sábado, 26 de novembro de 2016

Os meus sábados



Os meus sábados têm muita gente. São agitados, rápidos, como a saia rodopiante de uma bailarina. O sábado é o dia de acordar cedo (como todos os outros, de resto), tomar o pequeno-almoço fora, comprar fruta e legumes na frutaria do senhor António e, em seguida, ir a correr visitar os meus velhinhos. O sábado é o dia em que preciso do meu sorriso mais lustroso. Há tanta gente, tantas vidas, tantas vozes a pedir mais do que as palavras dizem, talvez um pouco de felicidade, embora eu não saiba onde ela se encontra.
À chegada, cumprimento o senhor V. que vem sempre ver a mãe e lhe acaricia, em silêncio, as mãos deformadas pela artrite, os dedos hirtos sem nada para agarrarem. Ofereço o meu melhor sorriso à Dona E. que, de ombros caídos, encolhidos, espreita sem nada ver pela janela, a pensar no marido que morreu há um mês. Sento-me ao lado da Dona M. que, no mesmo dia em que a filha lhe contou que iria ter mais um neto, o médico lhe estendeu o resultado da biopsia e lhe disse “quimioterapia”. Por baixo de todas as peles, aveludadas e rugosas, de todos os silêncios, está carne vulnerável, gelo quente de uma vida intensa. Às vezes, canto em surdina e faço de conta que sou forte. Disfarço a minha impotência, a tristeza que se cola ao céu-da-boca e me embacia o olhar. O sábado é o dia em que tomo verdadeiramente consciência da minha pequenez, da minha insignificância, do pouco que posso fazer. A verdade é que são estas pessoas que me ajudam e eu abençoo-as por isso. Desejo, com todas as minhas forças, que consigam ainda ouvir o amor na voz de uma mãe ou de um pai que recordam com saudade, e que isso as reconforte um pouco.
De volta a casa, a presença dos meus filhos ao almoço, como o clarão inesperado de um arco-íris, ajuda-me a suportar a dor do que não posso alterar. Mais tarde, são os seus amigos que chegam e que ficam. São as suas risadas, umas por cima das outras, como castanholas alegres, que enchem a casa e me trazem novos tons à alma. Os meus sábados são cheios de palavras. E de pessoas. Apenas preciso de ouvidos diferentes para as saber escutar.

[Este blogue faz hoje dois anos e eu estou dois anos mais nova (sim, que isto dos blogues rejuvenesce). Nestes dois anos, muita coisa aconteceu. O registo foi mudando, perdi alguma da minha alegria infantil e, isso, talvez não seja bom, não sei, mas tenho tentado manter-me fiel ao lema Miss, smile. Não esqueci o contorno das pessoas que fizeram este caminho comigo. Há afetos que nascem com a escrita. E esses, quer queiramos quer não, ficam para sempre gravados nas linhas que escrevemos. Um blogue respira vida quando tem gente dentro, como os meus sábados. Muito, muito obrigada a todos os que, ao longo destes dois anos, não me deixaram aqui a falar sozinha 💓]


48 comentários:

  1. minha querida Miss Smile,

    há uma leitora grata do lado de cá, desejando continuar a lê-la por muitos mais anos.

    um abraço caloroso

    «Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
    Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
    Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.»

    Manoel de Barros

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    1. Minha querida Flor,

      Tão lindo :) Muito, muito obrigada!

      A infância é um lugar sempre possível, um lugar tão vasto como o céu que tenho por cima de mim.
      E eu, que também adoro o que escreve (quem me dera saber escrever assim!), deixo-lhe este poema de Manoel de Barros, do menino que carregava água na peneira, que podia ter sido escrito para si. Um abraço apertado.

      “Tenho um livro sobre águas e meninos.
      Gostei mais de um menino
      que carregava água na peneira.

      A mãe disse que carregar água na peneira
      era o mesmo que roubar um vento e
      sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

      A mãe disse que era o mesmo
      que catar espinhos na água.
      O mesmo que criar peixes no bolso.

      O menino era ligado em despropósitos.
      Quis montar os alicerces
      de uma casa sobre orvalhos.

      A mãe reparou que o menino
      gostava mais do vazio, do que do cheio.
      Falava que vazios são maiores e até infinitos.

      Com o tempo aquele menino
      que era cismado e esquisito,
      porque gostava de carregar água na peneira.

      Com o tempo descobriu que
      escrever seria o mesmo
      que carregar água na peneira.

