quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ter tudo para ser feliz



Caminhamos à beira-mar, ouvindo as ondas a desfazerem-se em notas encaracoladas. Cheiram a algas e a pôr-do-sol. Começamos a falar de felicidade. Ela diz-me que tem tudo para ser feliz. É certo que a felicidade é infinita na sua multiplicidade de formas, mas não sei se a felicidade é uma coisa que se possa ter. Naquele preciso instante, para mim, felicidade é apenas uma coisa que se encapela e vaza aos meus pés. É uma coisa que confere às minhas pernas a cor das ondas.
Talvez felicidade seja mais uma perceção, uma maneira de ser. Só isso explica a razão por que algumas pessoas se consideram felizes, apesar dos embates violentos que sofrem ou sofreram. É claro que só saberemos reconhecer o que é bom se tivermos vivido o mau. Doce e salgado são os sabores que definem a felicidade, já dizia a minha avó. E se há pessoas que conferem uma dignidade e um sentido próprios ao que viveram, também é verdade que há outras que se tornam amargas, ressentidas e irremediavelmente zangadas com a vida.
Por cima das nossas cabeças, aos gritos, as gaivotas descrevem círculos. E eu penso que haverá sempre quem as olhe como um bando de aves histéricas e tontas. Mas haverá também quem reconheça nelas os legítimos descendentes de Fernão Capelo Gaivota: um símbolo de liberdade que se inscreve na vontade de romper fronteiras. 
Talvez ninguém consiga ver o que não cresceu já dentro de si...