quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O bilhete



De um momento para o outro, o seu mundo desabara, deixando-a de parte, à distância do curso quotidiano da vida. Agora que tudo terminara, que nada mais havia a fazer, entrava em casa, que lhe parecia estranha, como se já não lhe pertencesse. Não havia formas, não havia cores, apenas restava o ar e o silêncio. Vivera os últimos três dias suspensa entre veredictos médicos, esperas infindáveis, sensações de vazio na barriga, falta de ar e um desespero contínuo que lhe enfraquecia os joelhos e penetrava na alma como uma lâmina. O caminho estreitara-se e deixara de ser possível inverter a marcha. Acontecera o que não podia acontecer. Fora tudo tão rápido que parecia irreal. A ambulância, a sirene, o gabinete das urgências, ele inconsciente na maca, a sala de espera, que ela recusara abandonar, a esperança a morrer a cada nova hora, a cada conversa com os médicos. Não tivera sequer tempo para chorar. Guardava as lágrimas ainda quentes debaixo da pele. A filha ficara agora a tratar de todas as formalidades. Mandara-a para casa, ordenando-lhe que descansasse, tomasse um banho e comesse alguma coisa. Mas ela não tinha fome. Só de pensar em comida, sentia vontade de vomitar. Atingira o estado derradeiro de si mesma, que era apenas a forma mais dolorosa de tudo o resto. A dor nunca é como a imaginamos, pensou, e talvez o pior ainda estivesse para vir. O buraco negro em que se encontrava, sem perceber verdadeiramente o como e o porquê, protegia-a do peso esmagador, feito de chumbo, da irreversibilidade das coisas. A casa estava fria, ou era ela que estava. Pouco importava. Pôs uma chaleira com água ao lume, fez um chá e sentou-se. Na cadeira, estava o casaco que ele ali pendurara minutos antes de aquilo acontecer e, sobre a mesa, um bilhete. Fechou os olhos, abrandou a respiração e, não conseguindo mais reprimir as lágrimas que lhe caíram dentro da chávena, transformando o chá em sal, leu o que há três dias considerara necessário: flocos de aveia, maçãs e manteiga.

[Para a minha tia B.]