante,
    de rara humanidade e de grande beleza!

    O voluntariado junto de idosos, já institucionalizados
    não é nada fácil, porém, é muito importante para eles
    mesmo para os que se mostram apáticos.

    ~~~ Terno abraço, querida e valente Smile.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Às vezes, penso que eles é que me ajudam a mim. Recebo tanto, tanto em troca! Eu costumo dizer que, quando ajudamos, recebemos a dobrar ou a triplicar. Para dizer a verdade, esta opção é uma preparação para uma coisa mais difícil, de que ainda não sou capaz, mas hei de lá chegar…
      E eles é que são valentes. Estar longe de sua casa, separados do seu mundo de afetos e referências, lidar diariamente com dores e limitações, mas sabendo manter a dignidade, é de gente valente.

      Um beijinho, querida Majo

      Eliminar
    2. Também tem razão - eles também são valentes...
      Uma ótima semana, carinhosa amiga. Beijinho.
      ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

      Eliminar
    3. Um beijinho e uma boa semana :)

      Eliminar
  15. Que forma bonita de preencher pedaços de vida aos sábados de manhã.
    (fiquei a matutar na frase)

    Beijinhos, Miss Smile. Uma boa semana para ti.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A vida é uma construção, também aos sábados de manhã :)

      Um beijinho, Ava, e uma boa semana para ti

      Eliminar
  16. Deus a abençoe e lhe dê Graças pela pessoa que é.
    Beijinhos, boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Pedro. Bondade sua.

      Um beijinho e uma boa semana

      Eliminar
  17. E até ser o que somos no momento em que somos é ser muito!
    :)
    beijinho Miss Smile

    ResponderEliminar
  18. Aceitá-lo, sem resistir e insistir no que se foi, e já não se consegue mais ser, é das coisas mais difíceis da vida. Às vezes, pergunto-me, quantas pessoas vivem a vida de uma pessoa?

    Um beijinho, JT

    ResponderEliminar
  19. Lindo..
    fez-me pensar na mãe do meu companheiro, que reside num lar.
    fez-me pensar nas tantas vezes que lá vou e encontro olhos tão humanos, que pedem coisas tão pequenas, na verdade. coisa que para nós são banais...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu acho que as coisas têm a importância que lhes quisermos dar. Decidir ou cozinhar o que comer, cuidar de um animal, regar umas flores, passear, tomar banho no mar, marcar um encontro com amigos, brincar com uma criança, cumprimentar os vizinhos antes de entrar na própria casa, na minha perspetiva, não são coisas banais. E tenho a certeza que tu concordarás comigo. Quem achar que estas coisas são banais anda muito distraído da vida e não valoriza a riqueza que (ainda) tem.

      Um beijinho, Laura

      Eliminar
  20. Assim é o meu velhinho... Dói!
    É bom ter quem anime aqueles que já nem à casa podem chamar sua.

    Beijos, Miss Smile :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há dias quando estava na sala de espera do dentista, vi chegar uma senhora com sérios problemas de mobilidade. Vinha apoiada no taxista que a transportara, pois a senhora não conseguia manter-se de pé sozinha. Fiquei, depois, a saber que a senhora é residente de um dos lares mais caros da linha de Cascais e, contudo, apesar de todas as comodidades que desfruta pagas a peso de ouro, não há ninguém que lhe dê o conforto de a acompanhar a uma consulta, deixando-a entregue à solidariedade e boa-vontade de desconhecidos.
      Dói sempre muito, muito, querida Maria.

      Um abraço apertado

      Eliminar