sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A vida é uma dança de cadeiras



Fernando era um mexicano que conheci na Alemanha. Quando não estava a preparar a sua tese de doutoramento em agronomia na clausura de uma biblioteca, brilhava no calor de uma pista de dança. Para além de exímio dançarino de Salsa, era também um mulherengo inveterado. Adorava mulheres e, honra lhe seja feita, nenhuma mulher se sentia feia ao seu lado.
As estudantes portuguesas, acabadas de chegar à cidade para um semestre de Erasmus, mal despachavam as formalidades inerentes ao novo ano letivo, logo se dispersavam dos objetivos traçados, como as pérolas de um colar que se partiu a voarem em todas as direções. Na maioria dos casos, caíam no mesmo sítio: nos braços de Fernando. Em pouco tempo, trocavam a língua de Goethe pela de Cervantes e rodopiavam na pista de dança ao sabor dos ritmos latinos, habilmente guiadas pelas mãos mornas de Fernando. Era assim todos os anos. Nunca descobri que emboscadas eram aquelas que desviavam, com reiterada eficácia, trajetos e intentos académicos, mas não havia dúvida que a missão cultural de Fernando na Alemanha ia de vento em popa.
Fernando era baixinho, tinha olhos escuros e uns lábios carnudos como cerejas. Embora não fosse um homem bonito, sabia convencer cada mulher a querer ser a melhor parceira de dança do mundo. Elas adulavam-no, veneravam-no. Pareciam incapazes de lhe resistir, qual Ulisses, na Odisseia, ao canto das sereias. Quando dançava, parecia que ensaiava um qualquer rito nupcial e, do corpo, escorria-lhe sensualidade em estado puro. Com movimentos subtis de braços e ancas, encadeava elegantemente os passos nos da companheira, fazendo-a acreditar que, naquela atmosfera fervilhante de gente desengonçada, eram apenas os dois no mundo. Ou que os dois, eram o mundo. Esbraseadas, elas soltavam suspiros que ficavam suspensos na noite que acontecia.
Mas as noites semeavam discórdias nos dias, que amanheciam com novas certezas acabadas de nascer. Todas elas queriam Fernando. E ele, que parecia ter nascido sem remorso em relação ao conceito de propriedade, gostava de todas, dançava com todas e beijava todas. Nos anais da cidade, há registos de prantos, amizades desfeitas, vestes rasgadas e segredos de comadres bichanados aos quatro ventos. Comovido pelos rios de lágrimas que eram derramados em sua honra, Fernando consolava-as como podia, com a solenidade de um bravo guerreiro, amado e desejado por todas as mulheres. E assim andava o mundo naquelas primeiras décadas dos anos noventa.
Num fim de dia de inverno, vi-o a passar na rua, rebocado por uma mulher de formas opulentas e rosto arrebicado. Na verdade, mal o conseguia distinguir. Uma manga felpuda, de pele sintética, cobria-lhe os ombros estreitos, como uma estola, e uma mão de unhas escarlates e dedos repletos de anéis apertava-lhe a face direita contra um peito empinado e farto. Pestanejei várias vezes, incrédula, mas não havia dúvidas. Era mesmo ele - mudo, apagado, soterrado, a deitar fumo pelas narinas vermelhas que assomavam para a tarde gélida. Parecia a encarnação consternada da submissão, uma presa acossada prestes a ser sacrificada. Mais tarde, vim a saber que a acompanhante dava pelo premonitório nome de Imperatriz e que era a sua própria mulher, acabada de chegar com o propósito de pôr cobro àqueles folguedos. A natureza humana tem destas surpresas. Talvez a vida seja uma dança de cadeiras. Perdão, de cadeias alimentares. Uma luta constante de estratégias para não descer na escala hierárquica da espécie dominadora. Mas, por vezes, nem o predador mais engenhoso da noite consegue escapar ao seu destino.