domingo, 12 de junho de 2016

Banhos de água fria



Percorro a praia de volta, seguindo as minhas próprias pegadas. Esta foi uma das coisas que a vida me ensinou. Quando pensamos que seguimos alguém, andamos, na verdade, sempre atrás de nós mesmos. Observo a forma como as ondas se desfazem contra as rochas, a efervescência da espuma, as gotas de água que se detêm por instantes no ar e imagino a vida que cresce nas fendas dos rochedos. Por cima de mim, o grito das gaivotas assemelha-se a uma gargalhada. Lá no alto, elas sabem que somos risíveis, que todos acabamos por cair, um dia, do berço seguro das nossas certezas. O ar do mar estimula-me os sentidos e ajuda-me a separar os pensamentos com a precisão de um estilete. Sei que há qualquer coisa que me abandonou desde aquele dia. Uma certa determinação que deixei esquecida algures. Continuei a fazer as mesmas coisas, mas não com a mesma convicção. Perdi a noção das horas, que se tornaram silenciosas, quase submarinas. Antes, regressava aos mesmos locais e encontrava tudo no mesmo sítio. O rádio sempre ligado, as plantas regadas, o chão varrido, um pão-de-ló saído do forno e o coração - o único sítio importante - no mesmo lugar. Nunca perdi o controlo da minha vida e do meu corpo. Mas estou diferente. Antes, acreditava que os compartimentos vazios do coração faziam parte da condição humana, tal como o nosso desejo de os preencher. Hoje, penso que não é assim. O vazio é uma coisa que se prolonga infinitamente como as ondas. Uma coisa que nos nasce dentro, como a vida oculta que cresce nas fendas dos rochedos e por onde ecoa o lamento do vento. Tenho pensado em tudo isto sem palavras. Hoje, consegui escrevê-las. E embora tudo isto me pareça claro no reflexo da água que me acaricia as pernas, sei que não tenho coragem de parar de esculpir sonhos em barras macias de sabão, porque tenho medo que o coração me morra nas mãos.


24 comentários:

  1. Que bom avanço, Miss Smile, passá-los para as palavras escritas. Daí até ao preenchimento do vazio, continuar a sonhar e se possível voar, é um salto. Resta descobrir de que tamanho.

    [Vou ver se não me esqueço disto, melhor escrever e colar no frigorífico, na testa não dá muito jeito]

    Beijinhos, Miss Smile

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    1. Deste-me uma ideia, querida Ava. Vou pendurar o coração na porta do frigorífico, ao lado da lista das compras. Daqui a uns dias, talvez o volte a guardar no peito :)

      Um beijinho

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  2. um abraço forte, doce smile.

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    1. Obrigada, linda Açucena :)

      Um abraço, com muitas voltas de fita azul

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  3. Querida Miss Smile.

    Este seu texto revela a sua grande sensibilidade.
    Há episódios na nossa vida que nos mudam para sempre, são autênticos banhos de água fria.
    Esse vazio, que descreve tão bem, nunca mais é preenchido, no seu lugar fica uma ferida que sangra, que magoa.
    Mas quando ainda mantemos a frágil capacidade de sonhar, é sinal que o coração ainda vai resistindo.

    Um beijinho!

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    1. Eu convivo bem com a minha fragilidade. Aprendi a encontrar um fio de sentido, por mais ínfimo que seja, em tudo o que vivo e até no vazio. Sou exigente. Nunca quis que a minha vida se tornasse num caldo insonso.

      Um beijinho, querida Fê, e obrigada

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  4. Um belo texto que me tocou fundo na alma.
    Não como um banho de água fria, mas com o sabor morno e salgado da água do mar presa numa poça na areia e das lágrimas que já derramei ao logo do caminho que percorri.

    Um beijinho, querida Miss!

    PS- Não será melhor levantar mais a saia e deixar que a água lhe cubra os joelhos? Quem sabe se sinta melhor...

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    1. Eu acredito que há muitas questões que estão, desde sempre, à nossa espera, mas que só se tornam clarividentes no momento em que estamos preparados para as enfrentar. Quando surgem, não adianta assobiar para o lado e fingir que nada é connosco. Na verdade, não é isso que se espera de nós. A nossa sociedade associa a felicidade ao estar-se saciado, satisfeito. Domesticadamente saciados. Mas é a perceção do(s) vazio(s) que nos faz definir o nosso próprio caminho, como pessoas únicas e irrepetíveis.

