sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O lenço



Imaginemos um lenço de assoar, daqueles que raramente servem esse intento. Não é um lenço de papel. Não faz abater árvores e não se desfaz com o peso das lágrimas. Também não tem rendas, bordados ou brasões. É um lenço simples, branco, com um fino debrum vermelho, que uma mão de dedos compridos retira do bolso e estende silenciosamente a outra.
Sentados sobre uma cama estreita, adornada por uma colcha desbotada de malmequeres em flor, estão dois vultos. Ela está sentada de pernas cruzadas, com as costas curvadas como se suportasse todo o peso do mundo. Ele, com o corpo inclinado para ela, vela a sua tristeza profunda. Sabe que aquelas lágrimas não lhe pertencem, que ela chora por outro, mas, ainda assim, não consegue deixar de sentir a combustão silenciosa onde arde o amor. É um amor não correspondido, que ele suporta com uma mudez que nenhum outro homem compreenderia. Perante aquela intimidade inesperada, mal se mexe com receio de estragar a delicada filigrana do instante que nenhuma palavra criara antes. Escuta o seu desalento, as palavras magoadas, às quais a última luz do dia confere mais peso. Com o olhar, acompanha o movimento da sua mão e a forma como ela, lentamente, encosta o lenço à face molhada, confirmando o que ele já sabe, que os desgostos de amor trazem vagar aos gestos. Mas logo ela solta uma exclamação de dor, que soa como uma pergunta sem resposta, erguendo-se de um salto. Agradece-lhe educadamente a presença e manda-o para casa, ignorando que ele, se preciso fosse, ficaria ali para o resto da vida. Dá-lhe um abraço despegado e devolve-lhe o lenço, húmido de lágrimas tristes, que ele dobra cuidadosamente e guarda bem apertado na mão. Ela tinha dezasseis anos, e ele, dezassete.

Anos mais tarde, ela casou com o homem que lhe partira o coração. Ele nunca casou. Talvez porque não estivesse interessado em compromissos mais duradouros ou talvez porque continuasse a ver a silhueta dos seus traços nas várias mulheres com que se envolveu. Nenhum dos amigos sabia da sua existência e ele nunca se referia a ela. Escondia de todos esse amor intacto, intocado. No fundo, talvez tivesse ainda alguma esperança. Há possibilidades que iluminam tanto como qualquer verdade. É certo que nunca mais voltara a vê-la e ela talvez já não coincidisse com a imagem que tinha dela, mas isso não importava. Naquela forma de vida escondida, venerava esse amor como um santuário que não fora profanado.
No dia em que soube da sua morte, retirou o lenço da caixa onde guardava as cartas que lhe escrevera e que nunca enviara. O lenço, indiferente ao implacável e silencioso movimento do tempo, apresentava o mesmo debrum vermelho, da cor fresca do sangue. Levou-o ao rosto, sentindo um aroma antigo que evocava a memória das coisas perdidas. Então, na quietude do seu quarto, chorou a profundidade e a distância, o que fora e já não era, e as suas lágrimas caíram no lenço, fundindo-se nas dela.


16 comentários:

  1. Revi, aqui, alguns sinais do grande amor de Florentino Ariza e da mulher que trouxe no coração durante toda a sua vida. Mas, não, aqui não houve reencontro...Que pena.

    Um beijinho e bom fim de semana, querida Miss. :)

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    1. Pois, mas este era um amor unilateral. E uma andorinha só não faz verão...

      Um beijinho e um domingo feliz, querida Janita :)

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  2. Pena ele não ter encontrado um outro amor. Os meus antepassados diziam: Mordedura de cão trata-se com pelos de outro cão.
    Um abraço, Miss Smile e um Bom Natal-

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    1. Talvez porque este amor, puro e imaculado, tivesse uma outra função...

      Um abraço, Benó, e um Feliz Natal

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  3. Miss Smile, mais uma história delicada, cheia de cheiros, personalidade e pormenores.
    Um grande beijinho.

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    1. Todas as histórias de amor encerram cheiros, personalidade e pormenores. Mesmo as que não foram consumadas.

      Um beijinho, Laura, e obrigada

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  4. Miss Smile, estou a roer-me de inveja, isto sim é saber escrever :)

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    1. Manel, tu é que escreves muito bem e estou a ser absolutamente sincera. Eu vou pintando cenários...

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  5. Uma perdição, esse amor.
    Condenação eterna Miss Smile.

    Bjnhs


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    1. Num certo sentido, sim. Por outro lado, foi uma fonte de luz, profunda e misteriosa, que guiou a sua vida.

