domingo, 30 de outubro de 2016

O colar de pérolas



Conversava amenamente com o senhor António, quando Dona Carlota entrou na frutaria, frágil e quebradiça. Vinha impecável, como de costume. Trazia um vestido preto, sóbrio, que a fazia parecer ainda mais magra e, à volta do pescoço envelhecido, um colar de pérolas. Nas mãos de dedos finos, irrepreensivelmente arranjadas, segurava um saco de pano e o porta-moedas. O rosto pálido, a contrastar com a moldura bem penteada do cabelo pintado de preto, vinha debruado de tristeza. Passou por mim e um perfume de rosas espalhou-se pelo ar, lembrando-me que todos os cheiros têm uma história que lembra uma flor. Encaminhou-se para o fundo da loja numa sequência de passos miúdos e o senhor António apressou-se a ir ajudá-la, sempre palavroso. De braços caídos, numa ausência que se derramava pelo corpo todo, Dona Carlota deixou-o escolher as laranjas mais sumarentas, as peras mais maduras, as maçãs mais vermelhas. No fundo da loja, esvaziada de luz, as sombras do seu rosto alongaram-se ainda mais, fazendo brilhar uma tristeza que dava para cobrir o mundo. A sua história é conhecida. Num curto espaço de tempo, levou a enterrar o marido e o filho. Ficou sem ninguém no mundo. E sem Deus. Nunca ninguém lhe viu uma lágrima ou ouviu um lamento. Com uma dignidade muda, Dona Carlota resguardou o seu sofrimento de todos, talvez sabendo que não há mais nada que se possa dizer ou, simplesmente, que há perguntas que não têm resposta para além do reconhecimento da sua falta de sentido. Acho que foi esta a forma que escolheu para se deixar morrer. Agora, no lugar de uma vida, existe apenas uma boca que engole saliva, um olhar que pousa no chão, porque não há mais frente para olhar, um corpo que se veste bem e se arranja, como os defuntos que, na morte, usam os seus melhores fatos.
O senhor Manuel regressa para junto da caixa registadora e, com gentileza, equilibra os sacos de laranjas, peras e maçãs no prato da balança. Dona Carlota aguarda em silêncio, metida no seu corpo sem ela. De súbito, um susto. Dona Carlota leva a mão ao pescoço, atordoada, os olhos a piscar, os lábios a tremer como se fosse chorar, vendo as suas pérolas a espalharem-se estrepitosamente pelo chão. Então, o senhor António e eu curvamo-nos e, juntos, recolhemos, uma a uma, as pérolas da Dona Carlota, redondas e escorregadias, como lágrimas geladas.


21 comentários:

  1. É uma história triste, Miss Smile... Muitas vezes, e por mais estranho que possa parecer, também a dor é um refúgio.

    Deixo-lhe um beijo. :)

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    1. É muito triste, sim, Alaska. Mas há tanta dor à nossa volta. Por vezes, esta é mesmo o único refúgio…

      Um beijinho e um bom domingo :)

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  2. não lhe venho dizer que gosto de a ler, porque isso a Miss Smile já sabe. o que venho é por a minha conta de beijos em dia, que lhe devo muitos! beijos, muitos, minha doce Miss :)


    (e agradecer por me ter recordado da poesia bela de Daniel Faria, no post dedicado à Teresa mais bonita do universo e Alentejo :)

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    1. Pois que venham eles, querida flor, que eu já aqui estou de pescoço esticadinho, pronta para recebê-los :)

      Tem razão, foi uma sorte termos conhecido a Teresa mais bonita do universo e do Alentejo :)
      Mas eu e ela (tenho a certeza que a Teresa pensará da mesma maneira) também tivemos sorte em conhecer a flor mais bonita do jardim :)

      Um abraço apertado :)

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  3. Querida Menina Sorriso, uma vez mais me deixou com os olhos humedecidos e de coração apertado, mas enlevada - como sempre - por tão belo relato de uma dor profunda, como o mar.
    Quem tudo perdeu, só lhe resta a força para conservar a dignidade, escondendo, do olhar alheio, a sua perda irreparável.

    Um bom Domingo, querida Miss Smile.

    Um beijinho com ternura. :)

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    1. Exatamente, querida Janita.
      O que é que dá dignidade a um ser humano? Eu acho que é precisamente a sua capacidade de reserva.

      Um beijinho grato e votos de um domingo feliz :)

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  4. Papoila, peço desculpa, mas eliminei o seu comentário sem querer.
    Concordo consigo - quanto maior é a dor, maior é o silêncio. E, sim, há sombras de tristeza em todos os rostos.

    Um beijinho e um bom domingo :)

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  5. As pérolas talvez fossem os beijos que ficaram por dar nos entes que partiram. Pobre, D.Carlota, tão só.

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  6. A D. Carlota parece ser uma pessoa com muita força.
    Ainda bem que há quem a conheça e se preocupa com ela, como o Sr. Manuel e a Miss Smile.
    um beijinho

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    1. Infelizmente, não é possível ajudá-la muito.

      Um beijinho, Gábi, e uma boa noite :)

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  7. Gostei muito do texto e de a ver regressada ao nosso convívio.
    Beijinhos, boa semana

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    1. Muito obrigada, Pedro.

      Um beijinho e uma boa semana :)

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  8. Linda a sua maneira de contar a história. Fico ainda assim com a esperança de que uma maçã madurinha e vermelha, escolhida com o carinho do Sr- António lhe dê algum gosto de viver.

    Quando estive no hospital da Cruz Vermelha, uma das enfermeiras contou-me que uma velhota de 90 anos que tinha dormido ali as últimas noites da filha tinha ficado absolutamente sozinha depois dela partir. Gostamos brincar em família dizendo que o mesmo da minha mãe que já vai nos 88, forjou-se na resiliência, enquanto nós que parecemos tão fortes, somos afinal mais frágeis.

    ~CC~

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    1. A verdade é que não somos todos iguais. Talvez o que importe não é o que acontece, mas o que acontece dentro de nós com aquilo que nos acontece.

      Um abraço, CC

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  9. mais um relato pungente, Miss Smile. apesar das palavras carregadas, é sempre bom verificar, que há de novo "notas de chá". um bom dia e boa semana.
    Um beijinho,
    Mia

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    1. Obrigada, Mia. Estes são os meus desabafos, sempre acompanhados de uma chávena de chá :)

      Um beijinho

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  10. que triste mas que bonito...
    beijinho

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    1. É muito triste, sim...

      Um beijinho, Laura

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  11. A dor também é uma forma de perpetuar o amor, minha querida amiga.
    Aproveito para te dizer que a poesia é um caminho de paz.
    Espero te bem.
    Beijo com estima e amizade.

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    1. É verdade, Sandra. Às vezes, é a única forma que resta de perpetuar o amor.
      Eu também acredito que a poesia é um caminho de paz e de reconciliação. A poesia humaniza-nos e cura-nos da apatia e sonambulismo dos horários e rotinas quotidianas.

      Um beijinho, querida amiga :)

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