      No escrever o menino viu
      que era capaz de ser noviça,
      monge ou mendigo ao mesmo tempo.

      O menino aprendeu a usar as palavras.
      Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
      E começou a fazer peraltagens.

      Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
      O menino fazia prodígios.
      Até fez uma pedra dar flor.

      A mãe reparava o menino com ternura.
      A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
      Você vai carregar água na peneira a vida toda.

      Você vai encher os vazios
      com as suas peraltagens,
      e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!”

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  2. Querida Miss Smile.
    Do mais fundo do coração desejo que os seus sábados continuem a ser povoados por sorrisos brilhantes, risadas felizes, mãos aveludas de velhinhos gratos, e que todos os seus dias sejam felizes, a dar e a receber sorrisos e ternura.
    Parabéns, pelos dois anos a encantar todos quantos a lêem, embora eu seja amiga recente, sinto por si um enorme carinho. Algo que não dá para explicar...

    Um beijinho enorme, querida Miss. :)

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    1. Querida Janita, acredite que o carinho é recíproco. Já ouviu falar de parentescos interiores? :) Há corações que são da mesma família.

      Um beijinho e muito obrigada

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    2. "Parentescos interiores e corações da mesma família"...Nunca me tinham dito nada tão belo!:)

      Sinto-me imensamente grata e feliz por saber que sente o mesmo que eu. O carinho retribuído é uma dádiva do Céu!

      Um beijinho (comovido) e um grande abraço. :)

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  3. Miss Smile continue a sorrir, continue a escrever, continue com as suas visitas a quem está mais só. Será abençoada por isso, tenho a certeza. Um grande abraço e um bom domingo.

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    1. Benó, vamos vivendo e sorrido, tendo diante de nós o desconhecido. Mas de uma coisa tenho a certeza, tudo o que fazemos pelos outros, fazemo-lo também (ou sobretudo) por nós.

      Outro abraço e um bom domingo

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  4. Miss, eu havia de dizer que te leio há muitos mais anos...
    que bom!
    obrigada, por estares aí.
    beijo

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    1. Querida ana, sabes que eu tenho exatamente a mesma sensação? Quando te leio, lembro-me de uma música esquecida, que sei que existe em mim, mas que o rodopio dos dias tantas vezes me faz esquecer. Tu escreves a vida com maiúsculas. Muito obrigada.

      Um beijinho

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  5. Cheguei tarde...mas prometo ficar, assim continue a escrever.
    ~CC~

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    1. Não vem tarde, CC. Encontramo-nos quando faz sentido encontramo-nos e esse é sempre o momento certo. Gosto muito de a ler.

      Um abraço

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  6. Bem haja Miss Smile, os sorrisos, as palavras, as mãos que nos dás sempre que vimos aqui. Eu sabia, eu sei que és especial. Beijo grande :)

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    1. GM, especial és tu que nos mostras todos os dias a arte da superação. E que a autenticidade é um valor importante.

      Outro beijo :)

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  7. Lamento não ter chegado no dia próprio, mas estou com muitos problemas no meu PC...

    Querida amiga, em primeiro lugar, as minhas carinhosas congratulações pela efeméride...
    A mensagem de hoje deixou-me um grande contentamento por verificar que abandonou a ideia de desistir do blogue, o que seria um sacrilégio, pois, acima de tudo, é uma excelente herança que deixará aos seus vindouros.
    Que o evento se repita por muitos longos anos e que eu ande por cá a deliciar-me com a leitura e a trocar cumprimentos e felicitações...
    Beijinho e um abracinho muito terno.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Os amigos chegam sempre a tempo, querida Majo :)
      Muito obrigada pelas suas sempre gentis palavras. É verdade, ainda por aqui ando, mas nada é permanente. Será até durar :)
      Ė um prazer visitar o seu blogue, que me tem dado a conhecer ou a aprofundar nomes e lugares que desconhecia.

      Um beijinho e um abracinho calorosos

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  8. Parabéns e muito anos a sorrir e fazer sorrir é que lhe desejo genuinamente.
    Eu é que sou grato, Miss Smile, pelas magníficas notas de chá puro que aqui me tem servido ao longo destes dois anos. Obrigado.
    Abraço

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    1. Eu é que me sinto honrada por fazer parte do seu leque de leituras, Impontual. Aproveito também para lhe dizer que aprecio muito a delicada e subtil filigrana de ironia e lucidez que entrelaça nas suas sempre certeiras impontualidades.

