quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Paganini



Já lá vão os tempos em que eu atravessava semanalmente o Jardim da Estrela, com o estojo do violino a tiracolo, em direção à Fundação Musical dos Amigos das Crianças. Sim, meus amigos, esta vossa dedicada escriba teve aulas de violino, para desespero do gentil e benevolente virtuoso que detinha a árdua e difícil tarefa de ensinar. Não havendo mais nada a acrescentar a este respeito, e já que a última frase descreve sucintamente a minha breve e malsucedida carreira como violinista, passemos então ao assunto que me traz aqui.

Enquanto aguardava a minha vez, porque, com exceção do coro e do solfejo, as aulas individuais de instrumento eram organizadas por hora de chegada, sentava-me na cozinha que servia de sala de espera, de sala de convívio e de passagem para a casa de banho. Era uma divisão abafada, muito concorrida, onde todos entravam e saíam, apressados e distraídos.
Todas as semanas, um rapaz da minha idade tocava violino a um canto, alheio ao bater constante da porta, às falas sobrepostas e aos passos que ecoavam ruidosamente no soalho encerado. Tocava horas a fio, sem dar conta, de frente para as notas minúsculas da pauta que, de tão seguidas, quase que imitavam escalas. No canto oposto da divisão, eu gostava de o observar, às escondidas, sempre pronta a desviar o olhar caso o dele se cruzasse com o meu. Tinha uma boca expressiva e olhos azuis, carregados de paixão. O rosto era bonito e delicado, emoldurado por claras e longas mechas de cabelo em desalinho.
A simplicidade com que se esquecia de si e se entregava à música provocava em mim uma comoção inexplicável. Na altura, não me cansava de admirar a forma como o movimento do seu corpo conferia volume à liquidez das notas. A mão esquerda deslizava, veloz, pelo braço do violino e o arco, que parecia uma extensão do seu braço direito, voava em todas as direções. Compassadamente, o tronco oscilava para a frente e para trás, como que vogando em alto-mar. Ver e ouvi-lo eram duas coisas indissociáveis. Era como se toda a beleza do universo palpitasse naquele corpo. Em segredo, apelidava-o de Paganini. Por vezes, deixava de o ouvir e passava a escutar outras coisas, como se dentro de mim algo tocasse também. Eram sonhos transparentes, sentimentos que se ligavam às notas e começavam a existir por si. Quando o vinham chamar para a aula, ele encostava o violino ao corpo, abraçando-o, e saía sem olhar para ninguém. Eu via-o desaparecer atrás da porta, sabendo que a sua música, que eu guardava numa pauta só minha, continuaria a tocar-me nos restantes dias da semana.
Nunca revelei a ninguém o significado desses momentos. E ele nunca desconfiou de nada. Hoje sei que foi ele o meu verdadeiro professor, aquele que me fez amar a música da forma como a amo agora, como a cura para uma ferida jamais curada. Um dia, deixou de aparecer. Quando ganhei coragem e perguntei por ele, disseram-me que já não viria mais, que fora admitido no Conservatório. Naqueles tempos, como dizia o poeta*, já ninguém morria de amor. Mas eu andei lá perto.

* Vasco Graça Moura / blues da morte de amor