domingo, 6 de novembro de 2016

O espelho




A chuva caía persistente, tamborilando na chapa dos carros estacionados. Ela caminhava com cuidado para não escorregar na calçada que brilhava à luz do candeeiro da rua. Sentia um cansaço dorido que lhe pesava há meses. Queria chegar a casa, despir-se do dia e adormecer à volta de si. Levou a chave à fechadura e entrou. Sobre a mesa da cozinha, o prato com o resto da torrada da manhã jazia sobre a mesa ainda por levantar, como o silêncio da casa vazia. Sem se dar ao trabalho de acender a luz, deixou-se cair sobre uma cadeira e descalçou os sapatos. O vento chorava contra os vidros da janela e, lá fora, perigosamente debruçada sobre o parapeito, uma mulher de cabelos esvoaçantes recolhia a roupa molhada. Aos poucos, as janelas do prédio da frente iam-se iluminando e enchendo de vultos e de histórias. Os filhos voltavam para as mães, os casais abraçavam-se e as famílias reencontravam-se à volta da mesa. Era a vida que acontecia do lado de fora da sua janela. Ao cair da noite, quando as luzes se acendiam, uma dor vinha-lhe assombrar o espírito, como uma alma do outro mundo. Sentiu uma perna dormente e levantou-se. Se ao menos fosse o coração...
Apalpou o caminho até à casa de banho. Premiu o interruptor e a divisão apresentou-se-lhe despida e fria na sua estridência luminosa. Pôs-se em bicos de pés para se ver no espelho que ele afixara por cima do lavatório, quando se mudara para sua casa. Como era um homem muito alto, sentira necessidade de subir consideravelmente a altura do espelho. Ela não se importara, apesar de só se conseguir ver até ao nariz. Brincara até com a situação, afirmando que tinha uma boa desculpa para não usar batom. Esse fora o primeiro de uma implacável sucessão de erros de cálculo. Começara por viver numa aquiescência de tudo, certa de que isso o faria adorá-la. Mas ele agigantara-se, vivendo cada vez mais em torno da própria órbita. Ela habituara-se a pedir pouco, a não precisar de nada, acreditando que, nessa infindável abnegação de si, o amor multiplicaria mais pontos. Tudo fizera para se enquadrar nessa moldura inatingível, ignorando que comprometia irremediavelmente o delicado sentido das proporções. Mas a verdade era um relance que acontecia tarde demais. O amor não era uma fórmula matemática e, à falta de amor-próprio, nada havia para multiplicar. Por isso, quando já pouco restava dela, ele fora-se embora, maior do que ele mesmo.
Em pontas, com o corpo todo esticado, suportou com coragem o seu rosto refletido pela metade: os cabelos escorridos, sem volume e brilho, a testa macilenta, as olheiras cavadas pelo cansaço sem sono, a rejeição afivelada ao olhar. Ali estava ela, magoada, partida, sem boca. Pela primeira vez em meses, via-se com os próprios olhos, sem receio. Desfranziu a testa e ensaiou um sorriso que não viu, mas que os olhos lhe devolveram prontamente. Gostou daquele novo olhar. Os pequenos estragos inscritos no rosto tinham solução. Um bom corte e uma maquilhagem adequada fariam milagres. Mais difícil seria reparar o coração, mas acabaria por descobrir um caminho. Abriu a torneira da banheira e o ruído da água a jorrar encheu a casa. Regressou à cozinha e, pelo caminho, acendeu todas as luzes. Voltou com uma cadeira e subiu para cima dela. A casa de banho era agora uma fina nuvem de vapor. Com cuidado, retirou o espelho da parede. Estava embaciado, como o secreto mistério da vida. Depois, tirou a roupa e imergiu na água quente, sentindo o calor a circular progressivamente nas veias. Agora que readquiria o peso e a responsabilidade do seu corpo, sabia-se vitoriosa. Seguiria o destino de todas as mulheres. Renasceria.


24 comentários:

  1. Querida Miss Smile.

    É entre um sorriso, e a lágrima que me tolda o olhar, que escrevo estas poucas palavras. Este texto penetra fundo na alma de qualquer mulher, quer se reveja no texto quer não. Fico-lhe infinitamente grata por este doce sentimento de alívio que sinto inundar-me por dentro.
    Um beijinho.

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    1. Querida Janita, eu é que agradeço a sua presença atenta e o seu comentário. Muito obrigada :)

      Um beijinho

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  2. uma Fénix! muito bom, li a correr, sôfrego, com medo de perder algum bocado...
    beijo Miss Smile

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    1. Uma Fénix, como todos acabamos por ser um pouco. Obrigada, Manel.

      Um beijinho :)

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  3. "As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
    E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos"

    Daniel Faria

    :)

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    1. "As mulheres aspiram para dentro
      E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
      Elas arrumam a casa
      Elas põem a mesa
      Ao redor do coração."

      Daniel Faria

      Um beijinho, querida flor :)

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  4. Quando decidiu sorrir para si mesma, dominou o espelho. :)

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    1. Talvez porque percebeu que era com ela que tinha que ter primeiro um caso de amor :)

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  5. É este o enorme poder da maioria das mulheres, o de renascerem das cinzas. Que texto com alma Miss Smile. Beijinho

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    1. Talvez esse poder não seja exclusivo das mulheres, mas penso que nós, mulheres, o fazemos com mais elegância :)

      Um beijinho, GM, e obrigada :)

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    1. Muito obrigada, Pedro.

      Um beijinho e uma boa semana

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  7. Adorei! Os meus parabéns!
    Beijinhos

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  8. Querida Miss Smile;
    Quando leio, vejo ou sinto algo que me emociona, arrepio-me, foi o que me aconteceu quando acabeis de ler este seu profundo texto.
    As mulheres renascem sempre, mesmo quando pensam que não, acho que é este o nosso segredo.

    Um grande beijinho

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    1. Eu também acredito que sim, querida Fê.Foi por esse motivo que não atribui nenhum nome à personagem, pois ela poderia ser cada uma de nós. Somos guerreiras :)

      Outro grande beijinho

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  9. que grande mulher esta.
    e que grande Miss Smile por nos dar estas palavras em forma de arte...

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    1. É grande, sim, porque sabe superar-se.

      Obrigada, Laura, um beijinho

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  10. venho aqui e abro páginas, e encontro espelhos :)
    obrigada, Miss.
    beijo

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    1. :))
      E eu gosto muito de ler as tuas páginas e de me ver nos teus espelhos!

      Um beijinho, ana

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    2. Minha amiga, o teu texto reflete muito sorrisos renascidos. A mulher, e falo no sentido lato, tem uma grande capacidade de regeneração. Ainda que nos tenham como "sexo fraco", sei que esse chavão machista em nada condiz com a realidade. A mulher é um ser admirável, que depois de renascida das cinzas, mais bela e esplendorosa fica.
      Belo texto. Deixo um sorriso franco e genuíno para ti e um beijinho com muito carinho.

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    3. As mulheres - metade da humanidade - têm realmente esse poder de regeneração. É verdade que há acontecimentos da vida que estão para além da nossa capacidade de os controlar, ou até de resolver, mas há sempre um ímpeto, uma força, que nos faz levantar do chão novamente. Talvez a vida seja um movimento circular de valsa. Os pares mudam, as circunstâncias mudam, nós mudamos, mas o movimento é sempre circular. Afinal, quantas vidas cabem numa?
      Talvez não nos reste mais nada senão dançar, dançar, dançar. caso contrário, e citando Pina Basch, estaremos perdidos.

      Um beijinho com amizade, querida Sandra :)

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