      Um abraço

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  9. Que venham muitos mais dois anos.
    Beijinhos, boa semana

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    1. E que venham muitos mais anos de excelentes Devaneios a Oriente :)
      Muito obrigada, Pedro.

      Um beijinho

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  10. Boa tarde, sábado atarefado mas com gosto, parabéns pelos dois anos de boas publicações, que venham mais 20 anos no mínimo.
    Boa semana,
    AG

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    1. E que o António continue por muitos anos a brindar-nos com as suas belas fotografias!

      Que venham, então, mais 20, no mínimo! Como esta coisa dos blogues rejuvenesce (é a minha teoria), estimo que o Notas de Chá será, daqui a duas década, um Baby Blog :)

      Obrigada e uma boa semana

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  11. Sabe, quando for grande quero ser como a Miss Smile. Conseguir ver na escuridão um ponto de luz, mesmo quando ele lá não está. Imaginar um. E pintar outros. Eu falho tantas vezes... Perco sempre contra a dor.

    Gosto assim muitooo de si.

    Deixo-lhe um beijo no coração. :)

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    1. Querida Alaska, aqui que ninguém nos ouve, a Miss Smile é muito melhor do que eu. É ela que consegue ver pontinhos de luz no escuro. Eu falho demasiadas vezes. Mas com ela tenho aprendido que, só continuando e persistindo, é que podemos aprender a errar melhor.

      Não deixe de espalhar beleza e sensibilidade, que tanto bem nos faz.
      Também gosto muito de si.

      Um beijinho :)

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  12. Miss Smile, só espero que venham mais anos. :)
    pela parte que me toca, não arredo pé.
    um grande beijinho

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    1. E eu gosto muito de a ter por cá :)
      Também não arredo pé do seu sítio das pequenas coisas, que a Laura sabe converter em grandes.

      Um grande beijinho :)

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  13. Miss Smile, não podia ficar indiferente a este testemunho de vidas que esperam, recordam, que vive, num presente recheado de pretérito. os meus sábados são passados da mesma forma,assim como os dias da semana. estou muito próxima dessa realidade e todos os dias me custa encará-la.
    depois v~em outros momentos que enchem o nosso quotidiano e que,
    uma vez bem vividos já dão um ânimo capaz de nos fazer grandes.
    os aniversários são para assinalar, mas não desta forma tão pequenina. esperamos nova efeméride com o ambiente do costume: chá e boas conversas.
    um beijinho,
    Mia

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    1. Há muitas pessoas no nosso país cujos dias passam devagar, muito devagar. Algumas, quero acreditar que muitas, são acarinhadas pela família que as visita regularmente, mas existem outras, talvez demasiadas, que são arrumadas em prateleiras, esquecidas, escondidas da vista e do coração da sociedade, que todos os dias festeja a ilusão da eterna juventude. Conviver com esta realidade, com o sofrimento, a doença, a solidão e a degradação física e psicológica do ser humano é muito duro, mas é uma realidade que, um dia, será também nossa. Estamos todos no mesmo barco. Uma palavra amiga, um ouvido atento (mesmo quando ouvimos a mesma história pela terceira ou quarta vez), um sorriso, um rasgo de alegria são pequenas coisas que podem ter um grande impacto na vida de quem já desistiu de ter esperança. Agora, é preciso que cuidemos também de nós. Temos de ir buscar ânimo e força a algum lado.
      Comparativamente ao conteúdo dos meus sábados, o aniversário do blogue, que calhou a um sábado, parece-me realmente uma coisa pequenina, digna de rodapé, mas que, ainda assim, quis referir.

      Um beijinho, Mia, e muito obrigada pelo seu comentário

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  14. Muitos mais espero que some aos dois, em qualquer registo que se sinta confortável, pois sei que será sempre um enorme prazer passar por aqui para beber as palavras, como uma fonte fresca interminável.

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    1. Manel, este comentário é quase poético :)

      Seria bom que todos cá estivéssemos nos próximos anos, a escrever, a trocar ideias, a inspirar-nos uns nos outros. A blogosfera é uma coisa bonita quando existe respeito, responsabilidade e liberdade. Para mim, é uma história que ainda mal começou (continuo sem perceber de onde vieram os 497 posts que publiquei até à data) e que não sei quando acabará.
      Manel das Tormentas, tu trazes bonança à blogosfera. É um prazer ler o que escreves – as palavras e as entrelinhas :)

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  15. Cá estarei na minha escarpa
    a visitar os seu textos
    Venham mais cinco

    Bj

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    1. E eu cá estarei para, da minha janela, ver o mar, ora picado, ora liso e calmo, como uma película brilhante. Sempre inspirador.

