sábado, 29 de outubro de 2016

Demasiadas vezes



Demasiadas vezes na minha vida lidei bem com as coisas. Habituei-me a resolvê-las. Creio que não exagero se afirmar que sempre fui assim. Tomei muitas vezes conta da minha mãe. Talvez demasiadas. Defendi muitas vezes o meu irmão quando este se metia em confusões próprias da idade. Por ele, enfrentei rapazes que tinham o dobro do meu tamanho e nunca tive medo. E ele fez o mesmo ou mais por mim. Aconselhei amigas, consolei tristezas, abracei muito. E fui também abraçada. Olhei por muita gente. Às vezes, sentia um peso, um lago escuro e gelado na barriga. Mas dizia com os meus botões: “Está tudo bem. Tu és forte”. Acho que foi assim que me convenci que era. E ainda hoje acredito que sou. Também tive muitas pessoas que cuidaram de mim e me amaram. Dar e receber é um eixo delicado e eu acho que sempre consegui mantê-lo equilibrado. Mas quando penso na minha vida, acho que vivi demasiadas vezes nessa espera tépida que é a sensatez. E a sensatez em demasia protege-nos de nós mesmos. Faz-nos morrer antes de realmente morrermos. Sem saber, corri perigo de vida. Distraída que andei a tentar ler o coração dos outros, esqueci-me demasiadas vezes de escutar o meu. E ele quase que deixou de me responder.