domingo, 31 de janeiro de 2016

O recheio do pastel de nata






Nunca tive inclinação para homens muito bonitos. Talvez porque tivesse a sensação - provavelmente errada - que não se esforçavam tanto. Na verdade, sempre preferi o recheio. Claro que as dioptrias somadas ao longo destes anos não me fizeram míope para a beleza. Entre as minhas amigas, tenho até fama de ter um olho ajuizador para o assunto. Porém, sempre que me apaixonei, nunca foi pelos homens mais bonitos. Mas, como todas as regras têm uma exceção, houve um Adónis na minha vida. Chamava-se Zé do Porto e era oriundo do Porto, como o próprio cognome indicava. Era muito bonito, com um cabelo louro e liso que lhe caía sobre a testa com uma elegância descuidada. E os olhos, muito azuis, pareciam pequenos pontos de luz que tremeluziam ao fundo. Tinha um porte elegante e caminhava balouçando-se um pouco para trás nos calcanhares. O Zé era muito cobiçado. Usava, no dedo anelar, uma aliança de prata, como se estivesse sempre comprometido com todas as mulheres que desejava. Mas, na altura, o que mais me fazia estremecer era o seu olhar. Quando me pediu namoro – na minha juventude, por volta do Paleolítico Superior, exigiam-se esses protocolos – olhou para mim de sobrolho erguido, como se estivesse mesmo a ver-me e a gostar do que via. E eu, que nem sequer gostava dele, aceitei o pedido, o que me fez entrar diretamente para o Top das Mais Populares do liceu. O rapaz era charmoso, delicado, até, mas devo confessar que era egocêntrico e demasiado preocupado com a sua aparência. Irritava-me que, quando caminhávamos lado a lado, não resistisse a estugar o passo para que eu não encobrisse o seu reflexo no vidro das montras. Por fim, não sem alguma amargura, enfrentei o que tinha de ser enfrentado: por baixo da textura crocante, não havia recheio que me fizesse suspirar. As conversas entediavam-me, os temas eram pouco empolgantes, todos à volta do futebol e dos erros do árbitro. Usava sempre “Zé” quando falava de si próprio e não conseguia dizer mais de duas frases seguidas. É certo que o seu sotaque tripeiro me provocava benignas ondas no estômago, mas, na maioria dos casos, perguntava-me: o que estás aqui a fazer? O Zé do Porto era uma estampa, é verdade, mas nunca me fez sair de mim própria. No dia em que conclui que o rapaz não passava de uma bonita distração, decidi que não queria continuar a desperdiçar mais tardes livres e pus um floreado ponto final no caso. Ele reagiu de cabeça erguida, como eu esperava, e recompôs-se em breves segundos. Não perdeu tempo em começar a esboçar o seu melhor sorriso à matador que era o mesmo que afixar um letreiro onde se podia ler DISPONÍVEL. E, de facto, poucos dias depois, o Zé já cirandava pelo liceu balançando-se nos calcanhares, com uma nova namorada de olhos verdes pintados, pendurada no braço. Quanto a mim, a façanha abrira-me as portas a uma promissora carreira política. Silenciosamente admirada pelos rapazes e raparigas despeitados e rejeitados da escola, que viam no meu rompimento uma heroica emboscada contra o Senhor Despedaça Corações, rapidamente conquistei o estatuto de uma espécie de Robin dos Bosques do amor, o que me valeu o cargo de delegada de turma, tarefa que desempenhei com devotada paixão. Desde aí, nada mudou. Mantenho o cargo de delegada de turma cá em casa e continuo a preferir a doçura generosa do recheio do pastel de nata à massa estaladiça. E, quando ninguém está a ver, gosto de o comer com uma colherinha de café, acompanhado de um café amargo. É por isso que eu, que tomo o café sem açúcar - quando não bebo chá, claro está -, não dispenso a colherinha que pode sempre dar jeito.