      Um beijinho

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  16. Querida Miss Smile:

    Ontem vim aqui, mas não consegui escrever... a sua escrita tem este poder sobre mim.
    Os seus sábados são preenchidos com Luz, a que dá e a que recebe, por isso são luminosos e inspiradores para quem tem o privilégio de conviver consigo.
    E nós embora virtualmente, sentimos a sua presença luminosa.
    Bem-haja !

    Um beijinho de parabéns!

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    1. Obrigada, querida Fê. Luminosa e inspiradora é a Fê, que coloca o melhor de si nas palavras que publica. O seu espaço irradia harmonia, beleza e luz. Sinto-me muito bem quando a visito.

      Um beijinho

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  17. Eu nem sempre venho nos dias certos mas quando venho sei que é dia de prazer certo.
    Parabéns, Miss Smile. :)

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    1. E é bom não haver dias certos na blogosfera que, na minha opinião, deve ser um espaço de liberdade - lemos quem queremos, quando queremos.
      Eu é que lhe agradeço, Luisa, todas as atenções que teve para com este blogue. A Luisa foi uma das primeiras a colocar este blogue na lista de leituras do seu. E acredite que me senti muito honrada. Gosto muito do seu blogue - dos textos, das fotografias, do sentido de humor, da poesia e, acima de tudo, da sua atitude na blogosfera.

      Um beijinho e obrigada por tudo :)

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  18. Parabéns atrasados e espero que continue sempre a sorrir, aqui no blogue ou fora dele.
    Tenho andado um pouco ausente, mas apenas por falta de tempo. Venho aqui, à Net, vou a alguns blogues e sem querer acabo por deixar para o fim alguns e isso repete-se todos os dias, acabando por deixar para o fim, sistematicamente os mesmos. Não é por mal, apenas por acaso.

    Gostei imenso do seu texto. Faz-me pena que os velhinhos tenham que ficar assim confinados ao espaço de um lar. As pessoas idosas precisam de gente mais nova em volta delas, precisam de estar ocupados para não pensarem na morte, que inevitavelmente chegará, e não ficarem deprimidos.

    A Miss Smile é uma boa pessoa que pelo que me pareceu faz trabalho voluntário.

    Beijinhos e resto de bom dia de feriado:)

    Agora vou dar uma espreitadela lá para trás.

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    1. Isabel, que bom vê-la por aqui :)
      O tempo é um bem raro e precioso. Compreendo-a perfeitamente, pois eu padeço do mesmo mal. Espero que, no entanto, continue a ter tempo para as fotografias e as palavras daqui e dali :)

      Um beijinho, Isabel e obrigada :)

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  19. Antes de mais quero dar-te os parabéns por estes dois anos de blog e manifestar a mina alegria por fazer parte deste cantinho que tantos sorriso dão à minha alma. Conheci-te graças á nossa amiga Carmem ( há muito que nao aparece lá do outro lado do sol..) há pouco tempo, mas nesse pouco tempo, muito tenho recebido de ti através das mensagens lindas e de grande reflexão que vêm nos teus belissimos textos. Muito obrigada, miss smile! Os reus Sábados são cheios, de muito trabalho, mss, lendo o que escreveste sobre eles, tenho a certeza que voltas a casa com o coração aconchegado pelo que deste a essas pessoas que já perderam a capacidade de sorrir. Dou graças à vida por permitir que os meus pais continuem na casinha deles, com todos os cuidados de saúde lá mesmo prestados por pessoas carinhosas que também lhes fazem companhia. Terça feira passada fui passar a tarde a casa de uma minha tia; ficou paralisada da cintura para baixo depois de um AVC e há ano passa os dias dela reclinada num sofá ou na cama. Perdeu o marido há um ano e ali ficou ela sozinha, sem poder sequer virar-se A filha não mora com ela, mas, desde que o pai faleceu, tem de passar o dia com a mãe e também dormir lá, o que é um problema, pois tem marido e precisa de ajudar um dos filhos, cuidando da netinha. Sempre que lá vou, venho abalada por ver aquela senhora dentro de um quarto ( preparado p a situação ), sem poder sair por causa do frio; chora muito a perda do marido que era o seu suporte, era os movimentos que não tem, era a sua companhia. Penso que soube fazer amigos, pois sempre que vou lá tem visitas que a ajudam no que podem; ajudam no que podem os amigos, faz tudo o que pode esta filha para cumprir a promessa feita ao pai de que nunca poria a mãe num lar. E neste " fazremos o que podemos" sentem-se os filhos ( alguns ), os familiares e os amigos impotentes perante os problemas que a idade avançada trazem. Além deste familiar, tenho uma outra tia de 92 anos cuja neta vive com ela, mas, necessitando de trabalhar , é obrigada a deixá-la sozinha muitas vezes ( trabalha por turnos ) e o dinheiro não é suficiente para contratar alguém que lhe faça companhia. A opção, na minha opinião boa, seria um lar, mas como convencer a minha tia a deixar a casa onde sempre viveu? Amiga, estaria aqui horas a falar deste assunto que muito me entristece, mas que, mais uma vez, a impotência para o resolver me atinge; vendo todos estes casos não posso deixar de ter medo da velhice, ou melhor, medo do que que a vida me reserva daqui para a frente. Mas...a vida não quer saber das nossas reflexões, dos nossos medos; está interessada sim, na capacidade que temos ou não de nos darmos aos outros, de espalharmos sorrisos, mesmo que na nossa alma só haja lágrimas. E é isso que tento sempre, amiga! Agradecendo-te mais uma vez a oportunidade que nos dás de debater assuntos tão pertinentes, deixo-te um grande abraço e a minha sincera amizade, traduzida em palavras,, mas nem por isso menos sincera.
    Emilia
    guem

