sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A cor dos dias





Num salto, acerco-me da Dona M. que empreende uma segunda tentativa para se levantar da cadeira. Com cuidado, ajudo-a a pôr-se de pé. Aguardo que recupere o equilíbrio e coordene os passos e, de braço enganchado no dela, acompanho-a até ao quarto. Falo-lhe do calor que voltou e das árvores que começam a perder as folhas. Por fim, pergunto-lhe se se lembra do meu nome. Dona M. interrompe a marcha e fita-me, perdida nas águas escuras e silenciosas da sua memória. Desde que o marido morreu e que veio viver para o lar que não se lembra de nada que seja posterior a essa data. Recita versos e trauteia canções dos seus tempos de juventude, sabe de cor as freguesias do concelho que a viu nascer, recorda o nome de todas as crianças que ajudou a criar, mas esquece o que lhe acontece todos os dias. Com alguma satisfação, descubro um brilho lento a atravessar-lhe o olhar por trás das grossas lentes de óculos e encho-me de esperança. Um sorriso brando rasga-lhe os lábios e ela responde-me com simplicidade:
- Amiga.

:)