quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Bacalhau com crosta budista



Esta manhã, estava eu a dormitar na poltrona de veludo, quando me tocam à campainha, fazendo-me disparar o coração. Seria a Smile? A outra que por aqui costuma aparecer traz sempre chave. Não perdi tempo e corri logo para a porta, atrás do coração que me saltara do peito. Espreitei pelo olho mágico da porta e vislumbrei uma densa espiral de fumo que ocultava um rosto emoldurado por uma melena lilás. Era ela! Enigmática e misteriosa, fumando um cigarro, qual Lauren Bacall nos filmes com Bogart! Com um calafrio a percorrer-me o estômago, abri a porta de rompante, disposto a saltar para os braços da minha miss. Mas a vida é cruel com aqueles que amam e, diante de mim, tinha a vizinha do lado, com uma posta de bacalhau cozido a fumegar num pires. Estendeu-me o prato na direção do focinho e uma faixa de vapor enrolou-se-me à volta do corpo, como uma ligadura de algodão.
- Trouxe-te o almocinho, gatinho! – disse-me, de pescoço esticado e olhos a saírem-lhe das órbitas, ávidos por entrar pela casa adentro, espreitar debaixo das camas, revirar gavetas e, quiçá, bisbilhotar a delicada lingerie de miss Smile.
- A Smile ainda não voltou? – perguntou, com uma insensibilidade que me magoou, como se a miss Smile fosse uma mera ave migratória.
Soltei um miado agoniado que dispensa aqui travessões. É uma no cravo e outra na ferradura, pensei. Gatinho, toma lá uma postinha de bacalhau e, já agora, consola-te também com um punhado de sal grosso nessa tua ferida em carne viva [ler esta frase com voz esganiçada]. Senti uma incontrolável vontade de lhe arranhar as pernas e ainda levantei uma das patas, mas consegui refrear o impulso a tempo e fingir que apanhava uma mosca. Decidi não comprometer a refeição e degustar a postinha de bacalhau que, entretanto, me pusera a barriga a dar horas. Afinal de contas, não havia nada a fazer, o caldo já estava entornado e a ferida imersa em salmoura. Como dizia o meu avô materno, que era budista e que atingiu o Nirvana dos gatos, se o que te faz sofrer é a tua resistência à realidade, enfrenta-a, então, com estoicismo. De preferência, de barriga cheia, acrescentaria eu. Miau!


 
  (Artur)