sexta-feira, 17 de junho de 2016

A empurrar a vida com as mãos




Quando eu era uma criança parada
Quando não andava numa cadeira de rodas a empurrar o corpo com as mãos

Estudei o movimento dos líquidos
Segui o derrame da semente ao morrer
O fio de água no olhar de quem amei.

Daniel Faria, in Os líquidos



J. nunca foi à escola. Nasceu com duas pernas inúteis, paralisadas, que não a deixavam erguer-se do chão. Mas cedo aprendeu a arrumar as tristezas a um canto. E foi assim que, no lugar das pernas, lhe nasceu uma vontade incessante. Os pais saíam para ir trabalhar no campo, deixando-a em casa a fazer o serviço doméstico. A vida passava-lhe todos os dias rente à casa, tão perto e tão longe, enquanto ela ficava na margem, no silêncio dos dias despovoados, onde nem o som dos próprios passos podia ouvir. Os pais não tinham posses para uma cadeira de rodas e, naquele tempo, aceitava-se certas fatalidades com uma resignação benevolente. A arte da sobrevivência fê-la descobrir o milagre dos braços. Assim, aprendeu a pôr o coração para a frente e a arrastar o corpo para levar a vida. Deitada no chão, lavava a roupa, passava a ferro, varria a casa, cerzia meias, enquanto cantava melodias improvisadas. Os braços serviam-lhe de pernas e, tudo o resto, de mãos: a boca, os dentes, o ombro pressionado contra a face, o braço apertado contra o tronco. Quando terminava as tarefas, compunha as tranças e arrastava-se até à janela para ver o movimento do mundo. E foi pelo seu bonito rosto, enquadrado na moldura da janela, que o M. se apaixonou. Casaram e, contra todos os augúrios, tiveram uma filha. Mas a filha, que nasceu com um coração ressentido, nunca lhe perdoou a maternidade. Censurava-a por ter sido mãe quando nem sequer conseguia colocar os pés no chão. Os laços nunca se estreitaram e a filha cresceu revoltada com a família. Agora, ela e o M. estavam no lar, porque ela já não conseguia tomar conta dele. Coitado, ele mal pode andar. Pergunto-lhe se a filha a visita. Com um sorriso triste de lágrimas por chorar, responde-me que a filha tem três filhos e que trabalha muito. É mais fácil assim, penso. Disfarçar o que sempre se soube, que, ainda em vida, já se morreu para um filho.


[Há dias em que a esperança me morre às escuras.]



18 comentários:

  1. Era preciso registar e partilhar com todos essas vidas, elas sim verdadeiramente heróicas. Obrigada por o fazer aqui. No ano passado registei em video uma série de testemunhos de idosos sobre a sua vida, apeteceu-me ir atrás dessa senhora também.
    ~CC~

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    1. Sãos os heróis reais, sem voz e sem medalhas...

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  2. Há injustiças muito difíceis de aceitar. Apetece viajar para trás no tempo e ir consertar o que devia ter sido diferente.
    Mas alegra-me um pouco que a J. te tenha a visitá-la e a ouvi-la. Querida Miss Smile...
    Um abraço comovido.

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    1. Há tanto desconcerto, querida Susana, neste nosso mundo que se finge consertado.

      Outro abraço

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  3. Um texto que li em silêncio e reli sussurrando, cada palavra, para mim, como se velhas amigas fossemos.
    Apetece-me voltar ao silêncio, ao meu silêncio, desejando que a esperança nunca me morra às escuras, tampouco às claras. Que viva enquanto eu viver e, quem sabe, até para além de mim. A minha, e a de alguém que amo muito.

    Um beijinho cheio de esperança, Miss Smile.

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    1. A esperança é uma semente de gestação lenta que é lançada na terra escura. Mesmo sem ver frutos, precisamos de acreditar nela.
      Mas há dias difíceis...

      Um beijinho, Janita

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  4. Fiquei com o coração pequeno, Miss Smile. É um mundo cruel, demasiado cruel.

    Deixo-lhe um beijo.

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    1. Há existências demasiado pesadas e, ainda assim, são um testemunho de coragem, dedicação e força. O mundo não as merece.

      Um beijinho, Castiel

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  5. Infelizmente este texto representa a realidade desta sociedade podre em que vivemos. O pior que nos pode acontecer é morrermos para aqueles que queremos bem, ainda em vida...

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    1. Acho que isso é mesmo o pior que pode acontecer a alguém, independentemente da idade que tenha...

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  6. Minha querida Miss Smile, há pessoas muito cruéis. Nem tenho palavras! Com tal exemplo de conduta, a filha terá um desfecho ainda pior.
    Fica um beijo com amizade para ti, Miss Smile, e um abraço solidário ao casal.

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    1. É muito cruel e impossível de racionalizar.
      Podemos escolher o que semear, mas temos de colher o que semeamos.

      Um beijinho, querida Sandra

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  7. ~~~
    ~~~
    Rosemary Sggins parece muito feliz nas suas fotos...

    Este é um caso triste...
    Não consigo perceber como pode uma mãe acarinhar os
    filhos e esquecer a própria mãe...
    Por vezes, crianças e jovens são muito cruéis com os
    familiares de deficientes, o que origina revoltados,
    uma maldade muito semelhante ao ''bullying''...
    O comportamento da filha é, assim, fruto da sociedade.
    Apesar da falta de carinho, a mãe deve sentir-se em paz
    com a história da sua vida.

    Beijinhos, querida Smile
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Tal como Rosemary Sggins, J. tudo fez para que pudesse levar uma vida normal. Não sinto nela qualquer amargura. Sinto, sim, uma enorme tristeza, um espinho enterrado no coração, por a sua única filha não lhe ter perdoado o direito de ter querido ser mãe, como qualquer outra mulher.
      A sociedade é o que sabemos. Funciona de acordo com a lei da matilha e a lei dos que se auto-proclamam mais fortes, mas eu acho que não podemos desculpar tudo com a sociedade. Cada um de nós tem de ter um eixo de valores firme e não pode fugir às suas responsabilidades.

      Um beijinho, querida Majo

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  8. Que mágoa tão grande. Um beijinho para a J.

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    1. Uma mágoa enorme.
      O beijinho ser-lhe-á entregue.

      Outro para si, A marte

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  9. Da mágoa brotam mágoas, mas dum coração fechado não podem brotar afectos... Por que será que alguns seres são insensíveis aos milagres da vida?

    Um beijinho de parabéns, Miss Smile, por mais um excelente texto.

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    1. Penso que são pessoas que se refugiam em racionalizações e justificações para esconder os medos e os receios que não ousam admitir. Talvez seja uma forma de se protegerem da vida, porque desconfiam dela, e lá terão as suas razões. Mas viver exige coragem, coragem para o amor e para a dor. E eu acho que só o coração nos dá essa coragem.

      Um beijinho, AC, e muito obrigada

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