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    1. Querida Emília, poderíamos ficar aqui horas a falar destes assuntos. O envelhecimento é um processo muito complicado. Expõe a vulnerabilidade, que raramente queremos ver. É uma espécie de vida desprotegida que se aproxima lentamente de todos nós.
      Eu é que agradeço a sua presença assertiva e os seus comentários sempre pertinentes. Também gosto muito de a visitar. Aprendo muito com as suas reflexões.
      Peço imensa desculpa pelo atraso da minha resposta ao seu comentário. Os últimos tempos não têm sido fáceis.

      Um grande beijinho

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  20. Parabéns pelos dois anos. E que sorte podermos continuar a ouvir a sua voz. :)

    Bjs

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    1. Obrigada, querida Princesa. Acredite que o sentimento é recíproco. Aprecio muito o que escreve e a sensibilidade como descreve o mundo, apurada e sempre delicada, mesmo debaixo de vinte edredões e vinte colchões :)
      Eu sei que este meu atraso na resposta fere todos os protocolos, mas, ainda assim, estimada Alteza, espero que me desculpe.

      Um beijinho

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  21. A vida, a autêntica, só faz sentido para lá das zonas de conforto. Nem sempre temos dimensão para a abraçar, mas só no tentar, no insistir, por mais que nos magoemos, é que podemos ter a noção da verdadeira dimensão humana. Dói? Ah pois, que isto de viver não é uma excursão de fim-de-semana, é uma caminhada, sem fim à vista, a tentar apanhar pontas soltas...
    Mais um texto de grande dimensão, Miss Smile. Parabéns por dois anos de profícua partilha.

    Abraço

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    1. Instalamo-nos muitas vezes na nossa zona de conforto, deixando que esta substitua a própria vida. Mas é preciso ver o mundo por outras janelas. E, às vezes, o mais difícil de ver não é o que está longe, mas precisamente o que está mais perto.
      A vida está repleta de pontas soltas que não conseguimos amarrar bem. E quando tentamos amarrar umas, a vida encarrega-se de desatar outras. Mas isso é viver. E a vida começa precisamente quando saímos da nossa zona de conforto.
      AC, sabe que é um dos bloggers masculinos que mais gosto de ler? Pela lucidez e maturidade das suas reflexões, mas também pela ternura e candura com que vê o mundo. É um prazer lê-lo.

      Um abraço (e desculpe-me o atraso da resposta)

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  22. Muito obrigada Miss Smile por ter criado o Notas de Chá, por escrever como escreve, por nos abrir a porta e nos receber aqui e nos tocar com as suas palavras, muitos parabéns pelo aniversário e um beijinho
    Gábi

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    1. Querida Gábi, eu é que lhe estarei sempre grata por ter sido das primeiras a fazer referência a este blogue. Admiro muito a sua postura na blogosfera, a sua generosidade, as suas partilhas e os seus textos. Gosto de si, pronto! :)

      Um beijinho (e peço-lhe que não me leve a mal este meu comentário com tantos dias de atraso)

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