domingo, 23 de outubro de 2016

Miado em sol menor



Esta manhã, acordei decidido a dar um novo alento à minha sétima vida. Animado pela perspetiva de que cada dia traz uma oportunidade de inauguração de um novo sentido, fui passear. Percorri ruas e vielas, tentando convencer-me de que aquilo em que decido não pensar não existe. Escutei o rumorejar das folhas das árvores e contemplei a cidade a acordar, do cimo do edifício mais alto. Mas os pensamentos, que vêm sempre de trás, como o vento, logo me levaram de volta ao rio caudaloso e fervilhante das minhas dores. Não consegui acertar o passo com o mundo e encontrei pouca alegria na erva que cresce à beira dos caminhos. Tudo me falava da minha tristeza.
Voltei para casa, derrotado e despenteado, sentindo-me incapaz de escapar ao meu destino de ser curvado sobre a terra, dobrado sobre o próprio umbigo. Diante da janela, de onde vejo o mundo a girar, compreendi que nem o telhado mais alto da cidade me fará erguer sobre as patas traseiras. Lembro-me de miss Smile citar os romanos nas várias vezes que falava comigo (ao contrário do que muitos pensam, os idosos não falam sozinhos), referindo que, para estes, um ser cultivado era aquele que sabia escolher os seus pensamentos. Ah, se eu conseguisse dominar os meus pensamentos com a mesma facilidade com que capturo moscas!
Talvez a liberdade seja uma coisa que só existe dentro de nós e ninguém consiga atingir o autodomínio absoluto ao ponto de ser totalmente livre. A verdade é que ninguém escreve a história da sua vida sozinho. Muito menos um gato com sete vidas.


 

   Artur (também conhecido por Biju)