      Um beijinho, querida Janita

      PS: levantar ainda mais a saia, Janita? E, então, as varizes? :)

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  5. Um desabafo, posso considerá-lo assim? Penso que todos nos sentimos diferentes à medida que vamos fazendo o nosso caminho; cada vez que voltamos a um lugar, ele vai sendo visto de forma diferente; os olhos vêm as coisas de outra maneira, o coração sente-as de uma forma mais profunda,, deixando de lado aquilo que pouca importância tem e parando em pormenoras que antes nem sequer tinhamos reparado que ali estavam. Sabes, considero-me uma pessoa abençoada pela vida e apesar disso há em mim um vazio que não me larga; muitas vezes me interrogo sobre o motivo de sentir que há algo que me falta, mas nunca consig descobrir. Com o passar do tempo deixei de me preocupar com esse vazio,; cheguei à conclusão que sempre fui assim e que assim continuarei; conclui também que se calhar os vazios nao são para preencher, pelo menos alguns deles; sei que sou uma alma inquieta e será que isso é mau? Talvez não seja! Ha tanta coisa que me perturba, tantos problemas à minha volta que me incomodam e, apesar de fazer o que está ao meu alcance, sou demasiado pequena para ser capaz de os solucionar. E nao querendo " que o coração me morra nas mãos" lá vou eu caminhando e aceitando que ao preencher um vazio, outro me aparecerá com toda a certeza. Não adianta " remar contra a maré"; as inquietudes fazem parte da caminhada , caminhada que me foi formando e me transformou neste ser bastante inquieto que sou, cheio de vazios. Acho que acabei por fazer um desabafo, ou melhor, tenho a certeza que fiz. Aproveita bem o mar, querida amiga e obrigada pela bela reflexão. Um beijinho
    Emilia

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    1. Querida Emília, eu é que agradeço o teu desabafo :)
      Quando deixarmos de ter um ideal, estaremos mortos por dentro. Aprendi que os vazios não se preenchem, mas aprofundam-se. São um convite para entrarmos em nós próprios e, correndo todos os riscos do que nos atrevemos a ser, seguirmos um caminho autêntico e verdadeiro. Acredito que são os vazios, mais do que certas certezas, que nos indicam o caminho. Caminharemos sempre com mais cuidado e atenção numa estrada irregular e esburacada do que numa estrada lisa e plana. Gostamos de olhar para as estrelas, mas não nos podemos esquecer de olhar para os nossos próprios pés.

      Um beijinho, Emília

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  6. Belíssimo, querida Smile!
    Congratulo-me por teres escrito estas divagações e as
    consequentes sábias conclusões.
    Vamos mudando ao longo da longa viagem que é a nossa vida
    e isso também tem que ver com a aprendizagem continua que
    nos é facultada fazer.
    E, realmente, fundamental é continuar a modelar sonhos e
    acreditar neles.

    ~~~ Grande abraço, exímia contista. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Há vazios difíceis de reconhecer. Mas só assim nos podemos tornar em nós próprios. Não há partos sem dor, assim como não há vida sem sonho.

      Um beijinho, querida Majo

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  7. Há dias em que conseguimos ver tudo com muita clareza, ás vezes é bom outras menos bom...
    Também tenho andado com pensamentos tristes, dias meio-vazios.
    Desejo que os teus pensamentos/sentimentos se "endireitem" e recuperem o caminho. Beijinhos

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    1. Por muito que gostemos da alegria dos dias, temos de aceitar que os dias não podem ser só rosas. O importante não é descobrir que as rosas têm espinhos, mas compreender que há espinhos que têm rosas. Os dias meio-vazios são importantes. Eles avisam-nos que precisamos de fazer um trabalho de ressignificação – connosco e com a nossa vida.

      Um beijinho, querida Papoila

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  8. Um belo texto para acabar um fim de semana muito feliz ( o meu!). Obrigada por escrever assim....
    Bjinho

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    1. Obrigada, Virginia.
      Li a entrevista do seu irmão no Observador. Gostei muito. Na fotografia dos irmãos, a Virginia é a segunda da esquerda? É a que tem o ar mais reguila :)

      Um beijinho

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  9. Já foi necessária muita coragem para abrir o coração assim.
    Beijinhos, boa semana

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    1. Às vezes, é preciso virá-lo do avesso e sacudi-lo, sem receio do que vamos encontrar. Há limpezas que são imprescindíveis se queremos levar uma vida comprometida.

      Um beijinho, Pedro

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  10. "Sei que há qualquer coisa que me abandonou desde aquele dia".
    Isto custa muito. Mesmo que a vida continue. Mesmo que nunca percamos o controlo.
    Um grande beijinho.

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    1. Custa, sim, minha querida. Há desafios maiores do que nós, mas a vida ensina-nos a crescer com eles.

      Um abraço apertado e sentido

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  11. Minha queria Miss Smile, quando entramos em modo de desligar o interruptor do dia a dia corrente. Quando fazemos uma pausa mais prolongada e o tempo sobra em excesso, somos levamos para momentos introspectivos como este teu.
    Estou de férias neste momento, e sem saber muito bem como ocupar a minha mente. Gostei muito de te ler minha amiga. Daqui a pouco vou até à praia, temos o mar que nos une em pensamento.
    Beijinho muito grande e continuação de bom descanso.

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    1. Querida Sandra, só me apetece dizer que gosto muito de ti :)
      Eu já estou de volta ao trabalho (que se multiplicou). Por isso, dá um mergulho por mim!

      Um beijinho e um bom descanso

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  12. Penso que continuar a esculpir sonhos é antes um ato de coragem. Eles podem impedir o avanço do vazio.

    Um beijinho, Miss Smile. :)

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    1. É importante continuar a sonhar, mas os sonhos não nos podem distrair dos vazios. Os vazios são perguntas, inquirições que, soubermos aceitar e integrar na nossa vida, nos podem levar mais longe.

      Um beijinho, luisa :)

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