quarta-feira, 22 de junho de 2016

A generosidade




A R. explica que não é muito de falas. Do que ela gosta mesmo é de se sentar em silêncio ao lado dos velhinhos e de ali ficar de mãos dadas, sem nada dizer. Gosta de sentir a progressiva acalmia das respirações, a cadência regular dos corações que dormitam e descontraem, porque se sentem afagados, aceites, abraçados. Diz-me que as palavras podem ser escorregadias, turvas e superficiais e que é o contacto físico que melhor compreende a necessidade de certos silêncios. Uma vez, numa outra instituição onde fez voluntariado, um velho fez-lhe um pedido invulgar. Abordou-a com uma voz ansiosa, uma voz especial que pedia uma coisa proibida. Com duas pequenas fogueiras a arder no lugar dos olhos, confessou-lhe que não gostaria de morrer sem voltar a tocar nos seios de uma mulher. Pedia desculpa pelo atrevimento, mas pressentia que ela tinha bom coração e que compreenderia a sua situação. Se lhe pudesse conceder esse desejo…
A princípio, a R. quase que ficou indignada com aquele pedido, mas logo se recompôs, comovida com a fragilidade daquele corpo envelhecido, preso a uma cadeira de rodas. Não querendo sobrecarregá-lo com o peso de mais um desgosto, anuiu, disposta a satisfazer aquele que podia ser o último desejo da sua vida. Numa manhã em que se encontravam abrigados de olhares indiscretos, ela piscou-lhe o olho e, abeirando-se dele, fingiu ajeitar a manta que lhe cobria as pernas. Compreendendo o sinal, o velho estendeu a mão engelhada que era só ossos, com pregas de pele manchada. Não havia nada de belo nela. Nada que explicasse por que razão ela acabou por se sentir feliz por ser tocada. Fora um roçar que a aconchegara por dentro. Um toque leve, sedoso, como a brisa provocada pelo bater de asas de um pássaro num fim de tarde de verão. Inclinando o corpo doente para a frente, ele deslizara delicadamente as costas da mão pela curva macia do seu seio esquerdo. Ela mal o sentira. Mas, como se assistisse ao milagre súbito de um homem dado como morto a abrir os olhos, sentiu-lhe as dores do corpo, os tormentos de alma, a alegria momentânea a pulsar-lhe no coração vermelho, a bater desordenadamente perante aquela fragrância de juventude em flor. Por isso, não, nunca se arrependeu daquilo. Se voltasse atrás, faria o mesmo outra vez. Transporia o limiar proibido para trazer uma felicidade breve a uma vida à beira do fim. Nenhuma distância entre seres humanos deve ser demasiado vasta para que não possa ser atravessada, afirma, com alegria. Agarro-me ao sorriso que há na sua voz e penso que talvez a verdadeira generosidade seja isso. Um voto de confiança que se oferece a uma pessoa sem nos preocuparmos com o que ela vai fazer com ele.


34 comentários:

  1. há quem julgue que a generosidade é dar coisas, eu acredito que é darmos de nós aquilo que mas faz falta aos outros.
    o seu texto é profundo, poucas vezes nos lembramos de que os mais velhos são gente como nós, em tudo igual nas necessidades, mas presos ao estigma de que já não podem. o gesto da R., generosidade, sim, na essência mais pura da palavra.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Essa é uma bonita definição do que é a generosidade - não é dar coisas, sobretudo, aquilo que temos a mais, mas, precisamente, dar aquilo que o outro precisa, sem esperar nada em troca.
      Para a nossa sociedade, os mais velhos, aqueles que atingem uma determinada idade, tornam-se andróginos…

      Eliminar
  2. depois de te ler, Miss, não apetece ler mais nada. fica-me a vontade de ficar assim, enroscadinha nas palavras de quem faz a vida parecer mais bonita.
    obrigada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há muitas pessoas que, com os seus pequenos gestos, tornam a vida dos outros mais bonita.
      Sabes que, quando escreves, estás a tornar o meu dia mais bonito? Obrigada :)

      Eliminar
  3. Muito bela esta história de generosidade e de "boa acção".
    Gostei bastante minha amiga.
    Um abraço e boa semana.
    Andarilhar

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Talvez a “boa ação”, na sua essência mais pura, seja dar algo seu, sem que isso lhe custe alguma coisa e sem que o outro sinta que tem de retribuir o “favor”.

      Um braço e uma boa semana, Francisco

      Eliminar
  4. Palavras deliciosas, que nos mostram que um simples gesto sem qualquer cariz imoral, pode transformar os dias de alguém que já pouco lhe resta. Adorei. Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O toque físico nos mais velhos tem um efeito muito positivo. Funciona como um estímulo de humanidade, de confiança, de autoestima. Aqui, o toque acabou por ser recíproco, como se de um abraço interior se tratasse.

      Um beijinho, Esmy

      Eliminar
  5. Depois de ler este texto, que nem irei adjectivar, sinto necessidade de o reler e ficar em silêncio.
    Essa leve carícia, acariciou-me o coração.
    Fixo o olhar nesse bando de andorinhas, em voo ascendente, rumo ao céu, e sinto-me levitar...

