segunda-feira, 3 de outubro de 2016

De quem falamos quando falamos dos outros?



Gosto de prestar atenção ao discurso das pessoas quando dizem mal de alguém. Escuto as palavras acendidas num qualquer inferno secreto, avalio os trejeitos, o pastoso revirar de olhos e meço a febre palustre da maledicência. Nas narrativas mais elaboradas, desmonto a aparente boa vontade, os veredictos congeminados por um qualquer Exército de Salvação, as profecias alinhavadas à Bandarra. O que me interessa não são as inconfidências e as apreciações que maculam e comprometem a imagem de alguém. Para ser sincera, nem sequer me dou ao trabalho de estabelecer correspondências. O que me prende a atenção é, na verdade, o que aquela pessoa diz de si quando fala mal de alguém. O que ouço são as dores e os medos que, em ebulição, emergem das suas profundezas. Eu sei que a maledicência é um antídoto barato para muitos males existenciais. Mas convém não esquecer que, quando apontamos um dedo a alguém, temos sempre dois ou três apontados para nós.