sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Construções



Descobri uma fotografia minha esquecida no fundo de uma carteira. Recortada, com o verso ainda áspero de resíduos de cola, fazia prova de se ter descolado de um cartão de identificação. Já não me lembro de qual. Quantas identificações já tive? E quantas já esqueci? Há capítulos da nossa vida que se fecham em branco à espera que surja uma foto, um odor, um bilhete esquecido numa gaveta para que enchamos algumas páginas com as palavras que lhes dão memória. Na foto, ostento um sorriso primaveril e a consciência mal disfarçada de arrastar algumas atrações e admirações. Foi pouco depois que morri. Já morri algumas vezes, mas aquela foi a maior de todas. Foi um dos maiores rasgões que me fizeram no coração. Doeu tanto que até os planetas pararam. Não me lembro de quanto tempo durou, mas sei que foi tempo demais.

Hoje, o que mais me fascina na foto e naquele momento em que trazia a boca a rir, é a minha profunda ignorância do que sucederia a seguir. Também nos filmes é essa a cena que mais me prende: o derradeiro instante de normalidade antes de os acontecimentos se precipitarem, o doce equilíbrio precário antes da estocada da vida. Depois de ter escrito tanto sobre esse Depois, insuportavelmente dorido, foi o Antes, que parecia ingenuamente simples, que formou uma espiral que se ergueu na noite. Levei muito tempo a conseguir escrever sobre ele. O caminho do regresso é sempre duas vezes maior. E foi surpreendente o que descobri. Ainda que nada disto tenha grande importância, compreendi que, se não tivesse encontrado aquela fotografia, a minha memória seria agora uma coisa diferente. E eu também.