    Um beijinho, grande, grande, Miss Smile!! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Todos somos o resultado de uma sucessão inumerável de gestos, de encontros, de afetos que nos inspiraram. Para que isso aconteça, basta que nos deixemos tocar, que estejamos disponíveis para tal.
      A imagem reproduz o voo em delta dos gansos selvagens que, no fim de agosto, deixam o nosso país e voam para terras mais quentes. A estratégia do voo em delta permite aos elementos do bando reduzir o esforço e obter um maior rendimento. Este “trabalho de equipa” faz com que consigam percorrer uma distância muito superior (mais de 70%) àquela que alcançariam se voassem sozinhos.

      Um beijinho com asas, Janita :)

      Eliminar
  6. Concordo que a generosidade seja o dar o que os outros precisam, dentro dos limites possíveis, porque não violentos, a cada um.
    Assim, consigo compreender que a R. o tenha feito, algo que está muito associado à intimidade, assim como compreendo na mesma medida quem se recuse a fazê-lo. E não considero que um lado seja mais certo do que o outro.
    Apesar de apenas nas circunstâncias ser possível testar as nossas reacções, à distância imagino-me a não corresponder ao pedido.
    Beijo, Miss Smile!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Concordo contigo, Isabel. Neste caso específico, não há um comportamento que possa ser definido como absolutamente correto. Recusar um pedido desta natureza seria uma atitude perfeitamente legítima e compreensível. Também eu me imagino, à distância das circunstâncias, a não corresponder ao pedido. Mas não tenho dúvidas de que a R. foi capaz de uma enorme generosidade.

      Um beijinho

      Eliminar
  7. ~~~
    Só, mesmo, uma mulher habituada ao convívio com idosos,
    e capaz de uma atitude tão elevada...
    Uma descrição soberba, verdadeiramente exemplar!
    Aqui, delicio-me sempre com bons momentos de leitura.
    Beijinho grato, querida Smile.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esse é o cerne da questão. Para reagir desta forma, é preciso ter um conhecimento e uma confiança que só se adquire através do convívio regular e próximo com os mais velhos. Como sabemos, muitos vivem à margem do mundo, “arrumados” em lares e em sofás, com televisão ao fundo.

      Um beijinho, querida Majo

      Eliminar
  8. Ao ler este seu sensível texto, voei rumo ao céu como as aves da imagem querida Miss Smile.
    Generosidade é isto, dar algo de nós a quem precisa, nada mais.

    Um beijinho grato

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu acredito que uma pessoa que é generosa com os outros sabe ser, também, generosa consigo própria. Quem gosta do outro ao ponto de lhe satisfazer um pedido desta natureza, ama e respeita também o seu lado mais vulnerável. Sabe que, sozinhos, somos pouca coisa e que, para voar, precisamos dos outros.

      Um beijinho, querida Fê

      Eliminar
  9. Podemos ser generosos mas não podemos deixar que nos pisem ou se aproveitem de nós ao mesmo tempo...
    Beijinhos,
    O meu reino da noite ~ facebook ~ bloglovin'

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os outros só se aproveitam de nós se o deixarmos. A generosidade é uma decisão pessoal - depende de quem dá e não de quem recebe. Quando esta ordem é invertida, não se trata de generosidade, mas de outra coisa…

      Beijinhos, C.

      Eliminar
  10. o mundo anda carente de afectos... de animais, queremos ser máquinas.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Talvez o mundo ande carente de afetos, porque utiliza o amor como moeda de troca para obter poder, controlo, admiração. E, depois, há o medo. Vivemos num mundo que assiste em direto, enquanto janta, aos maiores flagelos e catástrofes humanitários e ecológicos, mas que, no seu dia-a-dia, tem medo do amor, da amizade…

      Eliminar
  11. Os meus milagres são fáceis de explicar

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Hum… não sei se consigo alcançar o hermetismo do seu comentário, Mar Arável. Talvez queira reescrevê-lo por outras palavras…

      Eliminar
  12. Afinal é tão fácil ser generoso e fazer alguém feliz.
    Lindíssimo!
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pedro, a generosidade é uma coisa fácil quando é com os outros. Quando somos nós, é muito mais difícil. Eu diria que é uma aprendizagem contínua, coisa para durar uma vida inteira.

      Beijinhos

      Eliminar
  13. belíssimo, Miss Smile.
    vir aqui é uma paz...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Laura.

      Um beijinho para si

      Eliminar
  14. Eu fiquei sem palavras, fiquei agarrada ao sorriso das tuas, Miss Smile.

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É essa a coisa boa dos sorrisos, a de serem contagiantes :)

      Um beijinho, Ava

      Eliminar
  15. O gesto dessa senhora foi muito bonito. Mas a maioria das pessoas jamais perceberá uma coisa dessas.
    Já presenciei coisas parecidas(como o namoro entre idosos) e mentalmente aprovei, apesar da condenação e proibição das empregadas.
    Miss Smile, tem um bom fim de semana.
    Beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A nossa sociedade é muito preconceituosa em relação a esses assuntos. Conheço várias histórias que ilustram bem o que escreveu.
      Quanto ao gesto, foi por o considerar tão bonito que quis partilhá-lo aqui.

      Um beijinho, Jaime, e um bom fim de semana

      Eliminar
  16. Irmos para além de nós mesmos em prol dos outros.
    Fantástico, Miss Smile!

    Beijos :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Transcendermo-nos, sermos maiores do que nós...

      Um beijinho, Maria :)

      Eliminar
  17. Estou arrepiada... e fico-me em silêncio. Abraço MS

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os silêncios são, por vezes, mais compreensivos...

      Um beijinho, GM

      Eliminar