      Um beijinho, mz

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  6. "Há possibilidades que iluminam tanto como qualquer verdade."

    Querida Miss Smile, talvez por ser um amor não correspondido, permaneceu para sempre intocável e puro.
    Um texto com a qualidade a que já nos habitou e que me transportou para uma paixão muito antiga, que apesar de não ter um final assim tão trágico, também não foi correspondido :)
    Como posso não ter outra oportunidade, desejo-lhe um Natal cheio de paz, alegria e muita inspiração.

    Um beijinho com carinho

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    1. Precisamente. Um amor não correspondido, ou impossível, é uma ponta solta que podemos amarrar da forma que quisermos. É um santuário de possibilidades, uma tentativa de conferir uma certa eternidade ao mundo humano, onde nada é eterno.

      Um beijinho com amizade, querida Fê, e um Feliz Natal para si e para a sua família

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  7. O amor é o sentimento mais desejado nas nossas vidas e é tão bom senti-lo, amiga, mas...como ele faz sofrer tantas vezes!!! Perdemos pessoas que amamos, umas porque chegou o ultimo instante , outras porque resolveram escolher outro caminho e ainda algumas que, por circunstâncias da vida estão longe e a ausência doi. A vida assim quer e não adianta querer lutar contra os seus designios; ela sempre vence! Podemos e devemos, isso sim, escolher o caminho da aceitação e não deixar que esse sofrimento nos deixe amarguradas, transformando-nos em pessoas azedas para os que connosco continuam e também para com os outros. E aqui, vem a tal " senhora empertigada " no alto do seu salto, dando " pontapé " a quem é obrigado a servi-la. Muitas vezes essas atitudes nem são provocadas por " desaires" da vida, por falta de amor. São pessoas que se acham melhor que os outros, que pensam que o dinheiro que têm lhes dá poder e que os simples empregados estão ali para os servirem, simplesmente. Não serei a única, mas conheço algumas e penso que precisariam de " um abanão " da vida para chegarem à conclusão de que o que têm não vale nada; não consigo entendê-las. Como se costuma dizer, " as telhas do telhado cobrem muita coisa " e se calhar o meu " conheço algumas " está errado; parece-nos não faltar amor, existir alegria, haver harmonia entre filhos e pais, mas na realidade, talvez haja ali qualquer coisinha que azede essa pessoa. Mentes e corações fechados que nos deixam, por vezes perplexos. Amiga, tinha muitas dificuldades em ficar calada em situações dessas e uma vez tirei o salto a uma pessoa que , ao balcão, humilhou um senhor de idade, à minha frente na fila; deixei-o sair e, chegando a minha vez, antes de me referir ao que desejava, fiz o balconista ficar de sapato raso. Fiquei pasmada por ver tanta gente nas filas ao lado a ouvirem o meu protesto e não houve uma que me defendesse. Mas olhe, vim de lá de alma lavada. Agora sou mais contida, mas não sei se me agrada esta minha mudança.
    Alonguei-me muito, mas penso, querida amiga, que já está habituada aos meus " testamentos. Já que estamos a falar de amor e de lágrimas, desejo que, se as lágrimas quiserem " atrapalhar " o seu sorriso o façam só por grande alegria, não só nesta quadra, mas sempre. Paz, saúde e muita serenidade para si e para os que ama. Um beijinho e obrigada!
    Emilia

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    1. Querida Emília, escreva tudo o que quiser que eu gosto muito de ler os seus comentários. Eu acho que o problema é mesmo o amor. As pessoas com energias ácidas e amargas não compreendem o que é o amor. E o amor não é competição, luta, posse, poder. Normalmente, os complexos de superioridade disfarçam, na verdade, alguns complexos de inferioridade. Muitas vezes, a relação que estabelecemos com os outros espelha a relação que temos connosco próprios. Uma pessoa que gosta de si, que se estima e aceita, com benevolência, as suas próprias limitações e imperfeições, não trata os outros de forma tão crítica e corrosiva. Não precisa de descarregar as suas frustrações nos outros.
      Que estes dias, querida Emília, sejam também de paz e serenidade na companhia dos que ama

      Um beijinho e obrigada pelas suas palavras

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  8. Sublime, querida Smile!
    É uma maravilha de criatividade, delicadeza e sensibilidade, ou seja, a marca de uma prosa perfeita e de bom gosto, que muito admiro.
    Dias de Advento muito aprazíveis.
    ~~~ Beijinhos, querida amiga ~~~

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    1. Oh, querida Majo, até me fez corar :)
      Muito, muito obrigada. Fico mesmo muito contente por gostar do que escrevo.

      Um beijinho e um domingo feliz :)

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